Kaldheim

Coletânea de Histórias em Português

Sumário

07/01/2021 | Por Roy Graham & Jenna Helland

Episódio 1: Viajantes

Eles vieram em navios como nada que os aldeões de Sevalgr tivessem visto antes. Longos e esguios, inscritos com contos de batalhas gloriosas e vitórias astutas, deslizando sobre as ondas como os drakes e serpentes esculpidos em suas proas. Não eram nada parecidos com os magros barcos de pesca, que proviam a única fonte de alimento para a vila agora que não podiam mais entrar na floresta.

Caminho do Portal de Névoa | Arte de: Yeong-Hao Han

Nem os homens e mulheres a bordo desses navios estavam encolhidos, curvados pela fome e pelo medo, como o povo de Sevalgr estava; mesmo o barba-cinzenta que os acompanhava, aquele com o corvo no ombro, não parecia se apoiar pesadamente em seu cajado. Eles usavam capuzes e cachecóis, gibões de pele de peixe, armaduras — embora nada que os arrastasse para o fundo do mar se caíssem na água. Seus corpos eram tatuados com mapas de navegação. Não poderia haver erro. Eram Buscadores de Presságios.

O hersir convidou-os para o salão comunal, onde preparara uma refeição tão boa quanto poderiam oferecer aos viajantes. Assim era a tradição em Kaldheim; nunca se sabia quando o estranho à sua porta era um dos deuses disfarçados. Mas a líder do clã — a mulher cega, que de alguma forma não precisava de ajuda para navegar pelas ruas estreitas e lamacentas — recusou a oferta. Não estavam aqui por peixe salgado e biscoito duro.

"Quando os desaparecimentos começaram?" ela perguntou. Nenhum dos aldeões jamais conhecera Inga Olhos-de-Runa, a líder do clã dos Buscadores de Presságios, mas seu estranho olhar branco não deixava dúvidas sobre com quem falavam.

"Não são desaparecimentos, são assassinatos", disse uma mulher, perto da frente da multidão que se reunira. Ela perdera duas filhas no último mês.

"Você não sabe disso!" gritou outro homem, com os olhos encovados e vermelhos de tanto chorar. Ele perdera o marido.

"Vocês não encontraram nenhum corpo", disse Inga, gentilmente. "Está certo?"

Ambos assentiram rigidamente.

"Nenhum corpo. Mas um dos caçadores viu", disse o hersir.

"Viu o quê?" perguntou Inga.

"Vá em frente, Hras", disse o vereador. "Diga a eles."

Um jovem deu um passo à frente, não tendo mais que dezesseis anos. Em um dos braseiros, um carvão estalou com faíscas; ele encolheu-se com o ruído.

"Rapaz, o que você viu?" perguntou Inga. Lentamente, para não alarmar o jovem. "O que está fazendo isso com sua cidade?"

Ele esfregou os braços, como se estivesse com frio. Recusou-se a olhar para ela. "Um monstro. Era um monstro."

Se Inga ficou surpresa, não demonstrou. "Asi", disse ela, acenando para o velho com o pássaro, "quero um grupo de guerra pronto para partir dentro de uma hora. Tripulações mínimas a bordo dos navios até retornarmos. Todos os que puderem ser poupados irão para a floresta Aldergard."

O velho, que estivera assentindo atentamente até então, parou. "E sua~convidada? Ela virá também?"

Os aldeões a tinham visto, é claro. Aquela mulher em trajes estranhos, perambulando perto dos navios enquanto os Buscadores de Presságios baixavam as velas e prendiam suas embarcações aos envelhecidos docas de Sevalgr. Aquela que olhava para eles como se fossem curiosidades arrancadas das profundezas.

"Kaya?" disse Olhos-de-Runa. "Tudo isso foi ideia dela, em primeiro lugar."

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Inga Olhos-de-Runa | Arte de: Bram Sels

É, tudo bem — fora ideia dela. Viajar para o ermo, abater a besta terrível que andara devorando os habitantes da cidade. Parecia o tipo de coisa que heróis faziam, e ela supunha que agora era uma heroína. Não fazia mal estar sendo paga por isso, embora certamente desejasse saber quem a estava pagando. Mas moedas anônimas, cunhadas de meia dúzia de planos diferentes, eram difíceis de contestar, e como um benefício adicional, parecia algo bom e simples. Nada como aquele negócio confuso em Ravnica.

Estava tudo correndo conforme o plano até agora, só que ela não contava com o ermo sendo tão~selvagem. Kaya estava acostumada com a solidez dos paralelepípedos sob os pés, a pressão de uma multidão ao seu redor. Estava acostumada com o barulho. Aqui fora, em Aldergard, cada passo esmagando a neve parecia ecoar entre os pinheiros massivos por quilômetros. Tinha tido um caso persistente de arrepios desde que partiram, e não era apenas por causa do frio.

"Este lugar é sempre tão silencioso? Já estive em tumbas que eram mais animadas", disse ela quando pararam por um momento de descanso sob os ramos das grandes árvores acima.

O velho — Asi, dissera que seu nome era — ergueu uma sobrancelha. "Talvez uma tumba animada não seja tão rara, quando se é uma caçadora de espíritos."

"Você pode ter razão." Inga, líder dos Buscadores de Presságios, fora a primeira pessoa que Kaya conhecera neste plano, e parecia ser gente boa. Difícil de conhecer, no entanto — sempre parecia distraída, como se falar com você estivesse desviando sua atenção de algo mais urgente. O velho, ela descobrira, era melhor companhia.

"Aldergard é um lugar antigo e estranho. Os Buscadores de Presságios são exploradores lendários, mas mesmo eles raramente viajam tão longe para dentro da floresta. Longe demais do mar, de seus navios. Inga Olhos-de-Runa tem uma visão além da maioria dos mortais; ela tem conhecimento de cada local para onde os membros de seu clã foram. Mesmo ela sabe pouco deste lugar, no entanto."

"Estranho, antigo — eu entendo tudo isso. Ainda assim esperaria ver alguns animais. Um esquilo, ao menos. Vocês têm desses aqui, não têm?"

"Oh, sim. Na verdade, Toski, o mensageiro dos deuses, é um primo grande do esquilo comum. Há muitas histórias dele correndo pelos galhos da Árvore do Mundo, entregando notícias através dos muitos reinos de Kaldheim."

Ele tinha aquela voz que Kaya associava a avôs caducos, mas ela tinha que se lembrar que essas "histórias" provavelmente não estavam longe da verdade. Vira ela mesma os galhos da Árvore do Mundo nos céus de Bretagard — pendendo lá, massivos além de qualquer mensuração, desaparecendo atrás das nuvens que passavam. Um esquilo gigante. Bem, por que não? Já vira coisas mais estranhas.

"É incomum, no entanto, passar tanto tempo nestas matas sem um sinal de vida. Quase como se os pássaros e as bestas pretendessem evitar este lugar", disse Asi.

"Talvez eles tenham mais juízo do que nós."

"Você se surpreenderia com quantos têm."

"Pessoas levadas na noite" — um Buscador de Presságios começou a murmurar perto deles. O medo era claro em sua voz — "na borda das matas, como ovelhas. Vocês ouviram o que aquele caçador disse — ele viu um monstro. E se isto não for apenas uma besta crescida demais?"

"O que você está sugerindo que estamos rastreando, rapaz?" disse Asi.

"Sarulf", disse ele, baixando a voz para um sussurro, como se falar o nome pudesse fazer a coisa subitamente aparecer. "O Lobo Medonho. O Devorador de Reinos."

"Um lobo? É isso que faz você pular a cada floco de neve?" disse Kaya.

"Sarulf não é um animal comum", disse Asi. "Ele é um dos Monstros do Cosmos. Criado no nascimento do mundo, habitando no vazio entre os reinos. Seria um inimigo poderoso de se enfrentar, de fato — mas eu não me preocuparia", disse Asi. "Não é do feitio de tais seres espreitarem e demorarem nos cantos escuros de Aldergard. Se viessem a Bretagard, não o fariam em segredo."

Dos galhos acima deles veio um grasnido áspero. A mão de Kaya foi para uma das adagas em seu cinto. Um corvo girava em círculo acima deles, descendo cada vez mais baixo, asas negras destacando-se contra o céu branco de neve.

"Ah", disse Asi. "Hakka voltou."

Pousou em seu braço, então pulou para o seu ombro, onde pareceu inclinar-se perto do seu ouvido. Kaya nada ouviu, apenas viu o bico do pássaro abrindo e fechando, o velho inclinando a cabeça pensativamente.

"Bem", disse ele, "meu amigo pode ter nos encontrado uma pista."

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Kaya, a Inexorável | Arte de: Tyler Jacobson

Parecia, para Kaya, exatamente o tipo de lugar para encontrar um monstro. À frente do grupo, a boca da caverna bocejava larga e escura. O pouco de luz que atravessava a cobertura de nuvens e a copa da floresta não chegava além dos primeiros passos. Em frente à caverna, a neve estava manchada por um longo rastro de sangue e sujeira; algo fora arrastado para dentro.

Silenciosamente, com as mãos em suas armas, os Buscadores de Presságios sussurravam pequenas preces aos seus deuses. Kaya não podia dizer que os culpava; para ser sincera, ela desejava ter alguns deuses para quem rezar naquele momento. Caça de monstros. De quem fora aquela ideia brilhante, afinal?

Ah, certo, pensou ela. Minha.

"Você está pronta, Kaya?" perguntou Inga. Ela não tinha arma própria; apenas uma lanterna, acesa com uma chama azul bruxuleante. Engraçado ser ela quem carregava a fonte de luz. "Você viajou longo e longe para chegar aqui."

"É, bem. Melhor continuarmos com isso", disse ela. Com muito mais confiança do que realmente sentia, Kaya deu o primeiro passo para dentro.

Estava mais quente na caverna. Ao menos era alguma coisa; Kaya podia deixar as peles pesadas em que estivera envolta todo esse tempo escorregarem um pouco mais frouxas. Juntas, ela e os Buscadores de Presságios avançaram furtivamente, cada arrastar de botas na pedra ou aço no couro parecendo reverberar além deles para as profundezas. Logo, até a luz fraca da superfície se fora, e o feixe azul da lanterna de Inga era tudo o que tinham para partir a escuridão. Conforme varria uma parte da parede da caverna, algo brilhou.

"Espere", disse Kaya. "Traga aquela luz de volta."

No feixe da lanterna, Kaya teve certeza: veios de algum tipo de metal corriam pela parede e pelo teto da caverna. Não se parecia com nenhum mineral que ela já tivesse visto, porém. Em alguns pontos, parecia se ramificar em fractais palmados, semelhantes a raízes, formando um amplo rendilhado sobre a pedra.

"Já houve uma mina aqui?" ela perguntou.

"Não", murmurou Inga. "Este lugar deveria ser rocha estéril."

"Bem, muito obviamente não é. Não mais."

Ao lado dela, um dos Buscadores de Presságios estendeu a mão em direção à parede. Kaya pegou o pulso dele. "Eu não tocaria nisso."

Ele puxou a mão de volta. "Por que não?"

"Chame de intuição."

Sem palavras, continuaram se movendo. Difícil dizer quanto tempo passaram arrastando-se para frente, a escuridão por todos os lados parecendo espremer o fôlego deles. Pareceu um longo, longo tempo — horas, não minutos — de modo que quando a passagem finalmente se abriu em uma câmara larga, o teto de terra desaparecendo acima deles na escuridão, teria parecido um alívio. Teria, se não fosse pelo que viram no centro da câmara da caverna.

A princípio, Kaya pensou que a figura corpulenta debruçada sobre a carcaça de um urso-medonho estivesse simplesmente comendo. Os ruídos de asfixia úmida, o som de carne sendo arrancada do osso, tudo apoiava essa teoria. Mas quando o feixe da lanterna de Inga varreu a criatura e ela se virou para enfrentá-los, Kaya pôde ver que não estava exatamente certo — os braços do monstro estavam enterrados no flanco do urso, de alguma forma fundidos com sua carne. Com um som horrível de estalo, Kaya observou conforme o monstro se arrancava para se libertar.

"Aquilo", siseou Kaya, "não é um lobo."

Tinha uns quatro metros de altura, talvez mais, seu corpo de uma cor rosa avermelhada crua. Nos ombros havia uma juba de pelos irregulares, uma dúzia de tons diferentes misturados. Os braços que estiveram afundados no urso pareciam longos e poderosos, terminando em garras horríveis e curvadas. Dois braços adicionais e esguios estendiam-se de seu peito, mãos com garras contraindo-se como aranhas. Tudo estranho, mas nada tão estranho quanto sua cabeça; um rosto cadavérico flanqueado por presas de navalha e galhadas largas e espinhosas, tudo da cor de osso, mesmo brilhando como metal à luz da lanterna de Inga.

Abriu a boca, tendões vermelhos trabalhando sob sua máscara de placas, e emitiu um ruído que assustou Kaya de um jeito que nenhum espírito jamais fizera — como o rugido de um urso, mas errado. Uma má imitação. Então baixou-se em uma investida galopante direto contra eles.

Kaya saltou fora do caminho, rolando pelo chão da caverna e levantando-se com as adagas em punho. Dois dos Buscadores de Presságios não tinham sido tão rápidos; um estava preso sob a criatura, gritando conforme os braços esguios afundavam em seu rosto como se sua carne fosse apenas água. O outro debatia-se conforme era erguido em uma mão monstruosa.

Era uma exibição horripilante, o suficiente para enviar guerreiros menores fugindo em pânico, e os Buscadores de Presságios não eram realmente guerreiros de coração. Viajando com eles desde os Pilares de Kirda, Kaya aprendera o que era que realmente os impulsionava para frente: a emoção da exploração, da descoberta. Estavam dispostos a lutar, como parte disso, mas nunca se deleitavam com a luta. Para seu crédito, porém, nenhum deles deu meia-volta e correu. Até porque não chegariam longe, pensou ela.

Formando um semicírculo ao redor do monstro, vários espetavam lanças contra ele enquanto outros golpeavam seus membros estendidos com espada e machado, abrindo grandes cortes sangrentos a cada golpe.

"Não toquem nele!" gritou Kaya por cima dos gritos do homem preso, até que algo o interrompeu com um gurgle úmido.

Diante de seus olhos, os ferimentos pareciam se fechar, músculos soldando-se de volta uns aos outros. De um corte particularmente profundo, gavinhas chicoteantes saíram, prendendo-se no braço de uma espadachim e arrastando-a até o ombro para dentro da carne do monstro. Presa ali, ela sacou uma faca do cinto e apunhalou a criatura horrível repetidamente até que ela a soltou. Caiu no chão, agarrando o braço e gritando de dor.

Não basta cortar a carne, pensou Kaya, imbuindo energia em suas facas. Tinha que cortar mais fundo.

A criatura deu o bote novamente, seus ferimentos já selados. Apesar de todo o seu músculo e volume, movia-se com uma velocidade aterrorizante. Antes que outro golpe pudesse atingir, porém, seus talões desaceleraram e então pararam bruscamente a trinta centímetros de um machadeiro que recuava. Havia uma aura azul cercando seu braço, percebeu Kaya, e ela parecia estar ficando mais densa diante de seus olhos, endurecendo em um tipo de cristal translúcido. Kaya seguiu a luz de volta à sua fonte: a lanterna de Inga. Enquanto a criatura arrastava-se e esforçava-se contra o feitiço de estase, o rosto de Inga retorcia-se com o esforço.

Nada mal, pensou Kaya. Agora era sua chance. Kaya investiu para frente, sua adaga vibrando com magia, e desferiu um corte direto através do braço preso do monstro, decepando-o no ombro. Carne, osso, espírito — se pudesse ser cortado, ela o cortara.

O braço atingiu o chão de pedra da caverna com um baque úmido e começou a enegrecer e esfarelar em cinzas onde Kaya o cortara. A criatura rugiu novamente, aquele som de urso misturando-se com algo por baixo — um ruído como o de metal rangendo. Enquanto ela se retorcia de dor, o Buscador de Presságios morto, ainda fundido às suas garras frontais menores, balançava, flácido como um peixe.

Com um movimento nauseantemente parecido com um abraço, o monstro pressionou o homem flácido contra o seu corpo. Ele desapareceu na carne rosa crua, lentamente absorvido. Então, do toco onde seu braço estivera, outro começou a crescer. Aconteceu com uma velocidade notável — os músculos tecendo-se, os talões endurecendo de uma translucidez juvenil para uma borda preta dura nos poucos segundos em que ela foi mantida transfixada pelo espetáculo horrível. Terminado, flexionou uma mão completa, algo estalando suavemente no lugar, antes de virar aquelas órbitas oculares vazias em direção a ela.

Oh, deuses e monstros, pensou Kaya. Então ela investiu.

Esquivou-se sob seu primeiro golpe e tornou seu torso éter fantasmagórico para que o segundo passasse direto. Consigo feri-lo ao menos semipermanente, pensou ela. Já é alguma coisa. Agora ela só tinha que encontrar outra abertura para golpear, um momento em que pudesse canalizar poder em uma de suas lâminas em vez de usar sua magia para fasear fora desses golpes incessantes. Ela dançava e tecia, tão rápida quanto seu inimigo.

Subitamente, seu calcanhar atingiu rocha. A parede da caverna. Ela praguejou. Não estivera atacando sem pensar — estivera acuando ela, conduzindo-a a um canto onde toda a sua agilidade seria inútil.

O monstro recuou um garra terrível exatamente quando outro prisma de luz azul selou-se ao redor dele, prendendo o golpe no meio do ar. Inga, vinda dos Buscadores de Presságios que se reagrupavam, trabalhava aquela luz da lanterna em outro feitiço de contenção. Boa, Olhos-de-Runa. Outro prisma travou o outro talão no lugar. Ela o estava segurando, mesmo que por apenas um momento.

Então o monstro fez algo que a surpreendeu: arrancou o próprio braço, deixando a mão presa flutuando no ar, e golpeou Kaya com o toco, os músculos contraindo-se e buscando por ela.

Não toque nele, pensou ela. Só havia um caminho para ir, então.

Kaya caiu para trás para dentro da parede da caverna, o choque gelado de fasear rasgando todo o seu corpo. Foi apenas por um momento — mas que momento longo pareceu. Seu coração parou. Tudo o que a tornava viva, que a tornava Kaya, ficou cinza e desbotado.

Então ela estava caindo de volta no chão da caverna, a alguns metros à esquerda do monstro. Viu-o girar, aquelas pesadas pernas símias propelindo-o em sua direção, e Kaya lutou para reiniciar seus pulmões. Levanta. Levanta!

"Chega!" bradou uma voz, ecoando pelas paredes da caverna. Para surpresa e alívio de Kaya, a criatura de fato desacelerou, sua atenção atraída pelo som por um momento. Aquilo foi o suficiente; ela concentrou todo o poder arcano que pôde reunir em sua lâmina e investiu, cortando baixo, atravessando de lado a lado uma das pernas do monstro.

Aquela voz, pensou ela, encolhendo-se em um rolamento no outro lado da criatura uivante, levantando-se em posição de combate. Soava familiar, e no entanto~

Foi só então que ela notou a radiância mutante, pavonina, que agora preenchia a caverna. Olhou de volta para os Buscadores de Presságios e viu Asi.

Alrund, Deus do Cosmos | Arte de: Kieran Yanner

Não — não Asi. Não exatamente. Seu capuz fora jogado para trás, e de seus olhos vertia aquela luz estranha que iluminava as paredes da caverna, um padrão mutante de verdes, azuis e roxos. Não apenas um velho charmoso, então. Ou, não apenas isso.

"Nunca vi tamanha imundície ousar profanar estes reinos! Nem mesmo os demônios de Immersturm são tão vis."

Não estava claro, pensou Kaya, quanto daquilo estava chegando à monstruosidade à frente deles. Com a perna perdida, esfarelando-se em cinzas, ela se equilibrara em seus três membros restantes enquanto as mãos menores permaneciam dobradas perto do peito. Encurvado, parecia ainda mais bestial do que antes. Kaya não era uma mestre caçadora, mas até ela sabia que um animal é sempre mais perigoso quando ferido.

O monstro lançou-se em sua direção mais uma vez, mas Kaya estava pronta desta vez. Estava desacelerando agora. Ela o pegaria na próxima passagem. Um corte limpo no pescoço deve bastar.

Subitamente, o monstro colidiu contra—nada. Tropeçou para trás, então arremessou seu peso para frente novamente. Houve um zumbido profundo, e o ar ondulou onde ele fez contato. Uma barreira mágica, percebeu Kaya, e uma bem forte, por sinal. Até ela teria tido problemas para fasear através daquilo.

Ela virou-se. Atrás dela, Asi estava com o braço estendido, aquela energia coruscante ondulando ao redor de sua mão. O monstro olhou entre ela e Asi com algo que ela julgou reconhecer como incerteza. Então, com mais um rugido de moagem, virou-se para fugir.

"Espere!" gritou Kaya. "Pare-o!"

Mas era tarde demais. Galopando para frente com aquele estranho andar de três pernas, o monstro correu direto para uma seção da parede da caverna de onde todo o metal fúngico parecia estar se espalhando. Sem desacelerar, atirou seu corpo contra a superfície prateada. Em vez de parar — ou colapsar a caverna sobre todas as suas cabeças — pareceu afundar no metal, como se fosse um líquido espesso e viscoso. Um momento depois, era uma mistura bulbosa de carne e minério, e um momento depois disso, sumira.

O silêncio assentou-se sobre a caverna. Os Buscadores de Presságios pareciam estar recuando do ainda radiante Asi, protegendo os olhos. Até Inga parecia abalada; aqueles olhos brancos sem visão permaneciam fixos em seu antigo conselheiro.

"Alrund", sussurrou Inga. "Eu—eu ouvira as sagas, é claro, mas nunca pensei~"

"De fato, Inga Olhos-de-Runa. Convém aos deuses, de tempos em tempos, viajar em trajes mortais, para que possamos observar Kaldheim sem sermos observados em retorno", disse Asi, sua voz profunda, dobrada em um eco não natural. "E o que vi me preocupa grandemente. Através dos reinos estão—"

"Você deixou ele escapar!" disparou Kaya, guardando suas adagas bruscamente de volta nas bainhas.

Asi — Alrund? Tanto faz — pausou diante daquilo. Claramente ninguém falava com ele de tal maneira há muitos, muitos anos.

"Nós o enfraquecemos", disse Kaya. "Eu vi ele desacelerando. Da próxima vez ele saberá que estamos vindo. Estará pronto para nós. Aquela coisa não é tão burra quanto parecia."

"Então você pretende persegui-lo adiante, mesmo após ver do que é capaz", disse Alrund.

"O trabalho não terminou. E já fui paga." Não era apenas cortesia profissional, embora ela não estivesse prestes a admitir isso na frente de toda essa multidão. Aquela coisa era perigosa — e, ela começava a suspeitar, não era daqui. Mas aquilo não fazia sentido. Planeswalkers vinham naquele tom de feiura?

"A besta já fugiu de Bretagard. Você não pode rastreá-la por meios normais", disse Alrund. "Move-se entre os reinos, como os Monstros do Cosmos fazem. Embora eu tenha certeza que tal horror não poderia ser contado entre o seu número."

"Tudo bem então. Como eu o sigo?" disse Kaya. "Você me deve, afinal. Por deixá-lo escapar em primeiro lugar."

Aquilo pareceu dar ao deus uma pausa. "Devo consultar meus parentes. Há muitos enigmas que precisam de resposta. Mas se você está decidida a perseguir aquela criatura, o dracar de Cosima a ajudará nesta busca. Eu cuidarei disso."

Kaya ouviu mais do que alguns arquejos dos Buscadores de Presságios. Cosima — ela figurara em quase cada prece que fizeram enquanto estavam no mar.

"Você o encontrará atracado em Sevalgr quando retornar. Confio que os Buscadores de Presságios a guiarão de volta, embora de lá você terá que seguir seu próprio caminho. O navio é~seletivo sobre seus passageiros, mas a manterá segura em sua jornada entre os reinos."

"E como exatamente eu devo saber para onde estou indo? Não sou exatamente uma marinheira experiente", disse Kaya.

"Siga a luz de Starnheim, no topo dos galhos mais altos da Árvore do Mundo. Ela a guiará por qualquer caminho que você esteja destinada a trilhar."

Kaya suprimiu um suspiro diante daquilo. Deuses e seus enigmas. Só uma vez ela gostaria de uma resposta direta.

"Devo partir." Alrund acenou em direção à parede da caverna. A pedra pareceu ondular e derreter em ondas de luz ondulante; entalhes entrelaçados, linhas belas e estroboscópicas nas mesmas cores que emanavam de Alrund, formaram o contorno de uma porta. Então a pedra desapareceu, e em seu lugar havia — nada. Ela conseguia ver luzes à distância, como o lento deslocamento de estrelas, mas no meio não havia nada além de uma vasta e vazia escuridão. Subitamente, Kaya ficou muito feliz por ter um barco mágico para ajudá-la a cruzar aquele abismo.

Alrund deu um passo em direção ao portal que criara, então parou. "Inga Olhos-de-Runa. Kaya, a Viajante Distante. Temo que a chegada desta criatura seja um presságio — um sinal de coisas terríveis por vir. Em todos os meus agouros, vejo morte e destruição por toda Kaldheim. Temo que um Doomskar se aproxime — um diferente de qualquer um na memória viva."

Um silêncio caiu sobre os Buscadores de Presságios. Pela enésima vez, Kaya sentiu-se um passo atrás. "Doomskar. Isso não soa nada bem", disse ela.

"Uma colisão dos reinos", disse Inga. "E com ela, inevitavelmente, vêm guerra e caos. Um tempo de grande sofrimento."

Perfeito, pensou Kaya amargamente. Caçar um monstro. Salvar alguns aldeões. Bonito e simples — nada como aquela bagunça em Ravnica.

08/01/2021 | Por Setsu Uzumé

Saiba Para Onde o Vento Sopra

Nota: Esta é a Parte 1 de uma história em duas partes a ser continuada. . .

Gordura de foca, carne salgada e fumaça de cozinha permeavam o ar do salão comunal, abrigando pelo menos cem guerreiros da pedra e do mar. Não havia sol ou lua em Kaldheim, e suas noites estavam ficando mais longas. A luz tênue de cajados esculpidos como remos ou barbatanas de tubarão, amuletos de pedras rúnicas e o brilho contido dos braseiros reluziam na nova couraça e espaldeiras de Niko Aris — como se o atleta carregasse o céu de verão consigo mesmo neste lugar congelado.

Arte de: Eric Deschamps

Niko rolou a pedra redonda entre os dedos pardos, estimando seu peso. Os marinheiros eram de outro clã. Tatuagens azuis corriam em círculos concêntricos ao longo de seus rostos e braços, ondulando como o mar conforme lançavam apostas e dúvidas sobre a habilidade de Niko.

Sete guerreiros organizados em um V na extremidade distante da mesa, estendendo seus berrantes, sorrindo e fazendo caretas. Apenas uma marinheira protegia os olhos.

À esquerda do atleta posicionado, Kjell, um místico Kannah de pele bronzeada, puxava as peles de raposa da neve drapejadas sobre seus ombros largos, a corrente de pedras rúnicas verdes ao redor de seu pescoço lançando um brilho misterioso sobre o pelo branco. Os punhos de prata em sua barba trançada estalavam conforme ele falava. "Três acertos e então bem no centro!"

Para os reunidos, uma aposta. Para Niko, instruções. Niko deslizou sua bota para trás pelo chão de terra batida e lançou, seus membros longos alinhados e precisos. A pedra ricocheteou em um berrante, saltou por um prato de ferro, atingiu outro berrante, então pousou com um tchibum na bebida da marinheira de manto azul na extremidade distante da mesa. Ela franziu os lábios e pescou a pedra enquanto os outros riam e vibravam.

"Bem jogado, vocês dois", disse ela. "A armadura é de vocês."

Niko estendeu as mãos e fez uma reverência, vestindo seus ganhos — uma coleção mista dos presentes de paz trocados entre os Kannah e os Buscadores de Presságios para abençoar sua chegada a Jutmaw.

O próprio entreposto, uma área neutra entre o mar e as florestas, fora construído, queimado e reconstruído várias vezes, os fundamentos de pedra carbonizada erguendo-se como dentes quebrados logo acima da costa. Os únicos edifícios que restavam eram o salão comunal de Jutmaw, o fumeiro e um estábulo em ruínas que caçadores itinerantes usavam como abrigo.

Os outros moveram-se em direção à enorme lareira onde um fogo ardia na extremidade distante do salão, e Kjell pressionou uma caneca de pedra com algo quente na mão de Niko. "Eu deveria ter tornado as coisas mais difíceis para você."

"De cabeça para baixo, na próxima vez?" Niko sugeriu.

"E recitando a saga de Egil Sete-Árvores — eles conhecem Sete-Árvores nos reinos perdidos? Deixa para lá, eu te ensino. Como ficou o ajuste? Como é a sensação?"

Melhor do que caminhar pela tundra congelada por duas semanas nas costas de um urso gigante. Melhor do que uma pilha de peles mofadas sobre o fino chiton e sandálias com que Niko chegara. Melhor do que ser acuado por um agente do destino em um momento, e então atravessar o caleidoscópio vertiginoso de cores e sons para este lugar, para a liberdade.

"A sensação é ótima", disse Niko. Eles alisarão a frente de sua armadura, um gibão forrado de pele sob um casaco de couro com placas de aço embutidas, unindo-se em um largo cinto de guerra. Seu fino chiton índigo fora reaproveitado e afixado nas laterais como um troféu de Theros e da vida que Niko deixara para trás. Após um debate exaustivo, e mapas esboçados na terra que nenhum dos dois conseguia conciliar, Kjell concluiu que Theros era um reino perdido de Kaldheim; um galho quebrado da Árvore do Mundo.

Eles esvaziaram a caneca. "Quanto tempo até seguirmos em frente?"

"Nós aguardamos até que Fynn Caçador-de-Serpentes declare o fim do frith", kjell murmurou. "Vou cutucá-lo antes que o inverno comece a morder, não se preocupe." Ele gesticulou para o canto reivindicado pelos Kannah, os guerreiros de urso sentados sobre a mesa e bancos como se fosse um afloramento rochoso. Mesmo em repouso, os Kannah eram tão rudes quanto a terra, eriçados com armas e armaduras forradas de pele, saltando de seu canto para o javali no espeto e de volta como os grandes ursos brancos que montavam. Niko caíra no caminho deles por acidente, varrido pela avalanche viva, vestido e alimentado sem questionamentos. Kjell, como o vidente Kannah e leitor de terras, mentorara Niko a cada passo do caminho, assim como guiara vinte cavaleiros de urso de sua floresta nesta missão urgente.

"Frith são os direitos de convidado?" perguntou Niko.

"Se estivéssemos em nosso próprio território, sim. Mas no exterior, paz ou trégua." A brincadeira das apostas endurecera em algo mais sério.

O próprio inverno os perseguia. Sempre que um Kannah deixava sua floresta, neves suaves seguiam, depois granizo e trovões, até que lanças de gelo forçassem os Kannah a retornar ou perecer. A maldição dos deuses antigos que os novos deuses ignoravam, e enquanto os Kannah ficassem em suas terras, aqueles ao redor deles estariam seguros. Mas algumas coisas eram piores que maldições.

Kjell encostou seu cajado rúnico brilhante contra a borda da mesa. "Orhaft Stoneback é um Vedruna, a palavra dos Buscadores de Presságios para um sacerdote rúnico, e um cauteloso por sinal. Elu não teria atracado seu navio aqui se pensasse que o inverno prenderia seu povo ou impediria sua partida. Fynn pode protelar, no entanto — não seria a primeira vez que ele usa nossa maldição como alavanca em um conflito."

"Você traria o inverno intencionalmente sobre os não amaldiçoados?" Niko perguntou.

Kjell balançou a cabeça. "Estamos aqui para um conselho, não para a guerra. O frith exige que você compartilhe comida e teto com qualquer um que peça. Talvez façamos alguma pose. Nos exibamos para os deuses, mas nada pior. Você nunca sabe se o mendigo que você esnoba pode ser Alrund disfarçado."

Kjell explicara Alrund como o deus da sabedoria, embora Niko tivesse dificuldade em imaginar um deus humilde. Éfara compartilhava sua sabedoria para o bem de todos, mas nunca se rebaixaria escondendo-se entre mortais. Mesmo em lugares mais brutos como Akros, as epifanias do deus Queranos vinham como flashes de relâmpago para aguçar a mente e produzir resultados — ele não tinha paciência para truques e testes.

"Seus deuses simplesmente aparecem? Sem cerimônia?" Niko perguntou.

O rugido abafado de conversa e riso aumentou quando uma mulher com longas tranças tomou um assento perto da lareira.

"Assim dizem. Ou talvez seja apenas uma história para nos manter educados."

Niko sacudiu seus cabelos azul-metálicos para fora dos olhos. "Qual é a verdade?"

"Ambas. Coma rápido, então cuidaremos dos ursos."

Arte de: Eric Deschamps

Membros de clãs nomeados e sem nome circulavam pelo salão comunal, deslizando fatias de carne para pratos com facas de cinto, adicionando mais madeira aos braseiros e reenchendo jarros de bebidas doces e quentes. As mesas e bancos espalhados pelo salão começaram a esvaziar conforme os marinheiros, guerreiros, caçadores e armadilheiros se aglomeravam perto da lareira para ouvir o conto da mulher. Quanto mais silencioso o salão, mais fácil era para Niko distinguir suas palavras, profundas e ricas com sua própria música.

"~Asas negras como a tempestade abriram-se largas, lançando sombra e escárnio sobre a batalha que fervilhava ao redor de Thura Sail-Rend. Thura não escaparia da morte naquele dia, pois apenas a morte atrai a atenção das Valquírias~"

Quinze pessoas, vestindo peles de retalhos, mantos grossos mas desfiados e armaduras gastas, sentavam-se absortas em um grupo apertado ao redor da narradora, suas mãos estendidas, as tranças lustrosas à luz do fogo, e seus olhos ametistas brilhantes como estrelas gêmeas postas na sombra de sua silhueta.

"~Mas as Valquírias voam sempre em par, e Sail-Rend sabia sua escolha: macular sua lâmina com o sangue da família ou ganhar um lugar de honra em Starnheim. Outrora-amigo, outrora-irmão, Kinkiller emergiu da poeira e fumaça espumando como uma besta, suas marcas de clã cicatrizadas e borradas além de qualquer reconhecimento — e Sail-Rend~deixou cair sua arma~"

Além da plateia absorta, grupos espalhados de pessoas desaceleravam o que estavam fazendo para ouvir. Adolescentes de rosto fresco paravam de bater as peças de osso em seu jogo de grade-de-nove. Idosos robustos riam conspiratoriamente enquanto puxavam carne de um javali no espeto.

"~Kinkiller saltou — Sail-Rend investiu, e os dois lutaram com uma crueza que apenas a família pode algum dia conhecer. Finalmente, Sail-Rend arrancou a espada de Kinkiller, jogou-o ao chão e enterrou a própria lâmina do traidor através de seu coração e fundo na terra sobre a qual ela jurara~"

Niko pegou um prato de carne defumada pela metade de outro Kannah, absorto demais para objetar. Sob a floresta de botas e armas, um grande gato cinza chamou a atenção de Niko. Sob sua pelagem grossa e fofa, ele parecia tão grande e formidável quanto os guerreiros reunidos. Luz azul sussurrou da mão de Niko, e um pequeno espelho formou-se em sua palma. Com um arremesso preciso, eles o deslizaram em direção ao gato. As orelhas do gato se ergueram, ele deu o bote — e o espelho desapareceu.

"~Sua família vingada, e as ondas de fúria de sangue acalmando-se em um mar mais tranquilo, Sail-Rend caiu de joelhos; para cada batida de seu coração, o veneno em suas veias mordia mais fundo~"

O gato chicoteou a cauda, farejando, e Niko lançou outro espelho. Ele deu o bote e golpeou o pedaço de prata antes que ele desaparecesse. Niko lançou um terceiro espelho. O gato farejou cautelosamente, ergueu uma pata para atacar — e Niko conjurou outro — fazendo o brinquedo desaparecer mais uma vez. O gato ficou tenso, farejou o ponto brilhante de luz que Niko refletiu no chão, olhou enviesado para Niko e aproximou-se gingando.

"~Thura Sail-Rend, Thura Guardiã-de-Juramento, Thura Quebradora-de-Maldição, caiu morta. As duas Valquírias abriram suas asas, conferenciando sobre seus grandes feitos, seus triunfos e fracassos~"

Niko estendeu o espelho para o gato farejar. O gato ronronou, curvou o lábio para trás para encostar uma presa contra o dedo de Niko, mas antes que Niko pudesse lhe fazer um carinho, o gato pegou o espelho com os dentes e correu para baixo de uma mesa menos ocupada para desfrutar de sua presa. Niko chamou sua magia de volta, e o espelho estilhaçou-se inofensivamente e desapareceu.

"~Respondendo à pergunta que reveste todas as línguas mortas. O traidor, para Istfell; mas o bravo — ela ganhara seu lugar em Starnheim." A multidão ao redor da narradora vibrou, ergueu suas bebidas para ela e bebeu profundamente.

O gato olhou do chão nu para Niko, traído.

Arte de: Raoul Vitale

Niko deu um risinho, alisou um dedo sobre o quadrado de barba em seu queixo e olhou para cima. A narradora os observava.

A narradora pegou uma pequena tigela do fogo e pediu a alguém para coletar neve fresca. Uma admiradora praticamente tropeçou em si mesma para obedecer. A narradora passou por ela e, em vez disso, dirigiu-se diretamente a Niko.

Kjell espantou os outros Kannah de seus assentos com um olhar severo conforme a narradora se acomodava no banco à frente de Niko sem esperar ser convidada, com o verão em seu sorriso. "Muito mais tempo na frente daquela lareira e eu tostava como o javali." Ela avaliou Niko e então lançou a pergunta para Kjell. "Longa jornada, vidente?"

Kjell sentou-se relaxado ao lado de Niko, mas as bordas brincalhonas de sua voz suavizaram-se, cauteloso como um coelho sob a sombra de uma águia. "Qualquer jornada terminando com tal beleza diante de mim vale a distância."

Ela bufou. "Com que frequência você pratica essa frase?"

"Todo dia. Os ursos adoram."

"Sim, eu ouvi isso sobre os Kannah", ela disse, e riu. Quando a admiradora retornou com a tigela de neve morna, ela estava quase toda derretida. Ela a colocou no chão perto do banco onde não seria chutada. "Ameaça!"

Niko ficou tenso, pronto para convocar prata, mas o gato veio miando para a tigela ao som de seu nome, e a narradora lhe deu um carinho afetuoso.

"Seu?" Niko perguntou.

"De Jutmaw. Ou talvez do barco. Foi gentil da sua parte fazer o rato para ela. Conheço muitos estranhos de muitos lugares, mas nunca um tão desinteressado em minhas histórias."

Niko não conseguia dizer se a narradora se referia ao gato ou a eles. Como uma memória muscular, Niko deslizou para o porte reservado para a corte e outras funções públicas, mas antes que pudesse oferecer cortesias, Kjell deu um tapa no ombro de Niko.

"Birgi, este é Niko. Eles são dos Kannah enquanto cavalgarem conosco. Niko, esta é Birgi, o próprio presente da fortuna."

Birgi piscou para Niko, e Niko escovou para trás uma mecha metálica de cabelo. "Um prazer."

"Niko cavaleiro-de-urso? Niko pé-de-gelo?" Kjell provocou. "Destinado à grandeza, este aqui."

Eles já tinham tido grandeza. Um campeão invicto de inúmeras competições e torneios, sua precisão com o dardo era inigualável. Em casa, eram famosos. Era bom ser desconhecido para variar. "Tenho botas adequadas agora. Pé-de-gelo terá que ir para outra pessoa."

"Grandes feitos dão origem aos seus próprios nomes. O seu escolherá por você." Outra admiradora trouxe à narradora uma caneca de hidromel e um prato de peixe defumado oleoso e fragrante. Ela agradeceu com um aceno, então começou a comer. "Falando em grandes nomes, não vejo Orhaft entre nós."

"Orhaft Stoneback ainda está em seu barco. Com Fynn."

Houve um pequeno estrondo, como uma carroça totalmente carregada cruzando uma ponte.

Kjell sorriu. "Ouve isso? O grande trabalho deles começa!"

Birgi revirou os olhos. "Isso é um Caminho de Presságio, seu molusco. Não me entedie com o clima. Qual é o negócio do Caçador-de-Serpentes com os marinheiros?"

"Maus sonhos, tão certo quanto a própria sombra de Tergrid", Kjell respondeu, "quer uma interpretação."

Birgi inclinou-se para frente, perguntando sem palavras.

Kjell fez o mesmo, relatando o que Fynn dissera a ambos. "Docas estilhaçadas sobre um lago vazio, o fedor de escamas de serpente e a estrela-tripla pisca."

"Starnheim~pisca?" Birgi sussurrou.

"Apaga", Kjell terminou. "A Serpente do Cosmos quebrará sua gaiola e a primeira coisa que engolirá será a luz."

"Podridão de baleia", disse Birgi, recostando-se. "O sonho de um jovem transformado no arrependimento de um velho, só isso."

Kjell estendeu as mãos. "Tão certa? Dizem que ele arrancou uma escama do corpo da Serpente do Cosmos e agora a carrega como escudo. Fynn e Koma estão ligados. É tão difícil acreditar que um abalaria o outro?"

"Acredito que aquele machado grande fica bonito nos ombros dele", disse Birgi. "Por que ir a Orhaft sobre isso?"

"Talvez a magia dos Buscadores de Presságios tenha necessidade de sangue tocado por serpente. Talvez uma antiga dívida paga." Kjell puxou uma espinha de peixe longa e fina de sua boca e a deixou cair na borda de seu prato. "Ou talvez uma ameaça a Starnheim seja uma ameaça a todos nós."

O comportamento brincalhão de Kjell cobria um estado constante de vigilância a serviço de seu povo, mas Fynn Caçador-de-Serpentes não fazia tais jogos. Ele cavalgava à frente de uma avalanche de guerreiros de urso, seu maciço escudo de escama fixado às costas, machado gigante em uma mão e rédeas na outra, sua própria montaria verde-líquen e bufando jatos de vapor entre gengivas pretas. Este homem comandava berserkers de ombros nus, guerreiros de escudo e clérigos like Kjell. Tais pessoas não sonham, nem chamam por ajuda externa, levianamente.

"Por que você está contando tudo isso a ela?" Niko perguntou a Kjell.

"Nenhum feito permanece quieto por muito tempo." Birgi deu de ombros. "E embora você não carregue faca, cajado ou runa, não acho que você seja nem metade tão chato quanto finge ser." Ela engoliu um bocado de peixe, então agarrou um berrante em cada mão. "Venha, ratinho, vamos dar água aos ursos."

Os dois seguiram Birgi para fora do salão e para o crepúsculo congelado.

Arte de: Kieran Yanner

As botas de Birgi esmagavam o gelo lamacento, moendo a grama morta na lama. "Você sabia que Orhaft Stoneback ganhou seu nome sendo esfaqueado e não percebendo por horas?"

Grupos de marinheiros Buscadores de Presságios e guerreiros Kannah conversavam calmamente em pequenos grupos, empertigando-se conforme ela passava. À distância, os ursos bufavam.

"Esfaqueado nas costas sem perfurar os órgãos?" disse Niko. "Duvido."

Alguns Buscadores de Presságios sentavam-se em tocos petrificados logo do lado de fora do salão comunal, com bochechas coradas e braços nus. Birgi entregou um berrante, que eles passaram entre si, bebendo avidamente.

"E no entanto o nome pegou, viajou. Tornou-se verdade", disse Birgi.

"Aqueles no poder embelezam seus feitos, ou seus admiradores o fazem por eles", disse Niko.

Birgi virou-se, estendendo o berrante restante para Niko. "Você não parece um cirurgião ou um vidente, ratinho. Consegue olhar para uma cicatriz e saber sua causa?"

Niko cruzou os braços. Kjell pegou o berrante em vez disso e tomou um gole, perfunctoriamente, um participante educado e involuntário em um ritual cujo propósito Niko não conseguia adivinhar.

"Você não pode ser esfaqueado nas costas e não saber", disse Niko.

"Nem por acidente?" Birgi perguntou, suavemente.

Um grupo de Kannah irrompeu pelas portas em uma onda de risadas ruidosas, então moveu-se a favor do vento para amarelar a neve.

Niko balançou a cabeça. "É um total absurdo."

"Stoneback conta um conto mais verdadeiro que o Caçador-de-Serpentes."

Niko olhou para trás. A Buscadora de Presságios que falara estava encostada no salão comunal, de rosto doce e ombros largos. Ela encontrou o olhar de Niko, então cuspiu na neve.

Kjell sugou os dentes, levando seu tempo para esvaziar o restante do berrante, sedimento e tudo.

Birgi piscou para Niko. "Pronto para a verdade, ratinho?"

O vidente de Fynn dirigiu-se à Buscadora de Presságios nos tons suaves de zombaria. "O que foi isso? Não consegui te entender através de todo o xixi de peixe que você andou gargarejando."

Olhando para o grupo de Kannah atrás deles, os Buscadores de Presságios levantaram-se, avançando contra Kjell com os polegares enganchados em cintos ou tiras de arreios onde suas armas estavam guardadas. Os dedos de Niko formigaram em suas novas luvas. Não era uma ameaça ostensiva.

Ainda.

"Meu irmão tripulava o navio de Stoneback quando o ataque aconteceu. Ele viu o ferimento." Um sujeito mais baixo com olhos como aço temperado lançou seu olhar em direção a Birgi, então estufou o peito e sacudiu seu cabelo preto.

A de rosto doce apoiou-o. "O Fynn pode provar o que alegou?"

"Seu irmão não viu bosta nenhuma", Kjell desdenhou de Olhos-de-Aço. "Esfaqueado nas costas em seu próprio quarto, foi? Mostra-me o barco de cara-de-mapa que tem uma casa inteira nele!"

Mais guerreiros saíram do salão comunal e se aglomeraram mais perto, com as bocas ainda gordurosas da refeição. Estavam todos bêbados, reunidos sob maus presságios, e seus líderes estavam bem fora do alcance de audição. Niko moveu-se para intervir, para difundir a situação — mas Birgi tocou seu ombro, segurando-os.

O sorriso de Olhos-de-Aço era puramente dentes. "Vocês lambedores de líquen deveriam pegar esse cogumelo verde cascudo e se esgueirarem de volta para a floresta de onde vieram."

As tatuagens no pescoço e ombro de Birgi brilharam aqua, e seus olhos ametistas arderam. "Como você responde a isso, Kannah?"

Uma onda de vaias espalhou-se no rastro do chamado de Birgi. Isso captou a atenção dos guerreiros de urso bêbados, que se aproximaram por trás do grupo de marinheiros que se reunia. Uma Kannah com tatuagens verdes que desenhavam ângulos agudos em seus ombros nus deslizou entre Kjell e Olhos-de-Aço. Os dois se encararam, mas o Buscador de Presságios recusou-se a recuar.

"Devo dizer de novo?" disse Olhos-de-Aço. "A única serpente que o Caçador-de-Serpentes já enfrentou é a de seu próprio—"

Com um estalo e um spray de sangue, o insulto morreu entre uma testa Kannah e um rosto de Buscador de Presságios.

Kjell empurrou Niko para trás de si, não para proteção, mas para limpar um caminho para a briga. Todos estavam nela agora, joelhos nas barrigas, cotovelos nas gargantas, socando e batendo — risadas selvagens e gritos de dor. Um cotovelo Kannah disparou para trás, quebrando os dentes de outro Kannah antes que um marinheiro o atacasse, o erguesse no ar e o esmagasse de costas. Algo brilhou na periferia de Niko do outro lado do caos, e eles se esquivaram para o lado, desviando de um projétil que pousou com um thock agudo.

Osos de baleia. Uma adaga de Buscador de Presságios — enterrada na parede onde a cabeça de Niko estivera.

Acima de tudo, onde a neve ainda estava intocada, Birgi encostava-se aos ossos carbonizados de uma parede de pedra, tatuagens brilhando, sorrindo para Niko.

Niko congelou. Chocado. Os de Bretagard tinham dúzias de regras e histórias sobre ajudar estranhos e haviam convocado formalmente o frith. Birgi fizera aquilo acontecer. Passara um berrante para cada lado. Pressionara Niko a duvidar dos feitos de Orhaft ao alcance de audição dos marinheiros — mas por quê?

O grito de Kjell despertou Niko. Pelo campo ele girava, dançava, seu cajado brilhando enquanto afastava dois Buscadores de Presságios, e um terceiro avançava em sua direção.

Niko deslizou pelo gelo sob golpes, piruetando ao redor de machados e adagas. Um Kannah saltou entre Niko e um golpe, dobrado, e Niko saltou, rolou sobre as costas dele e atingiu o chão correndo do outro lado.

A palma de Niko abriu-se, e fragmentos de prata coalesceram em estilhaços de vidro de espelho, deixando um rastro de luz azul pálida conforme giravam ao redor de Niko como uma aura. Niko agarrou um estilhaço em cada mão, esticando cada um em uma adaga, e lançou com precisão infalível, um após o outro. Um após o outro, os agressores de Kjell foram atingidos no peito. A armadilha de espelho absorveu seu alvo inteiramente, deixando uma ilusão espelhada de sua forma para se estilhaçar em mil pedaços de vidro. Para o espectador, cada arma dizimara sua vítima; mas Niko sabia que eles estavam segura e indolremente contidos dentro das adagas conforme atingiam — cada uma destas girando inofensivamente para bancos de neve em cada lado.

Arte de: Aaron Miller

O último agressor perdeu este espetáculo, golpeando Kjell de fora de sua periferia. Niko buscou outro estilhaço quando ouviu tecido rasgar e o snnnick de carne sendo cortada conforme o último agressor atingia o braço de Kjell. O vidente deu um tranco para trás, seu equilíbrio roubado pela lama e gelo lamacento. Naquele momento de hesitação, a Buscadora de Presságios o agarrou pelo cabelo e esmagou seu rosto em seu joelho.

Sem adaga desta vez. Uma terceira armadilha de espelho drenaria a energia de Niko, forçando-os a liberar os dois primeiros de suas armadilhas muito antes do que era seguro. Luz azul seguiu conforme Niko achatou o terceiro espelho em uma ponta de lança curta, plana e larga, com a largura aproximada de sua palma.

Kjell cuspiu sangue na neve, atordoado e piscando. A Buscadora de Presságios sorriu para ele, deu um passo à frente para fechar a distância, e assim que o pé dela saiu do chão, Niko lançou.

Como uma pedra saltando em um prato, a lança plana deslizou sob a bota da Buscadora de Presságios. Ela escorregou e caiu com força, batendo a cabeça na terra congelada.

Com um espelho ainda circulando, dando vislumbres de todos os lados, Niko mergulhou em direção a Kjell e ajudou-o a sentar. Ele deu um sobressalto, nariz e lábio sangrando mas não faltando nenhum dente. Sangue manchava sua barba e sua pele de raposa branca. "Hoo, vou sentir essa amanhã", disse ele, mais divertido do que bravo. "Você transformou aqueles dois em gelo?"

"Parece pior do que é, eles ficarão bem." Niko arrancou a faca de osso da mão da marinheira, então captou um flash de algo em seu último espelho circulante. As duas armadilhas brilhavam na neve. O último agressor jazia de bruços, gemendo suavemente, e os três estavam separados do grupo principal perto do antigo estábulo; mas havia algo mais. Observando.

Empoleirado no telhado atrás deles, um ser alado permanecia, alto, belo, terrível — com penas cinza-pombo que irradiavam luar tão azul e puro quanto o inverno. Cabelos loiros emolduravam seu rosto castanho escuro, olhos cinzas severos observando Niko com interesse.

~Pois apenas a morte atrai a atenção das Valquírias.

Arte de: Campbell White

Estavam observando para ver se Niko terminaria o serviço com a Buscadora de Presságios.

Usando seus olhos, o espelho flutuante e a lâmina da faca, Niko buscou em todas as direções de uma vez. Nas histórias, as Valquírias sempre voavam em pares, e Niko não ia deixar que outra pessoa fosse levada.

Empoleirada em um pedregulho desgastado pela chuva e pelo granizo estava a contraparte da Valquíria. Esta Valquíria tinha pele castanha mais clara e cabelos pretos brilhantes trançados em cordas longas e arrumadas. Suas asas negras como corvo brilhavam com ondas de luz verde-ágata, sua armadura enegrecida onde a da outra brilhara.

Niko engoliu seco. Estavam aqui porque alguém ia morrer.

Kjell estava aqui porque seu paraíso poderia estar em perigo.

Niko estava aqui porque não havia tempo para explicações.

"Kjell, leve-a para segurança", disseram, jogando a faca de osso longe e empunhando sua última armadilha.

Kjell não perguntou. Ele se abaixou.

Em um movimento gracioso, Niko levantou-se, deslizou para a posição e lançou um flash de prata contra o de asas negras.

A Valquíria mal teve tempo de virar. A armadilha atingiu o alvo bem entre suas asas, estilhaçou a ilusão de seu corpo em mil estilhaços espelhados — e terminou seu arco com um suave chuff, pousando inofensivamente na neve.

A armadilha estava cheia, mas não estaria por muito tempo. Sem olhar para trás para a de asas cinzas, Niko disparou, pegou o estilhaço da Valquíria no banco de neve e chamou de volta sua magia para liberar as duas primeiras armadilhas. Ambos os Buscadores de Presságios rolaram na neve, desorientados e ilesos, e Niko sifonou todo o poder que os prendia para este estilhaço final, reforçando suas bordas em todos os lados para conter a criatura que se lançava contra os limites internos.

Niko correu para a praia, em direção ao navio. Se alguém podia fazer os guerreiros pararem de lutar, seriam seus comandantes.

A água do mar rodopiou e espirrou conforme Niko saltou, com uma mão só, pela lateral do barco, caiu sobre o convés e levantou-se, embalando o estilhaço da Valquíria.

"Orhaft!" Niko chamou.

Ambos os anciãos viraram-se para a intrusão. A armadura de placas de Fynn tilintava apesar do acolchoado de peles de urso, e as pedras rúnicas verdes decorando sua barba lançavam um brilho misterioso contra sua pele rosada.

A Buscadora de Presságios era de pele bronzeada, robusta e de constituição sólida, agarrando um cajado encimado por uma lâmina de madeira esculpida como a barbatana de uma baleia. Elu tinha a cabeça raspada e maçãs do rosto elegantes em um rosto largo e sem barba. Seus mantos verdes e azuis fluíam para um manto azul, mantido no lugar por um colar de longas presas arrancadas de alguma fera marinha. Seus braços e barriga estavam nus, exceto pelas tatuagens circulares azuis que fluíam de seu topo até as pontas dos dedos, olhos verde-pálidos como marcos dentro daquela topografia. Estu era Orhaft Stoneback, elu do Mar de Kirda e Vedruna deste navio, e elu não estava satisfeito.

"É você", elu murmurou.

"Por que você está sozinho, Niko? Onde está Kjell?" disse Fynn, colocando-se entre Niko e as linhas douradas de magia gravadas no convés do navio como um gráfico.

Niko falou rápido. "Estão todos lutando — lâminas sacadas, sangue na neve — uma mulher os incitou. Vocês têm que pará-los!"

"Que mulher?" Fynn perguntou.

"Birgi — eles perderam a cabeça", Niko estendeu o estilhaço como um talismã. Niko sentiu a Valquíria de asas negras debater-se como um falcão golpeando as barras de uma gaiola de tentilhão, mas seus esforços não faziam diferença. Ele batia no espelho por dentro, olhos castanho-pálidos disparando luz.

Fynn e Orhaft entenderam o que Niko queria dizer imediatamente. Valquírias significavam morte.

"Está inteiramente sob o seu poder?" Fynn perguntou.

Niko não gostou da fome na maneira como ele disse aquilo. "Estão presos, mas conseguem te ouvir."

Em direção ao horizonte, onde um terremoto não tinha nada que estar fazendo, um estrondo como o oceano limpando a garganta. Orhaft olhou para trás, seu cajado brilhando dourado como a aurora em outro mundo.

Fynn pôs o machado no ombro em um movimento suave, nem enfraquecido nem retardado pela idade. "Eu lidarei com os Skoti. Você lida com isto." Os olhos de Fynn demoraram-se no estilhaço da Valquíria conforme ele pegava seu estranho escudo. "Nenhuma decisão até eu voltar."

Orhaft resmungou um assentimento.

Fynn saltou o corrimão do navio, cuspiu na areia e correu em direção à confusão como um urso decidido a resolver uma disputa entre esquilos.

Niko estava prestes a perguntar o que era um Skoti, mas Orhaft cortou a pergunta. "Você captura uma Valquíria e chama isso de manter o frith?"

"Eu mantive o frith", disse Niko, apontando com a mão de volta para o salão comunal onde os lutadores ainda fervilhavam como formigas. "Sou o único que não saltou para esta briga e, até onde sei, sou o único tentando pará-la."

O trovão ronronou à distância, mas não havia nuvens. "Você? Parar Birgi?" Orhaft desdenhou. "Eu não poderia parar um Caminho de Presságio. E há mais vindo."

Kjell descrevera os Caminhos de Presságio como os caminhos entre mundos, abrindo e fechando ao acaso como o congelar e descongelar de uma ponte terrestre. Um era boa caça. Dois, perigo. Mais, um Doomskar, quando reinos em colisão se rasgam um ao outro como um casco e um recife.

"Você percebe o que trouxe para Fynn? Você causou dano, forasteiro, provando que uma Valquíria pode ser capturada."

"Se é uma escolha entre uma armadilha ou uma morte—"

"Os deuses pensaram isso", disse Orhaft. "A Serpente do Cosmos um dia viajou livremente por todos os reinos, caçando os monstros que fazem de nós sua presa. Quer os Skoti planejassem manter a serpente para outros fins, ou deixá-la enlouquecer em sua gaiola, esses laços estão escorregando. Ou foram cortados."

"E você acha que isso é obra minha?" disse Niko.

"É obra de alguém." Orhaft apontou para as imagens brilhando em dourado no convés, o fluxo e refluxo de símbolos ao mesmo tempo estáticos e mutantes, uma visão sobrepondo outra, dolorosas de se observar. "Fynn Caçador-de-Serpentes quer duas coisas neste mundo. Koma, e Starnheim. Você parece posicionado para dar a ele ambas."

"Isto não é sobre conquista, é sobre prevenir uma catástrofe!"

"O Caçador-de-Serpentes e eu vimos como as coisas vão — você em Jutmaw, você em Starnheim." Acima do tumulto de guerreiros, uma rajada de luz de aurora espalhou-se e então desapareceu. Orhaft apontou o queixo para a colina. "Onde você caminha, a destruição segue."

"Isso não significa que eu seja a causa", disse Niko, amargamente.

Outra profecia. Fynn não dissera uma palavra. Niko não sabia se aquilo era melhor ou pior do que seus pais, cuja fé no destino brilhante de Niko tornava impossível expressar suas dúvidas. Ninguém nunca perguntou o que Niko queria.

Niko olhou para baixo para o estilhaço, as narinas dilatando. "Não sou Kannah. Não sirvo ao Fynn, e não sou um presságio. Sou apenas uma pessoa. Se você está convencido de que a destruição me segue, então envie-me para Starnheim com um aviso para que estejam preparados."

"Você quer que eu te mate?" o Vedruna perguntou.

"Não. Já viajei entre mundos antes." Niko ergueu o estilhaço para que Orhaft pudesse ver a Valquíria presa lá dentro. "Este ser viaja de um lado para o outro sem morrer. Se há uma chance de podermos nos ajudar, temos que tentar."

O therosiano estendeu o estilhaço para o Vedruna.

Orhaft aceitou o estilhaço, perscrutando o fundo, seus olhos verdes refletindo de volta sobre a expressão sinistra da Valquíria. Niko observou as engrenagens girarem na cabeça do Vedruna, o que elu poderia ganhar barganhando com a morte, e a decisão que elu já tomara antes de prometer a Fynn não tomar nenhuma.

Orhaft olhou de volta para Niko. "O que te faz ter tanta certeza de que consegue alcançar este objetivo?"

Uma vida inteira de treinamento. Uma devoção inabalável não ao dardo, mas à profecia lançada sobre eles quando bebês: Niko se tornaria campeão. Mas não havia magia por trás da habilidade de Niko. Apenas escolha. Niko escolheu acordar cedo todos os dias. Escolheu aceitar correções sem reclamar — e escolheu ir além do que era possível. A profecia era um caminho. Mas que impacto um campeão poderia ter? Significaria algo, no fim?

Niko lembrou do torneio, do oráculo, e de como era a sensação de escolher um caminho diferente. "Eu nunca erro o alvo."

Contemplar o Multiverso | Arte de: Magali Villeneuve

"Então tome cuidado para mirar no alvo certo", Orhaft disse, astutamente. "Deixe o Caçador-de-Serpentes comigo. Retorne ao navio assim que tiver feito suas despedidas. Eu te darei o que você pede."

"Isto vai~você vai me matar?" Niko perguntou.

"Eu não vou. Quanto ao que acontece do outro lado~isso é sua responsabilidade."

Niko fez o caminho de volta pela areia, cabeça cheia, corpo leve. Aquele era um lugar brutal, frio e hostil; e Niko não conseguia adivinhar o que paraíso significava para seu povo — mas para Niko, sugeria um reino cheio de seres que viajavam regularmente entre mundos. Talvez eles ajudassem Niko a entender como navegar pelos Caminhos de Presságio. Tinha que haver uma técnica — algo para estudar, praticar, aperfeiçoar; e alguém que pudesse lhes ensinar como tudo se encaixava.

Quanto mais olhavam para os lutadores tratando seus ferimentos com neve, mais claro ficava que Niko não encontraria esse professor aqui.

Jovens de ambos os lados repreendidos vociferantemente pelos mais velhos sobre 'pagamentos de sangue' e 'devidos por razões indignas.' Outros continuavam gesticulando para Birgi, 'E na frente da deusa! Que vergonha.' Outros ainda riam de seus ferimentos.

Fynn não estava em lugar nenhum. Em vez disso, Birgi encontrou Niko primeiro, a esperança e o orgulho de aspirantes a heróis ondulando em seu rastro.

"Você viu quando eu—"

"Birgi, certifique-se de contar a todos como eu—"

"Espero que isto cicatrize bem claro, para que todos saibam—"

Birgi era uma cabeça inteira mais alta que Niko, e uma deusa além, aparentemente, mas Niko não se importou. Eles a empurraram para trás.

Birgi piscou, as tatuagens de entrelaçamento em sua garganta brilharam azul por um momento, então subsidiram. Por um momento Niko vislumbrou algo ancestral, aterrorizante, um reservatório de poder tão profundo e perigoso quanto a conflagração que aguarda nas brasas do fogo mais suave. Os lábios de Birgi se abriram, e o desejo de sacar uma arma percorreu Niko. Mas fora assim que esta luta começara. Niko entendia isso agora — entendia a natureza do poder de Birgi, e o manteve sob controle rígido.

"Que tipo de deus leva seu próprio povo a se matar?" Niko cuspiu.

Birgi inclinou-se para perto. "Que tipo de mortal rouba para dentro de outro mundo para brincar com gatos, quando consegue fazer o que você faz?"

Os olhos de Niko se arregalaram.

"Não estou aqui para te dizer o que fazer, ratinho. Fiz isto para que você possa nos conhecer. Nossa alegria, nossa raiva — o quão pouco jaz entre elas. A liberdade não significa nada a menos que você saiba o que arrisca." Ela colocou uma mão sobre o coração. "Se você tem a força para nos sobreviver, pode sobreviver a tudo."

A deusa olhou para o seu povo, a maneira como mancavam, e riam, e se misturavam uns com os outros como se a luta tivesse sido um jogo entre amigos. O fervor no sorriso de Birgi suavizou-se em algo como amor conforme ela observava cada um deles, de suas lâminas aos seus hematomas, os cantos preciosos de seu coração de narradora como um grande mar sustentando uma frota de memórias, história, lições duramente conquistadas e feitos ultrajantes. Do lado de fora, era loucura; mas entre eles, era esperança.

"O Kjell está ali, a propósito. Ele é um bom narrador, ele sabe o que quero dizer."

Kjell aproximou-se, parecendo um pouco desgastado. Disse algo em saudação a Birgi que Niko não ouviu, e Birgi deu um risinho, apertando seu armo ferido. Ele sugou os dentes de dor, tentou dar um tapa nela, e ela saiu para voltar para dentro do salão comunal.

"Aquilo era realmente um deus?" Niko perguntou.

"Deus de pirralhos, oof", disse Kjell. Ele deu tapinhas no armo, checando o ferimento onde fora cortado. Kjell era ou um curandeiro notavelmente rápido ou o aperto de Birgi dera um empurrãozinho nas coisas. "Mas não conseguimos pará-la, então a perdoamos."

Niko ponderou sobre o que Birgi dissera. "Se eu for honesto~não consigo dizer quando ela está contando a verdade e quando está contando uma história."

"Parte da diversão. Aquela marinheira está segura a propósito. Concussão. Ela ficará bem quando terminar de vomitar as tripas. Sabia que ela é a mão direita de Orhaft? Sorte sua ter salvado ela. O preço de sangue dela teria valido toda a sua armadura e mais. E você viu aquele clarão de luz? Acho que era a outra Valquíria."

"Sobre isso~" Niko soltou um sopro de ar. Por que aquilo era tão difícil? "Orhaft vai me enviar para Starnheim — vivo. Para avisá-los."

"Deveria me surpreender que isso seja sequer possível mas~a visão de Fynn?"

Niko deu de ombros. "Esse é o plano. Tanto Orhaft quanto Fynn disseram que a culpa é minha."

Conheciam-se há duas semanas, mas ele sempre sabia o que dizer. "Você vai provar que estão errados."

"É." Um canto da boca de Niko curvou-se para cima. "Quer vir?" Quando ele não respondeu, Niko lambeu os lábios. "A Birgi disse que eu tinha que conhecer os riscos~e que você é um bom narrador."

O clérigo Kannah encostou seu cajado nas pedras de um antigo fundamento, o edifício há muito queimado e espalhado. Observou as luzes de Starnheim brilharem no céu enquanto limpava o sangue de suas mãos com neve limpa. "Você me contou que estava destinado desde o nascimento a ser um campeão. Que nunca errava o alvo, e que escolheu perder os grandes jogos apenas para descobrir se conseguia negar o destino."

Niko franziu o cenho.

"O Fynn te viu. Disse que você era uma ameaça. Comandou-me a te manter por perto. Parar você, se necessário." Kjell flexionou os dedos. "Raízes profundas, veios de pedra — todos falam comigo. Quando o céu não consegue, os pássaros contam o resto. O vento respira, e eu ouço — mas eu escolho o que o Fynn ouve."

Niko não falou. Mal ousava respirar.

"Você escolheu poupar aquela marinheira, e eu escolhi não te parar. Se você é uma ameaça, meu amigo, não é para nós." Kjell olhou de volta para Niko. "Profecias, visões, fado — são ordens com um toque sonoro. Isso não as torna reais."

As palavras vieram à boca de Niko como se plantadas lá por Birgi. "Apenas uma história."

"Exatamente. Vou ficar, garantir que o Fynn ouça o que precisa ouvir, e verei Starnheim quando for o meu tempo. Quanto a você"—Kjell agarrou os ombros de Niko—"suba lá, diga a eles quem você é, e então faça algo louco."

"Ah, sim, claro — arrombar a porta com um chute. Dar um soco na cara de um deles."

"Sim!" Kjell radiou, pegou seu cajado com as mãos limpas e o ergueu alto. "Irrompa sobre eles antes que consigam voar para longe! Niko, o Esmurrador-de-Valquírias!"

Eles riram, e então se abraçaram, dando tapinhas nas costas um do outro. O que quer que viesse a seguir, sempre haveria segurança aqui; uma bebida, um ouvido, solo sólido onde se apoiar.

Incapaz de encontrar o gato para um adeus final, Niko deixou Kjell na praia e embarcou no navio dos Buscadores de Presságios. Fynn deu assentimento silencioso ajudando a empurrar o barco para a água onde a magia de Orhaft guiaria seu curso à deriva. A bordo, Niko encontrou o Vedruna e a Valquíria presa conversando em tons baixos, segredos passando entre eles que apenas aqueles nascidos no mesmo lugar poderiam saber. Orhaft revelou apenas que o nome da Valquíria de cabelos e asas negras era Avtyr e que aqueles com asas escuras são chamados de ceifadores.

"Você será libertado assim que Niko tiver passado em segurança", disse Orhaft. "Pelo sal do meu sangue, e pela proa do meu navio."

"Assim testemunhado", disse a Valquíria, seus tons de comando abafados através do vidro. "Vemos tudo, Orhaft Stoneback. Lembraremos se você cumpriu seu voto hoje. Seu protegido conhece os riscos? Não posso prometer seu retorno seguro. Nenhum mortal vivo jamais pôs os pés em Starnheim."

Orhaft olhou para Niko, e eles assentiram com seu consentimento.

"Alguém tem que ser o primeiro", disse Niko.

O navio dos Buscadores de Presságios derivou, lento e constante, sobre água não naturalmente plácida. Orhaft ergueu seu cajado, tatuagens azuis acesas com magia, guiando seu curso em direção às bordas estrondosas e zumbintes de um Caminho de Presságio prestes a nascer.

Algo estremeceu na borda da consciência de Niko e então escapou de seu controle. O corpo da Valquíria ainda estava aprisionado, mas sua magia, lenta e constante como a pressão das eras, deslizou como mil agulhas minúsculas através do domínio de Niko sobre ele. O coração de Niko disparou até a garganta, esta nova fraqueza exposta; mas o juramento do Vedruna aguentou onde o espelho falhara.

A magia da Valquíria perfurou o poder de Orhaft — guiando, direcionando, imbuindo as energias. O Caminho de Presságio ondulou e mudou, água azul sobreposta por preto. Através de uma névoa de magia, esquifes balançavam em água escura, o horizonte distante em um ângulo ligeiramente errado. Um esquife, como um pato curioso, derivou para mais perto do limiar entre mundos.

Niko saltou sobre as plantas dos pés, flexionou os dedos e saltou o corrimão. Pousaram no esquife distante com um respingo de água que cheirava a lodo rico. Seu estômago deu um solavanco, ajustando-se ao novo ângulo de "baixo."

Virando-se, Niko ergueu uma mão, um obrigado e adeus ao Vedruna Buscador de Presságios. A Bretagard. Ao Kjell.

O Caminho de Presságio fechou-se atrás deles, o crepúsculo profundo substituído por um céu brilhante de pré-amanhecer sobre água preta como espelho. O esquife bateu contra uma vasta rede de docas que desaparecia no tipo de luz que canta o lar. Niko subiu para fora do barco, endireitou sua armadura, escovou uma mecha de cabelo prateado-violeta dos olhos e partiu para provar que o destino estava errado.

De novo.

Niko Aris | Arte de: Sara Winters
15/01/2021 | Por Setsu Uzumé

Mire Além do Alvo

Nota: Esta é a Parte 2 de uma história em duas partes. Certifique-se de conferir a Parte 1 antes de continuar a leitura.

Por um momento tenso e sem fôlego, não houve chão. A bota de Niko desceu através de irrealidades cintilantes e pousou em uma prancha de madeira com um baque leve. Foi muito mais suave do que na primeira vez que viajaram. Mais curto, mais fácil, o impulso carregando-os para frente em um pequeno barco de um entreposto solitário em uma costa repleta de gelo, através da pele entre mundos, para um porto inteiramente diferente. O esquife bateu contra um pilar de madeira, e Niko ergueu-se para se situar. Tudo estava tão brilhante após o período de clima sombrio que perseguira os Kannah em Bretagard. A vasta rede de docas entrelaçava-se preguiçosamente sobre um lago preto como espelho, sem terra em nenhuma direção exceto a doca, mal visível na névoa fria.

Niko Aris | Arte de: Winona Nelson

O hálito de Niko formou névoa, mas eles não estavam com frio. Respiraram pelo nariz, esperando que a mordida gelada do inverno lhes picasse os pulmões como fizera no momento em que fugiram de Theros para as terras Kannah — mas não houve frio repentino desta vez. O ar estava fresco e revigorante, vivo, a temperatura perfeita para um torneio.

Eles prosseguiram, as docas cruzando e recruzando-se como os estratos das eras. Entre as pranchas havia entalhes de todo tipo de feras — grandes ursos e dragões, javalis e coelhos, esquilos, peixes e baleias. Niko pisava e saltava ao redor desses símbolos com a graça de um dançarino, divertido e nada surprepso por os kaldheimrs colocarem seus bantos e histórias no próprio chão.

Semicerrando os olhos, Niko sacudiu a mecha de cabelo prateado-violeta dos olhos e absorveu tudo. Orgulhoso como um palácio, forte como uma fortaleza, o salão era uma estrutura em A curva, como os dedos entrelaçados de uma fila de dançarinos. O próprio salão estava abrigado sob galhos imponentes que pulsavam com magia. Este era o ápice absoluto da Árvore do Mundo, um ornamento vivo no auge do reino. Niko vira isso gravado na armadura Kannah como uma trindade de estrelas ou pendurado no céu como um diamante triplo — a única luz em uma extensão sem estrelas de cores ondulantes.

De perto, era muito mais.

Menires de pedra montavam guarda na base da escadaria, seus entalhes concêntricos belos e ilegíveis conforme Niko começava a subida. A cada passo, compreensão e anseio floresciam em seu peito. Sabiam por que Kjell falara daquilo como falara. Os Kannah descreviam Starnheim como o paraíso; os Buscadores de Presságios, como um enigma a ser destravado. Niko pensara que isso significava riquezas e descanso, mas o lugar acalmava algo muito mais profundo.

Cada passo era como o último trecho de estrada para a segurança. O calor irradiando de seu coração carregava a mesma promessa que uma dúzia de mãos compartilhando o trabalho de um banquete. Música e tagarelar zumbiam pelo ar, prontos a qualquer momento para irromper em boas-vindas. Luz azul e violeta nadavam sobre a pele parda de Niko conforme sua garganta apertava. Lágrimas de alívio surgiram atrás de seus olhos e, como um abraço, as portas se abriram. No momento em que Niko cruzou o limiar, entenderam o que cada mortal em Bretagard ansiava. Era mais do que o alívio do fim da jornada, mais do que celebração — Starnheim era o lar.

Arte de: Jonas De Ro

A arquitetura do salão era ao mesmo tempo construída e cultivada, como uma ruína abrangente restaurada ao auge de sua glória. Niko viu rostos parecidos e diferentes dos seus, tatuados, perfurados, nus — e outros feitos de pura pedra de obsidiana. Guerreiros e poetas, humanos, anões, elfos e gigantes que brilhavam com geada ou resplandeciam com lava.

Também entre eles estavam aqueles que pareciam fazendeiros ou estudiosos de mãos macias, aqueles cuja bravura e astúcia os desafiara à grandeza por glória, amor ou justiça. Cada conto flutuava em um mar de risadas ruidosas e os cheiros ricos de carne assada, vegetais temperados e toras estalando. Atentos à sua missão, Niko olhou para cima. Acima da longa mesa, do banquete, dos mortos honrados e de suas histórias intermináveis, camadas de nuvens brilhavam intensamente dentro da copa dos galhos da Árvore do Mundo. Algumas nuvens brancas permaneciam, mas atrás delas nuvens cinza-azuladas profundas começavam a emergir, ameaçando uma tempestade. Apenas Niko parecia notar.

"Mais bebida!" gritou um guerreiro esguio com uma barba vermelho-fogo e tatuagens cor de ferrugem cobrindo seus braços e peito.

"Diga isso para dentro do seu berrante, idiota", disse outra guerreira em armadura de escamas, linhas de riso como sulcos profundos em seu rosto coriáceo. Ela empurrou um berrante tão longo quanto o braço dela na mão de Barba-de-Fogo.

"Hidromel!" Barba-de-Fogo gritou para dentro do berrante. O berrante encheu-se instantaneamente, derramando sobre sua frente.

"O primeiro gole do hidromel de casamento, um presente da família da minha esposa", disse a mulher de armadura de escamas. Seu berrante encheu-se com um líquido dourado, redolente de campos de flores silvestres onde o mel fora feito.

"Drøss!" disse um Buscador de Presságios com uma longa cicatriz cortando o mapa de seu rosto como um marcador de destino. Seu berrante transbordou com espuma branca, salpicada de preto.

Barba-de-Fogo arrotou. "O que em todos os reinos é drøss?"

Marca-de-Mapa limpou a espuma da boca com deleite. "Claras de ovo de dragão batidas em neve, infundidas com ervas e resina de seiva."

"Ugh!" Barba-de-Fogo praguejou. "Foi assim que você morreu?"

Armadura-de-Escamas fez uma careta. "Como você consegue deixar tal imundície tocar sua boca?"

Niko escorregou entre eles. "Perguntei a mesma coisa à sua esposa quando a deixei na margem."

Marca-de-Mapa uivou de riso, deu um tapa nas costas de Niko e estendeu seu berrante. "Beba, Thura!"

"Maldita seja." Thura riu, tomou um gole heroico da estranha espuma, seguiu com sua própria bebida e devolveu o berrante.

"Quem é você, Cabelo-de-Aço?" perguntou Barba-de-Fogo.

O estilista que tingira as madeixas pretas de Niko teria ficado mortificado ao ouvir seus tons de espelho comparados a algo tão rude quanto aço. Niko pegou um berrante e pensou no lar. Ele borbulhou com algo cítrico, doce e forte, carregando consigo a memória de nadar à noite em um mar de verão.

Niko levou a bebida aos lábios mas não bebeu. "Nome mais importante primeiro."

Thura sorriu, empurrando um prato de javali assado para Niko. "Thura Sail-Rend, elu do clã Beskir."

Sem-fôlego sorveu outro gole de espuma. "Gæller Sem-fôlego, elu do navio Buscador de Presságios Corta-gelo. Repeli uma incursão Skelle inteira para proteger a família do meu neto."

"Vígniút!" gritou Barba-de-Fogo, batendo no peito encharcado de hidromel. "Elu dos Tuskeri~e malditos sejam os magos de estimação de Brokenbrow por fugirem em vez de sujar suas lindas botinhas com poeira!"

"Reagrupar ou ser derrotado", disse Thura. "Guerreiros e berserkers à frente, magos à distância."

Vígniút desdenhou, borrifando a mesa diretamente à sua frente. "Saqueadores, trolls, dragões — se você não está a distância de cuspe, você não está na luta."

Niko recuou, batendo uma mão sobre a abertura de seu próprio berrante.

"Você é uma bagunça, Viggy — beba com a boca fechada." Sem-fôlego jogou um pano no jovem de barba de fogo.

"Sail-Rend~ouvi falar de você!" Niko disse a Thura. A história fora trágica e triunfante, como ela lutara contra seu irmão traidor e o matara com a própria espada dele em vez de macular a dela. Niko teria achado o assunto doloroso no lugar de Thura e terminou em um tom mais diplomático. "Birgi contou sua história para uma sala cheia de Kannah e Buscadores de Presságios. Seu nome se espalhou longe."

Thura bateu na mesa. "Há! Vê? A própria Narradora conta contos Beskir para o seu povo! Sangue de tubarão fermentado! Beba!"

"A piada é sua, eu gosto dessa coisa." Sem-fôlego pegou o berrante de Thura e tomou um longo trago. "Mas não vou ouvir a canção da sua morte de novo — quero ouvir algo novo. Grandes nomes falaram, Cabelo-de-Aço. Conte-nos como você ganhou a glória de Starnheim!"

"Niko Aris, de Meletis", começaram. "E estou aqui porque nunca erro o alvo."

Os outros três ouviram enquanto Niko contava seu conto. O poderoso oráculo que decretou que Niko se tornaria um campeão imbatível, nunca erraria o alvo e nunca perderia. O treinamento incessante trouxe a vitória, e a vitória, a fama — mas era sem sentido. Qual era o ponto do destino sem propósito? Nos últimos jogos Akrosianos, onde as joias de cada pólis se reuniam para competir, Niko lançou seu dardo, cuspiu na cara do destino e perdeu intencionalmente.

Niko Desafia o Destino | Arte de: Bastien L. Deharme

"O próprio destino enviou um agente para me punir e me empurrar de volta, para corrigir a trama que eu havia desfiado", disse Niko.

"O que aconteceu então?" perguntou Thura.

"Você matou o assassino?" Vígniút perguntou.

"Lutamos", disse Niko, vagamente. Tinham ficado aterrorizados. Desesperados. Prender um agente do destino em um estilhaço de espelho fora como uma criança pisando no pé de um adulto — mais surpresa do que estratégia. Todo o ser de Niko se iluminara, um para-raios para algo enterrado nas profundezas. Seu destino era uma mentira. E eles podiam correr para qualquer lugar, ir para qualquer lugar, com um pensamento.

Sem-fôlego observou Niko levar o berrante à boca e não beber. "Isso é desafiar os deuses, hein?" disse ele. "Facas no escuro não mudarão o fato de que você provou que eles estavam errados."

Thura dispensou o Buscador de Presságios com um gesto. "Os deuses nem sempre estão certos, os barcos no porto negro dizem tanto. Eles têm que ganhar seu lugar em Starnheim igual a qualquer um."

Por cima do ombro de Thura, Niko avistou um gato enorme e fofo, cujo pelo espelhava as nuvens de tempestade que pairavam sobre o banquete. Tinha pelo menos o dobro do tamanho que a pequena Ameaça tivera e, como a própria Starnheim, os olhos do gato e as pontas de seu pelo brilhavam com luz polar. A mesma luz que faiscava nas asas das Valquírias.

Guardião do Salão dos Deuses | Arte de: Sidharth Chaturvedi

Era também a primeira criatura que Niko vira na casa das Valquírias que não era obviamente uma pessoa, e o gato parecia observar Niko com o mesmo interesse.

"Eu volto já", disse Niko, "tenho amigos para ver."

Entregaram seu berrante cheio de azul borbulhante therosiano para Vígniút. O gato trotou para longe e Niko seguiu, deixando Vígniút e os outros provarem o que quisessem de outro mundo.

O gato olhou para trás para Niko, moveu a orelha, então partiu novamente através da multidão que se gabava. Tomou uma esquerda brusca e desapareceu através de uma fresta na parede e para dentro de um vão entre forros. Niko seguiu, emergindo em um salão silencioso, o chão de pedra tão preto quanto o lago, iluminado no alto por uma tempestade silenciosa. Por cerca de oitocentos metros, Niko seguiu a luz verde e violeta do gato até outra pequena fresta, as discussões ecoando além sugerindo um espaço muito maior.

"~Tremor na Árvore do Mundo. Se viajar continuar a ser este desafio, como vamos coletar os mortos e trazê-los aqui ilesos?"

O gato desacelerou, espreguiçou-se, chicoteou a cauda fofa e desapareceu pelo buraco. Niko sabia como causar uma boa impressão em Theros, mas Kjell lhes ensinara muito desde então, incluindo como causar uma boa impressão em Kaldheim.

Arrombar a porta com um chute. Dar um soco na cara de um deles.

Niko deslizou para dentro, empertigou-se e ficou boquiaberto.

Havia dezenas delas, espalhadas entre os galhos da Árvore do Mundo como um bando de aves de rapina. Uniformemente altas e de aparência marcante, as Valquírias usavam armaduras de todos os tipos em prata, ouro e preto e bronze polidos. Camadas de pele e amuletos de pedra em correntes distinguiam algumas, enquanto outras desfilavam pelo salão em cintos e arreios ricamente trabalhados, chapeados com o metal mais finamente manufaturado que Niko vira desde que deixara o lar. Suas tranças longas eram aneladas com punhos como as faixas de cobras, e muitas bebiam de longos berrantes como o berserker de barba de fogo. Aquelas com asas brancas irradiavam os tons pálidos da aurora, e suas contrapartes de asas negras, como a que Niko capturara, formavam fitas com os verdes e azuis estranhos de uma noite profunda de inverno.

O que poderia possivelmente ameaçar estes deuses?

Uma voz melíflua veio de uma Valquíria de asas pálidas com pele castanha profunda. "Aggressor! Você encontrou um amiguinho? Está perdido, meu querido? Você deveria retornar ao banquete."

Levou um momento para Niko perceber que a Valquíria agora se dirigia a eles, em vez de ao gato. "Valquíria de Starnheim, sou Niko Aris, de—"

"Sim, vá em frente, de volta ao salão com você", disse outra.

Niko varreu a sala com o olhar, procurando a Valquíria de pele escura com cabelo loiro e asas cinza-pombo — uma testemunha do que acontecera — mas havia tantas delas.

"Eu não pertenço ao salão. Não deveria estar aqui—"

Outra os cortou, asas escuras brilhando ametista. "Seja bravo, pequeno. Você está seguro. Eu garanto."

Niko rangeu os dentes. Estes seres não eram diferentes de Klothys, ou do agente, ou do oráculo que usava o destino como uma gaiola para manter as pessoas controladas. Niko dirigiu-se a elas com uma voz treinada para estádios. "Sou de Theros, uma terra que nunca ouviu falar de vocês. Meu nome é Niko Aris, e capturei uma de vocês para parar uma morte sem sentido e encontrar um caminho até aqui. Dois clãs de Bretagard uniram seu poder para trazer a vocês um aviso — a Serpente do Cosmos está vindo atrás de vocês. Ela verá seu salão destruído, seus mortos obliterados e seu lago drenado até o nada. Não sobrará nada de seu lar além dos restos de um cocho de porcos!"

Outra Valquíria, de cabelo ouro-branco e pele pálida em forte contraste contra as nuvens negras revoltas entre os galhos da Árvore do Mundo, apoiou o queixo na mão. "Evocativo, e impossível", disse ela. "O lago Valkmir e tudo nele é nosso sangue e osso. Não podemos ser pegos desprevenidos aqui."

"E no entanto ninguém me recebeu na porta. Seu gato tem melhores modos", rebateu Niko.

O gato cinza saltou sobre o ombro da loira, aninhando-se em sua asa nevada.

Valquíria Destemida | Arte de: Jason Rainville

"Deve ter te tomado por um esquilo intrometido, não tomou, Aggro?" disse a loira.

O gato aceitou um carinho, brilhando com luz polar — então ergueu as orelhas, assustado. Lançou-se em um salto vertical de seis metros, saltou de uma viga e desapareceu nos galhos entrelaçados acima. O portal em arco que dava para o lago encheu-se de asas negras.

"Encontrei você, mortal!"

Niko o reconheceu no momento em que ele falou. Avtyr, o ceifador desaparecido, planou para uma aterrissagem brusca. O brilho verde-ágata de suas asas ardia, apagando sua sombra e tornando sua pele parda pálida, olhos castanhos quase amarelos de fúria.

Todas as Valquírias observavam com confusão. Avtyr parecia um pouco desgastado, suas longas tranças pretas um pouco menos lustrosas e suas asas sem cuidados, como um corvo em um aguaceiro. Ele sacudiu as asas, puxou irritado as amarras apertadas circulando suas costelas sob a armadura e caminhou decididamente em direção ao centro do ninho.

Ele apontou um dedo para Niko. "Este mortal interrompeu nosso julgamento e não mostrou respeito pelas leis pelas quais toda Kaldheim vive e morre. Nem mesmo os deuses Skoti arrogantes mostrariam tal audácia!" Avtyr não sacou sua espada, mas a raiva estalava dele como se pudesse fazê-lo a qualquer momento. Sua armadura enegrecida brilhava enquanto ele apontava para diferentes Valquírias, algumas agrupadas como irmãos, outras desdenhando da menção de sua contraparte.

"Evot, Tove, vocês deixarão esta afronta impune? E quanto a você, Gisla? Se Alsig tivesse sido atacada por um mortal sob os auspícios de manter o frith no meio de uma batalha campal, você a teria abandonado? Claro que não — você teria lutado! Esta visão de que falam não é nada além de Fynn Caçador-de-Serpentes perseguindo sua juventude perdida. Conseguem imaginar aquele fanfarrão debatendo-se contra uma criatura cujo corpo circunda a própria Árvore do Mundo? Ultrajante."

Avtyr virou-se para Niko com o varrer de suas asas. Niko teve que ajustar sua postura para não ser soprado para trás.

"Aquele estoinho me forçou a negociar minha liberdade com uma Vedruna em vez de me enfrentar em pessoa! Não apenas uma invasão, mas uma enganação covarde—"

Outra Valquíria planou vinda dos galhos em asas cinza-pombo que brilhavam azuis como uma lua de inverno. Seu cabelo loiro emoldurava um rosto castanho com olhos cinzas severos. "Avtyr", disseram eles, estendendo a mão para ele, "você está ferido? O que aconteceu com suas asas?"

Niko os reconheceu. A outra do campo de batalha. Sua presença pareceu embotar a raiva de Avtyr.

"Os caminhos através do Cosmos estão"—Avtyr buscou a palavra—"lotados. Se eu tivesse carregado um mortal comigo, poderia tê-lo perdido. Por que você me deixou lá, Rytva?"

Rytva voltou-se para as outras. "Eu lhes disse que algo estava errado — olhem para as nuvens. Elas fervem com a violência dos reinos inferiores!"

"Sua jornada fez isso com você, e não eu?" Niko perguntou, inocentemente.

"Você não tem a força", Avtyr disse por cima do ombro de Rytva. "Um truque de criança, no máximo."

Niko tinha que convencer todas as Valquírias, e rápido. Eles recordaram um gesto extravagante de honestidade em Akros — sacar o xiphoi, tocar a ponta da espada na própria barriga e oferecer o punho à parte ofendida.

Em vez de alarmar a todos conjurando uma arma, Niko revelou seus segredos. "Se algo quebra ou estilhaça o espelho, você está livre. Quanto mais armadilhas exigem minha atenção, menos tempo consigo mantê-las e, se eu me esquecer de você — já que não tenho que me concentrar em apenas uma — a magia perde o efeito por conta própria. Algumas horas no máximo. Você nunca esteve em perigo por minha causa."

As outras Valquírias olharam todas para Avtyr, suas acusações e experiências parecendo ajudar em vez de prejudicar o caso de Niko. Avtyr bufou ar pelo nariz, vencido mas relutante em ceder. Murmurou uma longa sequência de xingamentos que Niko não conseguia entender e saiu do ninho com Rytva ao seu lado.

Então ele congelou.

Rytva tocou seu braço, encarando o céu em horror. "Mãe de todos nós~!"

Bem acima deles, passado a suave serenidade da linha de nuvens, a suave extensão do crepúsculo começou a ferver com infecção. Como se vistos através de gelo fino, vislumbres de outros reinos apareceram, nitidamente, desvaneceram — como se dezenas de Doomskars pressionassem as bordas de Starnheim. Terra e céu encontravam-se em gravidades ortogonais, mostrando lagos de fogo fluindo morro acima. Uma queda longa sobre pedregulhos quebrados tufeados com musgo e líquen, e uma terra familiar sob céus estranhos.

Esta última imagem inchou, ondulou e rasgou-se. A princípio, parecia uma punção supurante, uma extensão de sangue preto coagulando vertendo na realidade, mas o filete retesou-se e retraiu-se para dentro de si mesmo, tronco engrossando, pele rachando e descamando no Valkmir como folhas cadentes de pura iridescência — cada uma do tamanho de uma vila. O que começou como uma lesma sem feições enroscou-se e retesou-se no ar, inchando e eriçando-se com escamas e espinhos. A criatura solidificou-se em uma enguia massiva e blindada, nascida dos interstícios do próprio Cosmos.

Então houve o som.

A mandíbula abriu-se. Deslocou-se. Dentes imbuídos de veneno como estacas imponentes brilhavam contra a carne cianótica de sua goela. Seu grito rasgou o céu, uma cacofonia torturada de metal retorcido, cidades tombadas, mundos inteiros moídos a escombros.

As mãos de Niko sobre os ouvidos ficaram entorpecidas de medo.

"Koma", Avtyr arquejou, "A Serpente do Cosmos."

Koma, a Serpente do Cosmos | Arte de: Jesper Ejsing

Se um Caminho de Presságio era uma abertura entre mundos, o rasgo que esta criatura causara era uma violação. Arcos de energia mágica saltavam e estalavam como o ácido de um parasita para enfraquecer a pele macia do mundo. Niko olhou para as Valquírias em busca de estrutura, de liderança; mas não havia nenhuma. Estavam com tanto medo quanto Niko.

"Isto não deveria ser possível!" Rytva murmurou.

"Alguém deve tê-la libertado — enviado-a — mas quem nos atacaria? Por quê? " Avtyr gaguejou.

Rytva engoliu seco. "Nós — nós temos que lutar contra ela. Não podemos deixar que ela fira as pessoas."

"Temos que fugir", disse Avtyr.

A serpente debateu-se, e o lago negro rodopiou em seu rastro. Nuvens agitaram-se, e a serpente deu o bote ao sinal de movimento — o estalo de sua mandíbula ressoando como um pedregulho partido por um raio.

"Com o caminho entre mundos instável? Absolutamente não. Não abandonarei o nosso lar — nosso sangue — não sem lutar!" gritou Rytva.

Uma memória selvagem e histérica de Ameaça, a caçadora de ratos, cruzou a mente de Niko, a maneira como ela perseguia os espelhos de Niko para onde quer que Niko os lançasse. "Se não podemos lutar, e não podemos fugir, então temos que conduzi-la de volta para fora", disse Niko. "Voem para perto, lado direito ou lado esquerdo — façam-na persegui-las da maneira como os gatos perseguem brinquedos."

"E se não conseguirmos voar mais rápido que aquela coisa?" Avtyr perguntou.

"Espelho. Seguro, pequeno demais para ser visto. Animais seguem o que parece vivo, certo? Puxamos a atenção dela como se puxássemos rédeas e a dirigimos de volta para fora através de um desses buracos."

Rytva e Avtyr trocaram um olhar, então olharam para a criatura. "E quanto aos mortos?" Rytva perguntou.

"Eles conseguem voar?" Niko perguntou. "Se não, mantenha-os lá dentro. Se aquela coisa se distrair, o plano está acabado."

Rytva falou suavemente para Avtyr. "Você vê o que eu vejo neles, querido. Não seja teimoso."

Avtyr engoliu seco. "Ela deve voltar pelo caminho de onde veio — não arriscarei enviá-la para algum lugar aleatório que não mereça."

"Feito", disse Niko. "Se pudermos segui-la até casa, então talvez possamos encontrar quem a enviou."

Com determinação sombria, Avtyr seguir a liderança de Rytva. As duas Valquírias puxaram seus berrantes dos cintos e sopraram, reunindo todos os seus parentes do salão infinito. Juntaram lanças, espadas, escudos, martelos de guerra e machados; fizeram ajustes finais em suas armaduras e formaram fila.

Niko varreu um braço pelo peito, depois o outro, alongando os ombros. Tentaram notar o medo sem se perder nele, da mesma forma que gerenciavam seus nervos nos últimos momentos de escuridão antes de entrar no sol escaldante e em uma arena lotada cheia de estranhos sem rosto gritando seu nome. Alvos móveis a partir de uma plataforma móvel eles haviam treinado, mas esta~desta vez poderiam morrer. Desta vez, imortais poderiam morrer. Niko pretendia apenas trazer um aviso, não liderar o ataque.

Este lugar significava tanto para tantos. Para Thura, Sem-fôlego, o jovem berserker. Kjell. Eles mereciam voltar para casa no fim de seu tempo. Niko queria vê-los novamente.

O atleta, o profissional, saltou sobre as plantas dos pés, temperando a descarga de adrenalina em uma reserva constante para a maratona vindoura.

Quarenta Valquírias levantaram voo em ondas, incluindo Rytva que carregava Niko. O estômago de Niko caiu conforme observavam a doca encolher até ser uma linha estreita entre o salão e o interminável lago negro. Uma defesa fina e frágil.

O céu borbulhava, outros reinos ainda se alongando e pressionando para dentro. Visões de florestas primordiais e os restos carbonizados de vilas dilatavam e apagavam-se em todos os lados. Rytva e Niko separaram-se do grupo principal e dirigiram-se para o monstro.

Rytva puxou para cima para evitar ser soprada para fora do curso pelo rastro de Koma conforme ela nadava pelo céu. Avtyr bateu as asas, luz verde brilhando através das penas negras, e voou à frente para encontrar arrebentações que pudessem cavalgar em direção à cabeça da serpente.

"Prontos?" Rytva chamou.

Niko tentou gritar pronto de volta, mas sua boca ficara seca como osso de medo. Falaram com sua arma em vez disso, a memória muscular assumindo onde o pensamento consciente fugira.

Luz azul profunda irradiava da extensão de prata líquida que Niko formou em um dardo com uma extremidade em gancho. Niko forçou foco em seu aperto. Apontaram para a base do crânio da serpente, seu primeiro alvo.

Aquilo foi o suficiente para as Valquírias. Rytva e Avtyr carregaram Niko juntos e mergulharam. Mal Niko havia angulado as pernas para a queda e já estavam no ar, o corpo ondulante de Koma ao alcance. Pousaram, rolaram e usaram seu impulso contra o vento para pousar agachados, pegando o jeito da maneira como Koma se movia. Niko rastejou sobre escamas grossas como pedregulhos em alguns pontos e lisas como gelo em outros; cada uma portando uma semelhança estranha com o escudo de Fynn. Deslizaram pelos últimos poucos metros de pescoço para enterrar seu dardo entre as escamas do crânio de Koma.

Rangendo os dentes, o poder de Niko fluiu pelo dardo para fazer uma âncora, estendendo três dentes a partir da base que se enrolaram mais fundo na carne da besta. Cheirava a metal queimado e ácido. Niko angulou os pés em cada lado do ferimento, esperando que suas botas os salvassem do pior das queimaduras.

Niko ergueu a mão esquerda, e Avtyr, longe à sua esquerda, soou seu berrante. Um esquadrão de cinco Valquírias avançou, uivando gritos de guerra e irradiando luz de tempestade. Bateram suas espadas contra escudos, provocando Koma para vir atrás delas.

Koma mordeu a isca, voando adiante atrás da luz e do trovão, abrindo suas mandíbulas para abocanhar a mais próxima. As Valquírias espalharam-se em todas as direções e, exatamente quando os dentes de Koma se fechavam sobre a Valquíria mais lenta, Niko lançou um espelho e a Valquíria pareceu estilhaçar-se em mil estilhaços de vidro enquanto seu verdadeiro corpo — preso no estilhaço ainda em movimento — voava inofensivamente fora do alcance de Koma. As mandíbulas da serpente fecharam-se sobre nada além de nuvens.

Quando a armadilha liberou, a Valquíria emergiu do vidro como se caísse de um alçapão no ar. Bateu as asas, endireitou-se e reuniu-se à sua unidade fora da periferia de Koma.

"Está funcionando!" gritou Rytva, longe à direita de Niko.

Niko varreu o céu com o olhar, procurando por um padrão, e sinalizou para os próximos conjuntos de Valquírias se prepararem. Outro caminho abriu-se, arqueando com eletricidade mas ainda não totalmente formado. Niko ergueu a mão direita, e Rytva soprou seu berrante. Valquírias enxamearam o lado direito de Koma, lançando insultos e provocações, agitando suas armas mas nunca golpeando. No segundo em que os olhos de Koma fossem danificados, o plano desmoronaria.

A cobra deu o bote, golpeando as Valquírias, e Niko lançou armadilhas de espelho, desaparecendo com as presas da besta. Cada vez que as Valquírias caíam fora da periferia de Koma, Niko convocava outro espelho, estilhaçando o primeiro. Koma voava adiante, e os espelhos coldreados de Niko pairavam por perto conforme Niko buscava o Caminho de Presságio certo.

A cabeça de Koma deu um solavanco para cima, e ela gritou. Niko sentiu o mundo inclinar-se e quase perdeu o equilíbrio. Koma deve ter sentido o dardo como uma coceira. Niko caiu de joelhos e deslocou-se para frente, deixando seu primeiro dardo estilhaçar-se. Enterraram os dedos enluvados sob duas das escamas de Koma e fizeram força, segurando-as com os antebraços e cravando dois dardos mais grossos e curtos na carne macia por baixo. Koma uivou, balançou a cabeça para lá e para cá e girou no ar.

Cada centímetro do corpo de Niko agarrava-se às escamas de Koma, mesmo quando o sangue ácido da serpente sibilava e salpicava contra sua armadura. Armadura Kannah. Armadura de Bretagard. Dada sem expectativa de nada em retorno porque quem quer que você encontre na neve é ou inimigo ou família; não há nada entre os dois.

Niko endireitou-se, joelhos fincados, dois dardos cravados fundo, espelhos circulando enquanto mais Caminhos de Presságio se abriam, expelindo detritos, ou ventos de tempestade, ou poeira de deserto. Nenhum deles estava certo. Tinha se aberto antes — onde estava? Qual deles?

Niko, Rytva e Avtyr bradaram comandos, e Koma voou para onde lhe disseram. As Valquírias estavam em seus dois últimos esquadrões. Os braços de Niko pareciam de chumbo, seu tronco e pulmões queimavam. Tinham que continuar. Se não pelas Valquírias e Starnheim, então por todos os kaldheimrs que viviam sob sua luz e a promessa do lar.

Koma inclinou-se para a esquerda, e Niko agachou-se na força centrífuga que os mantinha no lugar. Pelo canto de sua visão, outro Caminho de Presságio abriu-se logo sobre o Valkmir.

"Niko!" gritou Avtyr. Ele vira também. Se Koma não destruísse este lugar, os portais ainda poderiam destruir.

Com os olhos turvos pelo vento implacável, Niko piscou para clareá-los. Para então viram um portal abrir-se diferente de quaisquer outros, sem cachoeiras cintilantes ou montanhas musgosas; mas nuvens volumosas brilhando com chamas, uma massa de corpos revolvendo-se em uma batalha como o fim do mundo.

Sem segurança ou certeza, Niko escolheu.

"ALI!" Niko gritou, erguendo o punho esquerdo. "RÁPIDO!"

Avtyr soprou o berrante, e o último esquadrão de Valquírias mobilizou-se, rugindo para a batalha, resplandecendo com luz e atraindo a serpente para seguir.

Starnheim Desencadeada | Arte de: Johannes Voss

Conforme arremessavam-se em direção ao chão, para o espaço entre a doca e a água negra como sangue, o buraco no mundo começou a fechar. Niko mal conseguia erguer os braços. Se lançassem um espelho agora, sabiam que errariam. Quase sorriram. Isso simplificava sua escolha. Niko rugiu, canalizando cada grama de sua magia, cada gota de força nos dois espigões de âncora no crânio de Koma. Os dardos alongaram-se, e Koma sentiu.

A última Valquíria mergulhou fora do caminho conforme a cabeça de Koma deu um tranco para trás, tentando se livrar das agulhas que rastejavam mais fundo em sua carne. Koma deu um golpe de volta para se endireitar e esmagou o rosto na borda do buraco. A doca explodiu em uma massa de pranchas e tiras de metal rasgadas. Niko foi arremessado para fora. A serpente, atordoada, deslizou pelo vão.

O peso e impulso de Koma carregaram-na o restante do caminho para baixo através do buraco, as águas negras do Valkmir derramando-se atrás dela, sibilando sobre as manchas de sangue ácido de Koma conforme ela caía pelo buraco no mundo.

Niko levantou-se sobre mãos e joelhos para rastejar para longe, mas a doca quebrada colapsou sob seu peso, tombando-os no buraco. No último momento, Niko agarrou uma seção de pilar, agarrando-se com braços esgotados e pernas exaustas. A madeira acima deles rangeu. Ofegaram. Suando. Trêmulos. Cabelo prateado grudado ao rosto e ouvidos ainda zumbindo pelos gritos horríveis da Serpente do Cosmos.

Estavam com água pelo pescoço. Passado o medo. Passado a bravura. Era exatamente onde Niko mirara, e Niko nunca errava o alvo.

Esgotado, exausto, Niko voltou os olhos para cima para as luzes de Starnheim, o curto caminho para o fim da jornada, toda a esperança de lar de Kaldheim~

E soltou.

Fosse o vento ou a magia minguante, Niko sentiu-se mais frio. Um pânico de despedaçar o coração roeu as bordas da tranquilidade de Starnheim. Ergueram uma mão em direção à luz, cada músculo queimando, e buscaram por um espelho.

A mão de Avtyr fechou-se ao redor do pulso deles.

A luz de suas asas era suave como vaga-lumes, seus olhos castanhos cinzas no brilho estranho.

"Terminou de observar, ceifador?" Niko murmurou.

Avtyr olhou para Niko da maneira como Orhaft olhara, suspeita e esperança todas emaranhadas, a esperança um pouco mais forte.

"Seu destino ainda não foi decidido", ele respondeu.

Uma risada arquejante partiu os lábios de Niko. "Destino é apenas outra pessoa te dizendo quem ser." Niko endireitou-se ao lado da Valquíria conforme os dois despencavam juntos em direção à batalha.

Avtyr bateu as asas, segurando firme e acelerando pelo caminho entre mundos. Um dardo de prata materializou-se na mão livre de Niko, brilhante como espelho e deixando um rastro de luz azul profunda conforme uma horda de Valquírias seguiu, iluminando o caminho em ouro e verde, roxo e laranja, prata, escarlate e azul — um novo arco-íris nascido de um mundo mais escuro.

Neste céu de inverno, a queda tornou-se voo.

20/01/2021 | Por Roy Graham & Jenna Helland

Episódio 3: A Saga de Tibalt

Ah, o cheiro de piche borbulhante! O beijo quente das rupturas vulcânicas! Depois de todo este tempo passado labutando nos cantos congelados deste plano amaldiçoado, isso me lembra o lar. Se ao menos cada galho ao longo daquela maldita Árvore do Mundo pudesse ser mais como Immersturm! Se você me perguntar, toda Kaldheim seria melhorada com um toque extra de fogo, uma pitada de anarquia. O que, se fiz meu trabalho direito, é exatamente para onde tudo está indo.

Sim, não há dúvida em minha mente de que toda esta trama, estes meses de trabalho árduo, se unirão perfeitamente. Mas devo admitir, há um pensamento que me mantém acordado à noite: e se, enquanto o mundo queima ao redor deles, ninguém souber quem acendeu o fósforo?

Este plano está infestado de narradores. Ouça por tempo suficiente e todos os seus contos se misturam: eles adoram repetir a mesma baboseira sobre bem e mal, heróis e vilões, certo e errado. Vamos dar a eles algo novo. Uma história para lembrar — a última saga de Kaldheim. E eu prometo, tem um final de morrer. . .

A saga começa com um planeswalker chamado Tibalt. Não apenas ele era poderoso e brilhante, mas também era desprezado por quase todos que conhecia por conta de seus muitos dons — não que isso o incomodasse. No entanto, por conta de seus muitos inimigos invejosos, Tibalt viajava frequentemente de lugar em lugar e nunca ficava em um plano por tempo demais. Esta é a história de como ele veio para Kaldheim, e como conheceu a Besta Horrível.

Veja bem, esta Besta Horrível ouvira falar dos muitos talentos de Tibalt e precisava desesperadamente de sua ajuda. A besta sabia que um planeswalker bonito e poderoso como Tibalt nunca se rebaixaria a ajudar um monstro hediondo e estúpido a menos que sua mão fosse forçada, então a Besta Horrível aproximou-se dele sorrateiramente um dia e espetou Tibalt com um tipo de veneno sórdido e traiçoeiro. Ele chamou este veneno de "semente" — e a única maneira de a Besta Horrível removê-lo seria se Tibalt causasse uma distração em seu nome.

O que o monstro não percebeu foi que Tibalt já planejara causar problemas em Kaldheim. Então, enquanto o sábio e poderoso planeswalker concordava com os termos da Besta Horrível, ele estava realmente apenas fazendo o que pretendia fazer de qualquer maneira.

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Primeiro, Tibalt precisava de um disfarce. Ninguém ouviria algum recém-chegado, afinal. Com o vasto reservatório de astúcia de Tibalt, foi fácil o suficiente encontrar Valki. Aconteceu que este Deus das Mentiras, este Príncipe dos Trapaceiros, foi tolo o suficiente para ser enganado e trapaceado ele mesmo. Que coisa, não?

Tibalt envolveu Valki em correntes mágicas e o levou para o reino mais frio e remoto que conseguiu encontrar: Karfell. Havia uma múmia congelada de um rei lá com quem Tibalt fechara um acordo. Contanto que Valki ficasse nas profundezas da masmorra do palácio glacial deste Rei Narfi, Narfi e seus Dread Marn — é como este rei chamava os cadáveres ambulantes que compunham seu exército — poderiam ter a primeira escolha do tesouro quando o Doomskar começasse. E oh, que Doomskar seria!

Nunca Tibalt vira um bando de zumbis mais gananciosos e loucos por ouro! Os habitantes dos outros reinos, ele sabia, precisariam de um pouco mais de persuasão antes de estarem dispostos a marchar para a guerra.

Valki, Deus das Mentiras | Arte de: Yongjae Choi

O próximo passo no plano mestre de Tibalt foi vestir seu novo disfarce de Valki e visitar Koll, o Forjador-mestre. Koll era um dos anões — aquela espécie de ferreiros de mente metálica e alheios a tudo — e por acaso Koll era o maior de todos eles, pelo que quer que isso valesse. Ele era o único que conseguia trabalhar com Tyrite, a seiva endurecida da Árvore do Mundo, que tinha todo tipo de propriedades interessantes. Koll estava fazendo uma espada com o material, uma lâmina que poderia abrir caminhos entre todos os reinos de Kaldheim. Era para ser para Halvar, o deus da batalha — cada plano tem um desses brutos burros, você sabe — mas a questão era que Tibalt precisava dela. Cruzar entre os reinos era um verdadeiro tormento de outra forma, e ele tinha muito trabalho a fazer subindo e descendo a Árvore do Mundo. Koll foi terrivelmente teimoso em entregá-la a Valki — algo sobre Halvar salvando-o de um lobo gigante e Valki sendo o Deus das Mentiras — então Tibalt fez um favor aos reinos e empurrou o anão detestável direto para sua própria forja.

O Roubo do Deus Trapaceiro | Arte de: Randy Vargas

Tibalt levou seu ato para Skemfar, lar dos elfos, e buscou uma audiência com seu rei. O Rei Harald, filho de Hraldir, o mesmíssimo elfo que unira os clãs guerreiros do Bosque e da Sombra, era conhecido por todos os reinos como um líder sábio e firme. Ele era conhecido por Tibalt, porém, como um tolo orgulhoso e paranoico que acreditava que os elfos deveriam estar no comando de cada graveto em Kaldheim, e o ódio e a desconfiança dos Skoti — os deuses de Kaldheim — há muito se assentara nos ossos de cada elfo em Skemfar.

Oh, se você pudesse ter visto a corte real naquele dia! As mentiras que o esperto Tibalt teceu — a nuvem escura que se assentou sobre Harald ao ouvir sobre todas as coisas terríveis que os deuses planejaram para seu povo, terríveis demais até para o travesso Valki ficar parado assistindo! A única escolha, se os elfos quisessem sobreviver, era clara: atacar primeiro.

Harald, Rei de Skemfar | Arte de: Grzegorz Rutkowski

Em Surtland, Tibalt alertou os gigantes do gelo sobre uma incursão de trolls Torga, despertados de seu longo sono. Em Bretagard, ele prometeu ao cruel clã Skelle o retorno de seu mestre demônio, Varragoth. Por todos os reinos de Kaldheim, Tibalt semeou as sementes da guerra e do caos.

Mas e Starnheim? As Valquírias — bem, elas representavam um problema, mesmo para o astuto Tibalt. Eram criaturas presas ao dever, separadas da política que controlava os outros reinos. Elas não se importavam com ouro ou poder, e não temiam nenhuma outra força mortal em Kaldheim. O que um trapaceiro dedicado poderia fazer com almas tão rígidas e inflexíveis?

Pausamos a saga, por um momento, para recontar um ditado comum em todo o multiverso: o galho que não se dobra, quebra.

Tibalt pode ter sido tanto brilhante quanto poderoso, mas não era forte o suficiente para enfrentar cada pastor e ceifador nos salões de Starnheim. Havia um ser, porém, que podia! Koma, ele era chamado — a Serpente do Cosmos, a primeira e mais antiga dos monstros nascidos da Árvore do Mundo. Há muito tempo, os Skoti haviam banido Koma de entrar nos reinos, prendendo-o no Cosmos vazio. Por eras, sua inquietação cresceu, sua fome ficou insaciada e sua sede de destruição inapagada. Tibalt teve pena da pobre cobra; ele realmente teve. Então, com a Espada dos Reinos, ele abriu uma porta para o lar das Valquírias, onde a Serpente do Cosmos poderia recuperar o tempo perdido.

Abrir os Caminhos de Presságio | Arte de: Eric Deschamps

Agora, Tibalt não era um grande crente em espadas. Sua fé residia em facas, em anzóis, em fogo do inferno e enxofre — mas até Tibalt tinha que admitir que a Espada dos Reinos provara ser muito útil. Ele cruzara o Cosmos com ela, repetidas vezes. Ele a usara para soltar Koma sobre as Valquírias de Starnheim. Agora, ele a estava usando para uma tarefa muito mais humilde, embora igualmente importante — ele estava deixando um rastro, arrastando a ponta pela superfície de basalto preto de Immersturm. Era importante, afinal, que a planeswalker o seguisse até aqui.

O fim da saga ainda não foi escrito, mas deixe-me pular à frente e dizer como termina: Tibalt mata a planeswalker. A última coisa que ela vê, enquanto a vida se esvai de seus olhos, é Kaldheim queimando. Todos os reinos, juntos finalmente em uma grande e gloriosa conflagração.

27/01/2021 | Por Roy Graham & Jenna Helland

Episódio 4: No Reino dos Demônios

Pela primeira vez em seu tempo em Kaldheim, Kaya não precisou se preocupar com o frio. No outro lado do Caminho de Presságio de Tyvar, uma rajada de ar quente e nocivo a saudou. O céu foi a primeira coisa que viu: nuvens escuras revolvendo-se sem a memória de um sol. A única luz a ser encontrada vinha dos raios vermelhos que ocasionalmente partiam o céu e do brilho alaranjado subindo de algum lugar abaixo deles.

Kaya estava com Tyvar no topo de uma crista de rocha preta e denteada. Sobre a borda, conseguia ver um lamaçal de piche entrelaçado com rupturas alaranjadas fumegantes, uma vasta extensão de lava cuja superfície endurecera parcialmente em grandes pedaços de pedra-pomes preta flutuando em rocha derretida. De vez em quando, uma bolsa de lava irrompia em um gueiser derretido, enviando pedaços brilhantes de lava salpicando no ar. Era difícil imaginar algum lugar menos hospitaleiro à vida — e no entanto, Tyvar parecia olhar para a vista apocalíptica com nada menos que admiração.

"Nós conseguimos", disse ele. "Não tinha certeza se conseguiríamos."

"O que isso deveria significar?" perguntou Kaya.

"Os deuses selaram este lugar há muito tempo, após Varragoth escapar pela primeira vez, com poderosas runas de proteção. Nunca abri um Caminho de Presságio aqui — nenhum elfo abriu. Mas Tibalt deve ter de algum modo danificado as proteções."

Aquela espada. Não fora nenhum tipo de magia que ela vira antes — nada como o portal que Alrund abrira. "Temos que tirar aquela espada dele. Se ele pode rasgar e abrir as portas deste lugar, quem sabe o que mais ele pode fazer com ela?"

Tyvar apontou para trás dela. Ela virou-se, a mão alcançando automaticamente sua adaga — e não encontrando nada, ela lembrou um momento depois. Não era uma ameaça que ele estava apontando, de qualquer forma.

Lá embaixo, na superfície parcialmente resfriada do lago de magma, algumas linhas estranhamente retas estavam esculpidas na teia de rupturas vulcânicas. Após um momento, seus olhos ajustaram-se à luz baixa, e ela viu o que fora esculpido no basalto, aguardando a chegada deles: uma seta derretida alaranjada.

"Bem, entre as muitas coisas de que Tibalt foi acusado, sutileza não é uma delas", murmurou Kaya.

Em um movimento fácil, quase praticado, Tyvar saltou sobre a borda da crista. Chutou um pináculo de rocha, então deslizou por uma encosta de cascalho vítreo. Seu ímpeto parou exatamente em frente às planícies de magma, onde olhou de volta para ela. "Vem?"

Cairn de Crânios de Immersturm | Arte de: Cliff Childs

Por mais divertido que fosse pular entre vitórias-régias de pedra resfriada, Kaya não estava a fim de mergulhar na lava se errasse um salto. Aparentemente, nem Tyvar; assim que ela descera até a borda do lago, ele pressionara as pontas dos dedos na margem enegrecida e fechara os olhos.

"Espere", disse ele. "Quero tentar uma coisa."

Através do magma, a margem de basalto começou a rastejar para fora. A pedra não apenas se expandiu ou dobrou-se sobre si mesma, também — pareceu crescer, gavinhas de rocha entrelaçando-se, tecendo-se em uma ponte. Quando abriu os olhos, Tyvar pareceu tão surpreso quanto ela.

Ela pisou cautelosamente nela. Era sutilmente sulcada, rendilhada em lugares de um jeito que ela não achava que a pedra fosse naturalmente capaz. Era, ela se viu pensando, estranhamente bela.

Primeiro, ele transforma aqueles trolls em pedra, agora isto. O garoto é um transmutador. Mas não era só isso que ele era. De algum modo, Tyvar despertara sua centelha sem perceber — fora até Zendikar, achando apenas que era outro dos reinos de Kaldheim.

Lá em Gnottvold, quando ele abrira aquele Caminho de Presságio, Tyvar deixara claro que iria entrar com ou sem ela. Se ele fosse apenas mais um herói obstinado decidido a alguma morte gloriosa, Kaya o teria deixado ir — afinal, Kaldheim não tinha falta desses, e ela tinha trabalho a fazer. Mas Tyvar era um planeswalker, e um que não sabia o que aquilo realmente significava. De algum modo, parecia um desperdício deixar Tibalt matá-lo antes que ele visse mais do Multiverso. Ela tentou contar um pouco sobre tudo aquilo enquanto caminhavam.

"Estes planos são como os reinos, então? E conectando-os — uma Árvore do Mundo ainda mais vasta?" disse ele.

"Bem, sem os galhos literais. E sem animais gigantes nos espaços entre eles." Ao menos até onde ela sabia. "Mais importante, não são conectados do mesmo jeito. Portais não simplesmente aparecem, e não há feitiços para cruzar entre eles. O único jeito de se mover de um para o outro é ser um de nós."

"Um planeswalker", disse Tyvar, chutando um pedaço de pedra-pomes enegrecida para dentro da lava. "Uma bela oferta. Mas acho que vou passar. Há glória de sobra para mim em Kaldheim, e mais reinos do que eu poderia explorar em uma vida. Além disso, como as pessoas saberiam contar histórias sobre mim se eu deixasse a Árvore do Mundo completamente? Teria que recomeçar a cada vez."

É, pensou Kaya. Essa é a parte complicada. Novos amigos, novos inimigos, novas regras para cada plano. Sempre a estranha, a recém-chegada. Lançada vez após vez nas brigas dos outros, nas guerras dos outros. Era empolgante, no início. Depois, após um tempo, tornava-se exaustivo. Mas, gostasse ou não, não era uma escolha.

Kaya agarrou-o pelo ombro e girou-o. "Você não pode passar, garoto. Não é assim que funciona. Você é um planeswalker, queira ou não, e da próxima vez que você acabar em algum lugar cheio de magia, monstros e pessoas que você não entende, você precisará"—ela buscou as palavras—"precisará de algum tipo de código. Um conjunto de regras." O código de Kaya era simples: não cause dano~a menos que tivessem merecido e alguém estivesse te pagando pelo privilégio. Claro, uma ou duas vezes ela se envolvera em bagunças de que deveria ter ficado de fora; de vez em quando, se estivesse se sentindo caridosa, ela eliminaria um espírito particularmente problemático pro bono. Mas o código era importante — era a única coisa que a seguia de plano em plano, a única coisa com que ela podia contar. Com o que Tyvar seria capaz de contar quando seguisse em frente de Kaldheim um dia? Que glória ou contos heróicos importariam então?

Tyvar puxou o braço, sua irritação clara naquelas feições esculpidas porém de algum modo juvenis. "Tenho um código — o mesmo passado pelos guerreiros de Skemfar por incontáveis gerações. Não preciso das lições de uma estranha sobre tais coisas."

"Só estou tentando te ajudar!" ela disse. Ninguém nunca fizera isso por ela e olha como ela terminara. Mercenária, ladra, assassina. Tibalt não estava em posição de acusá-la de nada — mas ele estivera certo.

"Não sou uma criança, e não preciso da sua ajuda. Como demonstrei, sou mais do que capaz de me virar sozinho." Com isso, ele saiu pisando forte, pelo caminho de rocha preta.

Tolo obstinado. Por que ela ainda estava aqui? Tinha outros trabalhos remunerados em Kaldheim, afinal. Um monstro que ela deveria estar rastreando.

Ela ainda decidia se daria meia-volta quando o primeiro arpão estalou no caminho enegrecido, a centímetros do pé de Tyvar. Era uma arma bruta, ferro bruto anelado com farpas, e pesado o suficiente para cravar direto na rocha. Por um instante, Tyvar pareceu surpreso demais para se mexer — e não notou o segundo vindo gritando em sua direção.

Kaya o alcançou bem a tempo, tornando o tronco dele luz fantasmagórica exatamente quando o arpão de ferro assobiou através dele. Ele tropeçou para trás, plantou uma mão no caminho e tornou seus braços pretos como carvão.

"À nossa direita!" disparou Kaya.

Cortando um caminho em direção a eles, através dos pedaços de magma resfriado, estava — improvavelmente — um navio. Lembrava-a dos dracares que os Buscadores de Presságios pilotavam, mas enquanto aqueles eram esguios e estreitos, feitos para deslizar em canais estreitos e explorar enseadas remotas, este navio era feito para apenas uma coisa. Espinhos anelavam a borda externa, cruéis e estreitos; a proa era um calço de ferro com uma borda de impacto lascada. Em lugar de velas, uma folha de chamas parecia enfunar e pegar qualquer corrente sobrenatural que os estivesse empurrando para mais perto.

"Demônios", disse Tyvar. "Prepare-se."

Ficha de Berserker Demônio | Arte de: Grzegorz Rutkowski

Conforme o navio se aproximava, Kaya conseguia distinguir três figuras a bordo. Em uma, um elmo de ferro adicionava fileiras de chifres aos dois que naturalmente se curvavam de sua testa; uma viseira preta escondia seus olhos. Outra tinha uma mão substituída por uma maça flangeada massiva, as cristas encrostadas de sangue. Perto da proa, em uma plataforma elevada, estava o maior — um bruto de constituição robusta com seu lado direito coberto de placas de ferro pretas. As membranas de suas grandes asas estavam rasgadas e retalhadas de escaramuças passadas. Com sua mão esquerda, ele empunhava outro arpão, inclinando-se para trás para o lançamento.

Este, Tyvar estava preparado para enfrentar. Com o tempo de reação de um dançarino, ele varreu seu armo enegrecido pela trajetória do arpão, derrubando-o no magma. "Precisamos fechar a distância", disse ele.

Kaya fez uma careta. "Na verdade, não acho que esse seja o nosso problema."

O navio estava apenas ganhando velocidade, as velas de fogo alimentadas por rajadas quentes como fornalha. Dois dos demônios, os menores, abriram as asas e lançaram-se ao ar com grandes e ansiosas batidas. Não pretendiam apenas encostar ao lado deles.

"Cuidado!" gritou Kaya.

Ela desviou para um lado do caminho que Tyvar construíra para eles; ele desviou para o outro. Então aquela borda de impacto ao longo da proa esmagou-o, espalhando basalto e brasas no ar.

Kaya rolou para ficar de pé a tempo de ver o que tinha a maça na mão mergulhando do céu em sua direção. Ele desceu a arma em um golpe de mergulho colossal que esmagou uma covinha no bloco vulcânico onde Kaya estivera parada um momento antes.

Antes que ele pudesse puxar o braço de volta, ela pisou firme nas flanges e o faseou parcialmente para dentro da pedra. Ele urrou e tentou agarrá-la, mas ela escapou de seu aperto como fumaça, saltando de volta para o arpão ainda enterrado na rocha.

Não foi difícil para ela arrancá-lo — faseá-lo aqui e ali resolveu o problema — mas o peso dele quase a tombou no lago de magma. Enquanto ela lutava com ambas as mãos para erguer o pesado poste de ferro, o demônio batia as asas furiosamente, forçando e puxando a rocha vulcânica que envolvia seu braço. Com um pouco de concentração, Kaya tornou o arpão inteiramente imaterial, então lançou.

Quando deixou a mão dela, ele foi de sem peso, insubstancial, para subitamente tão pesado e letal quanto antes — e viajando a uma velocidade muito maior. Atravessou de forma limpa a couraça martelada do demônio e saiu pelo outro lado. O demônio debateu-se no lugar por um momento, a maça em seu braço ainda fundida ao chão, antes de colapsar.

Kaya permitiu-se um momento para exalar, então avançou. Plantando um pé na armadura que envolvia as costas do demônio, saltou para o convés do dracar. No outro lado, ela via Tyvar flanqueado. O demônio com o elmo de chifres golpeava-o furiosamente com um par de cutelos curtos alinhados com dentes cruéis e serrilhados, e o brutamontes grande que ela vira com o corpo metade envolto em metal o mantinha encurralado com grandes varridos de um martelo de guerra com espigões. Apenas um golpe daquilo parecia suficiente para tirar a cabeça do elfo — mas até agora, Tyvar conseguira se manter apenas à frente de cada balanço. Seus braços, ela notou, não eram mais do preto áspero do basalto. Agora eram de um alaranjado derretido e brilhante, como se ele os tivesse aquecido em uma forja. Cada vez que ele afastava um golpe de cutelo, brasas espalhavam-se e apagavam-se no ar.

Ele era rápido, forte e habilidoso, não havia dúvida disso. Mas não conseguiria manter aquilo para sempre.

Ela abaixou-se sob a vela de chamas, protegendo o rosto do calor com uma mão, e deu um salto corrido da lateral, aterrissando com um baque nada gracioso nas costas do demônio grande. Ele tinha o dobro da altura dela, provavelmente mais que o dobro do seu peso, e mal inclinou-se para frente com o impacto, mas ela conseguiu garantir um aperto ao redor de seu pescoço.

Com um pensamento, ela envolveu sua mão naquela luz misteriosa e endireitou os dedos em uma lança. Estocada rápida pelo coração. Oscilar fora de fase e extrair. Não será confortável, mas fará o serviço.

Conforme o demônio tateava desajeitadamente ao redor de suas costas tentando alcançá-la, Kaya enterrou sua mão logo à esquerda da coluna, rematerializando por um instante—

E quase desmaiou de dor. Estava queimando dentro do demônio, como enfiar a mão em uma fornalha. Perdeu o aperto no pescoço do demônio e tombou para baixo na rocha preta e áspera por baixo.

O demônio estremeceu, caiu de joelhos — então empurrou-se para ficar de pé usando o cabo daquele martelo de guerra massivo como apoio. Virou-se para ela, pequenos olhos vermelhos ardendo de fúria. De sua boca vertia uma bile preta espessa que borbulhava e fumegava. Ela o ferira, mas não o suficiente.

Sua mão estivera material por apenas uma fração de segundo, e no entanto ela ainda sentia a dor, branca e quente e absoluta. Mas a dor, como tantas coisas, era uma ferramenta. Uma ferramenta que Kaya sabia usar. Foque nela. Use-a. De algum lugar profundo dentro de si, Kaya sentiu um frio gélido brotando.

O demônio ergueu seu martelo, os grandes músculos esforçando-se para levantar a coisa massiva, sangue fervente ainda derramando-se de sua boca. Foi quando Kaya faseou o caminho rochoso sob ele em ar vazio.

As asas do demônio dispararam por reflexo, tentando reequilibrar-se, mantê-lo no ar. Poderia ter funcionado, se não fossem os buracos e rasgos que pontilhavam sua superfície coriácea, ou o grande martelo pendendo acima dele. Ele começou a rugir no momento em que suas pernas afundaram na lava — caiu para frente, deixando o martelo cair, esgaratando por apoio na rocha preta e áspera que ainda compunha a parte do caminho onde Kaya estava. Com um chute certeiro, ela o enviou debatendo-se para trás na rocha derretida e permitiu que o caminho rematerializasse sobre ele.

Através do caminho, a batalha de Tyvar com o demônio restante prosseguia; com apenas um oponente, o elfo estava na ofensiva. A faca de latão afixada à sua braçadeira crescera agora, brilhando alaranjada com o mesmo calor vulcânico que cobria seus braços. Com um golpe seco que deixou distorções de calor pelo ar, ele cortou de lado a lado um dos cutelos do demônio; seu corte seguinte passou pelo pescoço dele. Ela ouviu um som chiado, cheirou algo pior que cabelo queimado, e então a cabeça elmada do demônio quicou uma vez no basalto e caiu na lava enquanto o corpo desabava no caminho de rocha preta. A luta terminara.

A mão de Kaya ainda latejava terrivelmente apesar do feitiço que usara para consertar o pior. Nunca tivera muito jeito para magia de cura. Provavelmente levaria dias antes que tivesse uma amplitude total de movimento nela novamente.

"Aquilo foi incrível!" disse Tyvar.

"É, é", disse Kaya. "Vi o que você—"

"Aquele jarl tinha o dobro do seu tamanho! Você sabe quantos humanos, em todas as sagas que conheço, mataram um demônio? Assumindo que você não conversou com o outro, você derrotou dois! E sem uma arma! Os skalds precisam ouvir sobre isto. Eu mesmo contarei a eles, quando terminarmos!"

"Uh, obrigada", disse Kaya, pega de surpresa. Então o garoto sabe compartilhar a glória. "Se planejamos fazer isso de novo, porém, eu preferiria estar armada."

Algo pareceu ocorrer a Tyvar, então. "Claro. Permita-me."

Ele abaixou-se sobre o martelo massivo que o jarl demônio deixara cair antes de ir para o magma. Kaya ia protestar — um pouco pesado para mim, não faz muito meu estilo — quando Tyvar empurrou os dedos no ferro preto da cabeça do martelo como se fosse lama. De lá, ele puxou dois punhados de metal: um ele deixou cair no caminho onde tilintou secamente contra a rocha.

A outra pepita ele ergueu e cerrou os olhos para ela. "Qualidade terrível. Mas podemos fazer algo a respeito."

Ele pressionou ambas as mãos ao redor dela e apertou, os músculos ao longo de seus braços e ombros ficando tensos. Quando suas palmas se separaram, ele segurava um pequeno oval, áspero em partes como o caroço de uma fruta. Ajoelhou-se e o empurrou para dentro do basalto, o que exigiu certo esforço. Depois, fez o mesmo com a outra pepita. Kaya observou, intrigada, conforme ele escavava terra quebrada, da cor de carvão, em um pequeno monte sobre cada uma. "O que você está fazendo?"

"Tudo tem o potencial de crescer", disse Tyvar, endireitando-se novamente. "Árvores, pessoas — esperamos isso delas. Mas terra e pedra também, dado tempo, e paciência. Ou, na falta disso, um pouco de magia. Eu lhe disse que minhas habilidades funcionam de forma diferente em cada reino por onde passo. Imaginei que em um lugar tão sem vida quanto este, qualquer coisa estaria desesperada para crescer. Até o metal. E eu estava certo", disse ele, sorrindo.

Ela nunca ouvira falar de transmutação como aquela. "E quanto a lá em Gnottvold? O que você fez com aqueles trolls?"

Ele acenou com a mão despreocupadamente. "Fácil. Trolls Torga são criaturas da terra — passam anos seguidos como pouco mais que pedregulhos, acumulando musgo. Já não estão longe da pedra por natureza. Apenas os induzi um pouco mais perto daquela forma."

Então, diante de seus olhos, algo despontou do chão. Um broto — da mesma cor de ferro escuro que o oval fora, mas curvando-se, desenrolando-se. Depois outro, do outro monte. Kaya observou enquanto cresciam mais altos e grossos, enquanto brotavam gavinhas que se teciam em treliças entrelaçadas. Quando o topo dobrou-se sobre o resto, caindo em uma curva em forma de D, ela percebeu o que estava olhando: um machado de mão. Dois, na verdade. Crescidos do chão, como talos de trigo.

Tyvar esticou a mão e os arrancou da rocha — girando ao fazê-lo, como se quebrasse uma raiz. Então os entregou a ela, cabo primeiro. "Você gosta deles rápidos e leves. Está certo?"

Cautelosamente, ela pegou um. A coisa toda era feita do mesmo material — sem ferrugem, sem sangue, sem imperfeições, apenas metal cinza frio. A cabeça do machado, com aqueles padrões de entrelaçamento ornamentados crescidos nela, era de uma cor mais clara que o cabo. De algum modo a empunhadura era mais áspera, de um jeito que parecia que não escorregaria de suas mãos. Ela o girou no ar, tudo rotacionando em torno de um ponto logo abaixo da cabeça do machado, e o pegou novamente. Bem equilibrado, para algo que brotou do chão.

"Obrigada", disse ela, prendendo o machado e seu irmão no cinto.

Tyvar deu um tapa no ombro dela e sorriu. "Tenho certeza de que você fará bom uso deles. Agora, temos um vilão para pegar. Vamos continuar?"

"Na verdade", disse Kaya, olhando para trás para onde o dracar demônio estava encravado no caminho de pedra preta. "Tive uma ideia melhor."

Como embarcações, Kaya preferira muito mais o dracar de Cosima. Além de sua habilidade sobrenatural de levar a pessoa aonde precisasse ir, não havia chance de se empalar ao longo da amurada ou incendiar o próprio cabelo ajustando a retranca. Felizmente, Tyvar parecia ter um pouco mais de experiência em navegação do que ela e, uma vez que o navio demônio ganhou velocidade, esmagou as placas de magma resfriado flutuando na superfície da lava sem sequer um solavanco.

O elfo manejou as velas enquanto ela vigiava da proa. "Ali", disse ela, apontando à frente deles. Erguendo-se acima de uma planície cinza-cinza estava uma montanha vasta e escura. Onde deveria estar o pico havia um cone denteado e aberto que quase roçava as nuvens revoltas no alto. No topo, Kaya conseguia distinguir uma luz estranha. Parecia distorcer o ar ao seu redor como shimmers de calor, ocasionalmente enviando uma fita ondulante de azul ou verde misterioso riscando o céu. Onde ela vira aquela luz antes? Alrund. Em Kaldheim, aquela era a luz dos deuses. Mas era a mesma luz que vira nas franjas do portal que Tibalt abrira.

Tyvar moveu o leme, angulando o navio em direção à montanha. "Aquele é o Pico de Sangue! Nunca achei que de fato chegaria a vê-lo."

"Ótimo. Perfeito. Pico de Sangue." Brevemente, ela considerou se não era tarde demais para dar meia-volta com este barco. Ninguém a estava pagando pela cabeça de Tibalt, afinal.

Mas aquele bastardo chifrudo tem tantos inimigos, eu provavelmente conseguiria encontrar um comprador. Chandra, talvez.

Deixaram o dracar encalhado ao longo da margem de escória do lago de lava. Escalar a montanha, ao menos, não seria a parte difícil. Moldada na rocha havia uma série de escadas ancestrais. Estavam gastas pela idade e eram ligeiramente grandes demais para Kaya ou Tyvar escalarem confortavelmente — esculpidas neste lugar há muitos milênios para os habitantes sanguinários de Immersturm, não para elfos ou humanos — mas eram manejáveis.

No meio do caminho, algo chamou sua atenção. Movimento abaixo deles, no lago de magma. Kaya parou, de costas para um dos degraus imensos e levemente mornos. Através da superfície do lago, entre o clarão ocasional de lava irrompendo, navios de ferro cortavam o preto, cada um encimado por uma cortina tremeluzente de chamas no formato de uma vela. Estava longe demais para ela distinguir quaisquer figuras — daqui, até os navios sombrios pareciam algo que se encontraria em uma loja de brinquedos — mas acima do açoite do vento a esta altura, ela conseguia mal e mal distinguir a batida constante de tambores.

"Pelos Einir", murmurou Tyvar. "Deve haver dezenas."

"Centenas", disse Kaya. "O navio que encontramos deve ter sido parte da vanguarda deles. Batedores."

"E aquele é o exército."

Mas por quê? Tudo isso — uma legião de demônios, uma frota de dracares — apenas para pará-los? Ela sabia que era durona, e Tyvar não era de todo mau para um planeswalker iniciante, mas isso parecia exagero.

A menos que—

A menos que não estivessem aqui por causa deles, afinal.

"Aquela espada", disse Kaya. "Ela abre portais! Rasga buracos no espaço entre os reinos!"

Tyvar olhou sem compreender para ela. Kaya agarrou os ombros dele e o sacudiu. "Garoto, ele vai começar um Doomskar!"

"Correção", veio uma voz acima deles. "Eu já comecei."

Um raio de chama causticante disparou para baixo vindo do zigue-zague de escadas acima deles; Kaya jogou-se para um lado bem a tempo de sentir o calor lamber seu rosto.

Sorrindo para eles da crista acima estava Tibalt. Um redemoinho de chama vermelha e trêmula envolvia uma mão; na outra, ele segurava aquela espada de vidro cintilante e colorido.

Espada dos Reinos | Arte de: Lie Setiawan

"Temos que tirar aquela espada dele", disse Kaya. Outra bola de chama descreveu um arco pelo ar, tornando a rocha derretida onde Tyvar estivera parado um momento antes.

Ela foi por um caminho, e Tyvar foi pelo outro. Entre o caminho sinuoso das escadas, calços de rocha preta projetavam-se da encosta da montanha, evidência de mudanças tectônicas tão selvagens quanto qualquer habitante do reino. Tyvar usou-os como cobertura, mantendo-se baixo, subindo a encosta em saltos e pulos atléticos.

Para Kaya, as coisas não eram tão complicadas. Ela abriu um caminho reto em direção a Tibalt, faseando através de rocha e fogo e o que quer que o diabo lançasse em seu caminho; ágil como Tyvar era, ela rapidamente passou à frente dele.

Cinco metros, depois três. Kaya puxou um machado do cinto e o arremessou em Tibalt. Ele raspou no ombro dele, enviando-o ao chão, e ela sacou o segundo machado. Não o deixe levantar.

Ela empurrou-se sobre a crista e investiu contra Tibalt, focada inteiramente em alcançá-lo, nas mudanças sutis em seu apoio para permitir que ela trouxesse todo o seu peso com o golpe. Viu, tarde demais, a respiração profunda que estava enchendo o peito dele, o estufar daquelas bochechas vermelhas.

A fumaça jorrou da boca dele em uma torrente grande e súbita, cobrindo os degraus superdimensionados em um instante. Varreu Kaya em uma onda, ardendo em seus olhos, queimando sua garganta. Cega, ela balançou de qualquer jeito — mas o machado apenas retinindo contra a rocha.

Kaya puxou seu capuz sobre a boca e nariz com uma mão, manteve o machado nivelado e pronto com a outra, mas tudo o que conseguia ver era a fumaça. Por toda ela, pequenas brasas alaranjadas dançavam com malícia. Parecia agarrar-se a ela, buscar frestas no tecido pelo qual ela respirava, forçar suas pálpebras cerradas. Onde quer que tocasse a pele nua, queimava.

Fez o melhor que pôde para excluir a dor e o desconforto, para focar em sua audição. Onde estava Tibalt? Onde estava Tyvar?

Não é tarde demais para correr.

O pensamento pareceu vir do nada.

Já está feito de qualquer maneira. Tibalt já começou o Doomskar. O que você ainda está fazendo aqui?

Gradualmente, a queimação em sua pele, nos pulmões e olhos, piorou. Uma fadiga estranha assentara-se em seus membros, também — o machado de mão que ela mantinha estendido, outrora tão leve e equilibrado, parecia arrastar seu armo para baixo agora.

Os problemas deste plano não são os seus problemas. Você não deve nada a estas pessoas. Vá em frente — salte pelas Eternidades Cegas. Saia daqui. Salve-se. É no que você é melhor, afinal.

Os pensamentos rolavam por sua mente um após o outro, com Kaya impotente para pará-los, e apesar de si mesma, sentiu o impulso puxando-a, as energias mágicas acumulando-se ao seu redor, preparando-se para levá-la embora.

Seria tão fácil. Não resta nada para você aqui agora exceto dor.

Algo estava errado — além da fumaça ardente, além da exaustão não natural que agora ameaçava arrastar Kaya aos seus joelhos. Havia uma voz em sua cabeça. Uma voz que quase — mas não exatamente — soava como a sua própria.

Houve um movimento na fumaça rodopiante à sua direita; viu a espada primeiro, aquelas cores belas presas no vidro, descrevendo um arco em sua direção. Tibalt, balançando para matar. "Você não pôde simplesmente partir, não é?"

Tentou erguer o machado para bloquear o golpe, mas ele estava tão pesado — seu armo, tão lento. Kaya soube na hora que ele chegaria tarde demais. Por um instinto animal, Kaya apertou os olhos fechados.

Ouviu-se um estalo ressonante. Não exatamente o som de metal mordendo carne. Nenhuma dor, tampouco. Engraçado.

Kaya abriu os olhos. Entre ela e Tibalt estava Tyvar. Ele aparara aquela espada de luz de deus cintilante na adaga fixada em sua braçadeira. Tibalt lutava para empurrar, braços tremendo com o esforço, e não chegava a lugar nenhum. "Quem em todos os infernos é você?"

Com um gesto rápido e praticado, Tyvar derrubou a espada das mãos de Tibalt. "Tyvar Kell. Príncipe dos elfos. Maior herói em Kaldheim."

A névoa estava começando a clarear da cabeça de Kaya agora; ela conseguia sentir onde Tibalt se infiltrara em sua mente, a maneira como ele ocultara sua presença em seus próprios medos e dúvidas. Quanto mais ela ouvia, pior a fadiga e a dor cresciam. Era quase artístico, este tipo de magia — nada parecido com o trabalho desleixado e apressado que ela vira dele até agora.

Mas então por que Tyvar fora imune a ela? Ele investira na fumaça, igual a ela. Por que as dúvidas dele, as inseguranças dele, não estavam sugando lentamente a vida dele? A menos que — a menos que ele não tivesse nenhuma?

Pelos ancestrais, pensou ela. Ele é jovem demais — arrogante demais — burro demais para duvidar de si mesmo. E agradeça a todos os deuses de Kaldheim por isso.

À sua frente, Tibalt recuou aos tropeços, fogo vermelho ondulando em torno de uma mão, mas Tyvar agarrou-o pelo colarinho e o lançou por cima de um ombro, esmagando o planeswalker contra a borda de um degrau de pedra. O fôlego saiu de Tibalt em uma tosse seca e, com ele, foram-se a fumaça e o fogo, diminuindo até o nada ao redor deles. Tyvar pressionou sua lâmina de latão contra o pescoço de Tibalt. "Agora, abominação, você nos dirá o que fez."

Diante disso, Tibalt conseguiu um sorriso. "Vá ver você mesmo", ele grasnou.

Kaya sentiu a energia acumulando-se ao redor dele, a magia um sabor acre e agudo no ar. Tentou gritar, mas então houve o som de fogo pegando em madeira seca, e o fundo dos olhos de Tibalt iluminou-se alaranjado. Como papel queimando, seu corpo dissolveu-se em uma massa de brasas alaranjadas, e Tyvar tropeçou para trás.

"Ele", gaguejou o elfo. "Ele—"

"Transplanou. É", disse Kaya, empurrando-se do chão. "Tyvar — obrigada. Por me ajudar ali."

"Claro", disse ele, recuperando-se. "Mas e se ele voltar?"

"Não consegue. Não por um tempo, ao menos, e se voltar, não será ameaça para nós. Exige muita magia saltar entre planos. Ele precisará de um tempo para recarregar."

"Ah", disse Tyvar. "Então vencemos? Acabou?"

Kaya olhou para o pico da montanha, onde aquelas luzes estranhas continuavam a coruscar e ondular pelo céu nublado de cinzas. "Não. Não acho que acabou."

Em qualquer outro dia, talvez a visão de um vasto poço de sangue repousando no cone da montanha abaixo deles valesse um momento de atenção. Mas do pico do Bloodcrag, eles tinham uma visão clara do rasgo no céu. Estendia-se, de ponta a ponta, de onde estavam até o meio do lago de magma que haviam cruzado; Kaya não sabia se as pesadas nuvens de cinzas tinham bloqueado a visão deles ou se era novo, uma ferida fresca feita durante sua subida inicial. Ao longo das bordas do rasgo, derramando-se e cobrindo o céu, irradiava aquela luz mutante e multicolorida.

"Por todos os reinos", murmurou Tyvar.

Lá dentro, Kaya conseguia ver um quadro mutante e caleidoscópico de paisagens: montanhas denteadas e imponentes, fortalezas de gelo, planícies de grama alta e amarela. Parecia que estava vendo dentro de todo o Multiverso, todos os planos rasgados e abertos em um golpe totalmente errado.

"Alguma chance de você saber como desfazer aquilo? Talvez com a espada?" disse ela. Tinham-na trazido consigo, enfiada no cinto de Tyvar.

Ele balançou a cabeça. "Meus talentos têm seus limites, você sabe."

Apesar de tudo — o cheiro de ferro do sangue, o rasgo no céu — aquilo arrancou um riso de Kaya. Morreu na garganta dela, porém, quando viu as primeiras figuras subindo do lago de fogo bem abaixo deles. A cada batida de suas asas coriáceas, subiam mais alto no ar, carregando espadas e lanças, alabardas e martelos, o peso das armas e armaduras arrastando-os mas não os impedindo de seu progresso constante e terrível. Devia haver milhares deles, todos indo para aquele buraco no céu. O convite deles para pilhar, queimar, destruir não apenas um mundo mas todos os mundos que este plano tinha a oferecer. No centro deles, subindo de um navio com dois vastos mastros de fogo, estava um demônio que tornava todos os outros pequenos. Em uma mão ele arrastava um grande machado de lâmina dupla; parecia estar batendo as asas com fúria maníaca, atropelando outros em sua necessidade de escape. Ela sabia o nome dele, antes mesmo de Tyvar sussurrar, atônito. Ouvira-o falado vezes suficientes durante seu tempo com os Buscadores de Presságios: Varragoth.

Varragoth, Senhor do Céu de Sangue | Arte de: Ian Miller

Kaya virou-se para Tyvar, que ainda encarava o bando profano subindo diante deles. "Tyvar, temos que ir. Este plano está prestes a se despedaçar."

Ele não pareceu ouvi-la. "Precisamos pará-los. Precisamos avisar quem quer que esteja do outro lado!"

"Tyvar", disse ela, gentilmente. "Acabou. Você é um grande guerreiro, não me entenda mal, mas o maior guerreiro da história não conseguiria mudar o que está prestes a acontecer." Já conseguia ver demônios cruzando para dentro do vão, suas grandes batidas de asas levando-os a novas presas. "Nós tentamos. Agora tudo o que podemos fazer é permanecer vivos. Chegar ao próximo plano, tentar fazer melhor—"

Tentou colocar uma mão nas costas dele, mas ele esquivou-se dela. "Então é isso o que o seu tipo faz — desaparecer assim que o mundo inclina para uma direção de que você não gosta. Correr assim que as coisas ficam difíceis. Você e esse Tibalt não são tão diferentes no fim das contas."

As palavras a atingiram mais forte do que ela esperava. Quando ela começou a formular uma resposta — algo sobre não ser tão cabeçudo, algo sobre você vai acabar se matando — Tyvar já abrira um Caminho de Presságio. Virou-se para ela. "Se é isto o que significa ser um planeswalker, não quero parte nisso."

Com isso, ele atravessou o portal.

A energia que Kaya estivera reunindo para transplanar ainda pairava no ar ao redor dela, uma pressão sem nome carecendo de uma válvula. Ela ainda poderia ir. Ela deveria ainda ir. Era a escolha inteligente. Era o seu código.

Mas ela não pôde evitar pensar naquelas vozes em sua cabeça. Como as estivera ouvindo, de um jeito ou de outro, desde muito antes de conhecer Tibalt ou Tyvar.

Kaya praguejou, respirou fundo e entrou atrás dele.

29/01/2021 | Por Miguel Lopez

Direção. Propósito. Honra. Glória.

Ranar abriu os olhos e encontrou-se em um lugar inglório. O velho guerreiro jazia de costas, embora não estivesse dormindo. Ele levantou-se. Ao seu redor estendia-se uma tundra esparsa e infinita, um verde pálido desbotando para o preto conforme a terra gélida dava lugar ao céu sem luz. Ele estava sozinho. Inclinou-se sobre seu machado, tirando um momento. Percebeu então que seu peito estava eriçado com flechas escuras emplumadas com penas gordurosas.

Ah, Ranar pensou. Estou morto e fui levado pelas Valquírias.

Uma memória, desvanecendo: a última das crianças que ele treinara, atravessando uma fenda entre os reinos exatamente quando ela se fechava. O vulto cinza dos saqueadores, seus chifres pretos e fedorentos, deixando um rastro de fumaça conforme investiam. Neve em um pátio de pedra frio, o choque e o raspar de botas com tachas, um baque úmido de seu machado em carne de demônio, e o sangue vil e fumegante. Uma pilha de mortos demônios, e o dever de Ranar cumprido.

Um nome, dado a ele pelas Valquírias. Mas qual era?

Ranar arrancou as flechas de seu peito, observando os buracos deixados para trás em sua couraça. Nada saía deles exceto um tênue fiapo verde, e não havia dor. Após um momento, até o tênue verde parou conforme os buracos se fechavam. Sua armadura era parte de ele agora. Sem horror, ele percebeu que estava em um pós-vida inesperado: Istfell.

Istfell era o julgamento que as Valquírias davam àqueles que viveram vidas mundanas. Ranar pensara que sua saga solitária era gloriosa o suficiente para garantir entrada em Starnheim, mas parece que as Valquírias discordavam. Não havia amargura na revelação de Ranar: sua armadura e arma ainda estavam com ele. Se ele não provara seu valor em vida, então provaria seu valor em Istfell.

Muito a fazer ainda — mas por onde começar?

Ranar ergueu seu machado. Com as duas mãos, lançou-o ao ar. Deu um passo para o lado conforme ele caía, a lâmina pousando com um baque suave na areia pálida. O cabo apontava o caminho. Ranar arrancou o machado, pô-lo ao ombro e começou a caminhar.

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Ranar caminhou por uma era ou por um piscar de olhos. Não sentia fome nem sede. A fadiga perdurava, mas aqui em Istfell, era um pequeno peso carregado gentilmente. O tempo neste deserto viridescente esvaía-se e aquietava-se. No mundo dos vivos, a passagem do tempo era o progresso do sol pelo céu ou subindo da noite. Quando nenhum sol subia ou raspava, então nenhum tempo passava de todo.

Ranar pôs uma bota na frente da outra e espreitou através de dunas áridas, foscas e frias. Não respirava — pois não parecia que precisasse — mas certamente seu hálito teria fumegado no ar morto. Sozinho com o triturar de suas botas na areia gélida, tentou recordar os nomes e rostos de sua vida mas não conseguiu. Olhos fixos para frente no horizonte esmeralda murcho, ele espreitava. Sentia um calafrio do espírito, embora não fosse congelar. Podia sentir a fadiga assentando-se sobre sua alma, mas não era arruinadora. Podia sentir o peso de sua armadura e machado, mas não era opressivo. Assim como Istfell continha as almas dos vivos, também continha algum lembrete de suas tribulações. Dor, exaustão, sede, dor — fardos que os vivos carregavam, mas espelhados por seus primos. Se este reino tinha espaço para o ruim, então certamente tinha espaço para o bom; será que um espírito em Istfell não se importaria mais com seus companheiros se soubesse que outros sentiam o frio, também? Haveria espaço em Starnheim para solidariedade?

Ranar nunca fora um estudioso ou homem sábio, mas em vida, sabia o suficiente para saber que Istfell era um reino dos mortos inumeráveis. Os mortos comuns. Vague longe o suficiente, e ele os encontraria. Com eles, certamente encontraria propósito nesta planície humilde. Com eles, veria que arco sua vida-pós-vida tomaria quando refratada pelo prisma do significado.

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Ao longo de sua busca, Ranar maravilhava-se com a luz de Starnheim bem acima. Embora diluída pela treliça das raízes da Árvore do Mundo, sua glória era evidente. Uma estrela do norte que abrangia o reino.

Um mistério, bem à frente: os sóis verdes gêmeos de Istfell, baixos no horizonte. Foi apenas quando se moveram que Ranar percebeu que não eram sóis, mas os olhos refletores de um titã espreitando no Cosmos. O titã piscou e espreguiçou-se, e na luz boreal de Istfell, Ranar pôde ver a silhueta de um lobo, tão grande quanto um mundo. O lobo estava sobre uma floresta de pernas abaixo das quais uma luz fraca filtrava. O lobo no fim do mundo não se movia; apenas observava.

Ranar não sentiu medo, pois já estava morto e não achava que poderia ser morto novamente. Ergueu seu machado em uma guarda pronta. Talvez fosse isto: seu teste e desafio, lutar contra o lobo no fim do mundo. Ranar decidiu que o enfrentaria com coragem, e se morresse neste reino, certamente seria recebido por Valquírias ansiosas por conduzi-lo àquele salão dourado de Starnheim acima. Macho na mão, sua lâmina pesada e afiada, ele sabia que este era o seu momento de glória.

O lobo no fim do mundo exalou, e uma tempestade de gelo que engolia reinos irrompeu ao longo do horizonte distante. Naquele momento ele soube; lutar contra uma coisa daquele tamanho era um desafio para deuses — muitos deuses, não apenas um. Ranar pode ter sido virtuoso (certamente fora virtuoso, ao menos?) em vida, mas não era divino. Seria valoroso para o tolo erguer um machado e entrar na mata, golpeando árvores e pensando serem ogros? Não. A estupidez não convenceria as Valquírias a conduzi-lo a Starnheim.

Então, em vez de investir, Ranar ergueu seu machado acima da cabeça em saudação silenciosa e seguiu penosamente em direção ao seu próprio destino. O lobo no fim do mundo observou Ranar por um longo, longo tempo, então virou-se e afastou-se para dentro do Cosmos.

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A tundra deu lugar a uma vasta bacia de argila rachada cruzada por nodosidades eriçadas de vegetação morta-viva e pedras errantes. Aqui a geada verde pálida desbotava para o branco osso. Embora clareasse a terra, a argila e pedras branqueadas apenas serviam para aprofundar a escuridão do céu.

Ranar não estava sozinho aqui. Através da bacia, até onde Ranar conseguia ver, erguiam-se cairns de pedra solitários. O menor era facilmente o dobro da altura de Ranar, e todos pareciam espaçados de seu vizinho por uma distância igual à sua altura. O efeito era desorientador, criando uma regularidade entrópica que dava à paisagem um senso de sistema; caos ordenado, um jardim de estátuas irrompendo da natureza bruta.

Um vento gemia entre os cairns, gelo e fina poeira de argila assobiando alto. Ranar imaginou estandartes rasgados esvoaçando naquele vento. Imaginou a luz dançando na borda de casas em chamas que serviam como fogueiras de vigia. Percebeu que não imaginava essas coisas, mas as lembrava. O vento, os cairns, as casas queimando — era uma memória da vila sobre a qual ele uma vez manteve sua própria vigia, tão extirpada de seu reino quanto este jardim de estátuas era de Istfell.

Ranar marchou mais fundo no jardim de estátuas, recordando suas patrulhas através da lasca de taiga que o Caminho de Presságio engoliu. Ranar passava por cairns e via em vez disso pinheiros imponentes, pesados de neve, morrendo conforme suas raízes foram cortadas quando os reinos colidiram. Embora caminhasse sozinho em Istfell agora, outrora caminhara à frente de uma pequena coluna de crianças, os únicos refugiados daquela vila transportada. Resistente como qualquer árvore que envelheceu dobrada ao vento mas não caiu, Ranar manteve a linha que traçara. Criou aqueles poucos sobreviventes de crianças a jovens formidáveis e encaminhou-os para a segurança. Entre os cairns, Ranar vagava em um eco de sua morte no reino dos vivos — as crianças, a vila, a luz ao redor deles e as chamas — e se perdeu nisso.

Uma mão agarrou seu tornozelo. Ranar não atacou — se a mão tivesse a intenção de derrubá-lo, teria feito isso em vez de agarrá-lo — mas ergueu seu machado mesmo assim. Um espírito murcho, envolto em trapos, pouco mais que pele de pergaminho esticada sobre ossos, sentava-se de pernas cruzadas ao lado dele. Ele levou um dedo aos lábios e chiou.

Silêncio.

Ranar obedeceu. O espírito apontou para frente.

Perigo.

Ranar seguiu o gesto para ver que os cairns à frente tinham sido reduzidos, os lugares onde um dia estiveram afundados em depressões. Poucos restavam na linha final, onde milhares de espíritos trabalhavam juntos para derrubá-los. Este trabalho espalhava-se por todo o horizonte visível: espíritos avançavam através de uma planície vazia, derrubando cairns, jogando as pedras constituintes em poços abertos cavados por outros espíritos. As características deste mundo, lentamente comidas.

Eles nunca pararão. Eu fugi deles por uma eternidade.

Ranar observou o lento progresso dos comedores de cairns.

Eu realizei para EGON este tributo, e minha recompensa foi o ódio destas almas mais perdidas, animadas para derrubar minha grande obra. Ele fará o mesmo com você.

Ranar empunhou seu machado. Ele continuaria. Atrás dele, o construtor de tributos persistia em seu sussurro, resmungando para ninguém.

Eu não fui grande o suficiente? Não moldei a terra em veneração à sua glória? Onde está minha recompensa EGON?

Ranar contornou os poços profundos e os comedores de cairns, alguns tão finos nesta planície que eram quase invisíveis. Um ele só viu quando parou para examinar uma rocha flutuante — um comedor de cairns, percebeu, invisível aos seus olhos e apenas forte o suficiente para erguer a rocha a míseros dois centímetros de sua pilha. Seria este o seu destino, se permanecesse neste reino por tempo demais? A força do seu próprio ser drenada dele, a luz que ele emitia esmaecida para pouco mais que dispersão de fundo. Menos que uma sombra, mas ainda não desaparecido.

Eu construiria para todos vocês uma torre para Starnheim se apenas obedecessem. Vocês caminhariam atrás de mim em uma escadaria dourada para a glória.

Ranar olhou mais de perto: os comedores de cairns todos usavam os restos quebrados de grilhões, alguns até arrastando correntes atrás de si. Trabalhavam juntos para derrubar estes monumentos de pedra. Ranar percebeu que não haviam sido enviados para arruinar uma grande obra de um grande artista: estavam derrubando o monumento ganancioso de alguém que pensava que apenas ele merecia recompensa.

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Ranar deparou-se com um rio verde. Ao aproximar-se, viu que não era um rio, mas uma marcha sinuosa de espíritos conformando-se a alguns contornos desconhecidos desta terra apática. Sua passagem fazia pouco som — o silêncio da chuva na pedra, ou névoa conforme desliza sobre uma costa imóvel e rochosa. A maioria dos espíritos eram borrões indistintos, semelhantes a névoa e discerníveis apenas como espíritos por outros de seu número menos avançados no processo de decadência fantasmagórica. Ranar conseguia ver membros e cabeças, silhuetas sentadas em montarias fantasmagóricas — elas mesmas em miríades de estados de serem apagadas — e outras em relevo quase nítido, seus rostos retorcidos em carrancas, diferentes de seus corpos vivos apenas por serem representadas translúcidas em verde suave em vez de carne viva.

Ranar não se juntou ao rio. Caminhou contra sua corrente e ao lado dele; haveria um ponto em que poderia vau. Não achava sábio atravessar, pois lembrava como os comedores de cairns podiam mover pedra; se aqueles espíritos trabalhando juntos podiam mover pedra, então certamente este rio de espíritos movendo-se como um só poderia movê-lo.

Ranar seguiu o rio marchante em torno de uma curva ampla e viu em suas margens um par de figuras que se destacavam. Usavam armaduras imundas, couros em camadas e peles curadas e emaranhadas. Seguravam longas lanças de vidro preto. Cada um permanecia com um escudo preso às costas, adornado com pequenas guirlandas de pequenos ossos e dentes. Estes não eram espíritos, mas demônios de algum tipo. Os dois notaram a aproximação de Ranar e viraram-se para enfrentá-lo, revelando rostos retorcidos na temível aproximação de rostos sob elmos de guerra, chifres e placas, com olhos profundos em vermelho fervente.

PARE.

Ranar parou.

POR QUE VOCÊ ESTÁ AQUI?

Os dois seres caminharam decididamente em sua direção. Ranar permaneceu ereto diante dos dois, seu machado em repouso, enquanto eles o avaliavam.

ARMADURA E MACHADO.

UM DE NÓS?

NÃO PODE SER. ELE NÃO CAMINHARIA SOZINHO.

SIM. ELE NÃO É PARA O ALIMENTO.

Eles afastaram suas lanças para os lados.

CONTINUE, ESPÍRITO.

Ranar não continuou. Olhou para o rio de espíritos marchantes. Conseguia ver alguns carregando ovelhas nas costas. Crianças envoltas em seus braços. Mochilas carregadas com bens não para vender, mas para construir uma vida. O medo em seus olhos não podia ser escondido. O medo e a fadiga, olhares furtivos em direção às armas viciosas de vidro e armaduras de couro de ébano. Recém-chegados ao reino — mas para onde estavam sendo conduzidos? E o que aquele espírito dissera — não para o alimento?

IGNORE-OS.

O par trouxe suas lanças de volta para a posição.

NÓS TOMAMOS O QUE NOS É DEVIDO.

SIGA EM FRENTE, ESPÍRITO.

NOSSA TRANSAÇÃO ESTÁ APROVADA.

Ranar não seguiu em frente. Os demônios olharam entre si. Ranar achou ter visto um sorriso se formar em um rosto, mas reconhecer um rosto que conseguisse sorrir debaixo de toda aquela placa quitinosa era quase impossível. A crueldade e a alegria emanando do demônio, porém, lavaram sobre Ranar em ondas coalhadas. Estes dois fediam a poder concedido pela posse, a respeito dado a armas viciosas e ao que podiam fazer a um corpo.

SIGA EM FRENTE.

MANTENHA SUA ARMA BAIXA.

SIGA EM FRENTE.

Os demônios avançaram em sua direção, lanças niveladas. Ranar não sabia se poderia morrer novamente no pós-vida, mas este lugar era Istfell e o reino dos inglórios; se houvesse algum pós-vida onde se pudesse morrer e encontrar-se pior do que antes, seria aqui. Ranar arrastou um pé para trás, mudando seu peso.

Um demônio investiu, a ponta da lança avançando contra Ranar. O outro disparou para o lado, a ponta da lança traçando uma ferida de brasa pelo ar, posicionado para golpear.

Ranar era um bom guerreiro. Veloz em vida, mesmo em sua idade avançada. Um único golpe era tudo o que precisava: um movimento fluindo de três passos.

Primeiro, deu um passo ao redor da lança investida, enterrando a pesada extremidade revestida de metal do cabo do machado no elmo sem rosto do demônio atacante. O impacto foi muito menor do que esperava — o peso de arrastar um galho através de água fria.

Então, conforme o primeiro demônio caía, Ranar virou-se, machado erguido em uma guarda de duas mãos; ele rastreara o outro demônio conforme este disparara para o seu lado para esfaqueá-lo pelo flanco. Aparou a lança do segundo com o cabo do machado, completando este segundo movimento.

Finalmente, usando o ímpeto de sua guarda, girou, trazendo o machado por cima e para cima no lado do demônio, pegando a besta logo abaixo do braço guia. O machado de Ranar prendeu no demônio por um momento, então atravessou. A força do golpe de Ranar arremessou o demônio para longe da coluna, onde ele aterrissou com um baque pesado no chão, morto.

Ranar empunhou o machado mais perto da lâmina e limpou a borda dela. Nenhum outro o abordou ou investiu da coluna lenta e arrastada de almas. Ele estava, mas por um rio de humanidade minguante, sozinho mais uma vez. Ranar tencionava mergulhar, vau e continuar, mas quando se aproximou, os marchantes mais próximos pararam, e um começou a empurrá-lo para longe.

Você cumpriu seu dever para conosco.

Vá. Não nos perturbe mais. Estamos livres agora.

Desejamos apenas paz. Estamos contentes em vagar.

Paz não é para você. Ainda não.

Ranar recuou do rio de pessoas, e a totalidade dele começou a derivar para a névoa, o que quer que formas sólidas ele conseguisse discernir dissolvendo-se em névoa e neblina. Em algum tempo, o rio se fora.

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Os portões de Istfell permaneciam abertos, um vão estrelado na muralha de cortina que escondia o horizonte e o Cosmos além. Ranar não sentiu frio conforme caminhava pesadamente até os portões, cruzando sob seu arco imponente para permanecer no meio de um largo bulevar de mármore: a ponte de Istfell, larga como uma praça da cidade e vazia de tudo exceto dedos de geada. A grande travessia estendia-se por mais uns trinta metros antes de terminar abruptamente; lá, encontrava a escuridão opalescente do Cosmos, e profundezas que Ranar não arriscaria explorar. Seguira seu machado e não podia ir mais longe. Então, Ranar esperou.

Um rio corria por baixo da ponte. Ranar conseguia vê-lo fluindo paralelo à grande muralha, curvando-se para cada lado, mais uma característica marcando a borda do reino. O rio e a muralha — será que Istfell conspirava para manter os espíritos dentro, ou para afastar invasores? Apesar dos portais escancarados, Ranar não via nenhum fluxo constante de espíritos conduzidos para Istfell do Cosmos pelas Valquírias. Não havia procissão dos recém-mortos cruzando para dentro do reino humilde e vazio. Sozinho, machado em punho, tornara-se ele também uma marcação da borda de Istfell? Um sentinela contra a invasão, ou um carcereiro contra a fuga?

Alguns séculos se passaram e Ranar veio a entender o que há muito soubera: Istfell era onde ele deveria residir. Nenhum salão alardeado de Starnheim, nenhuma mesa apinhada com apenas o espaço necessário para Ranar e seus bantos. Nenhum rio de hidromel, concedendo bendita ignorância da tristeza. Uma década após esta revelação, Ranar agachou-se, retirou uma luva e tocou o mármore frio da ponte. Sentiria ele frio em Starnheim? Pensaria sequer em tentar?

A escuridão na borda do reino estremeceu, e um jovem entrou em Istfell. Depositado sobre a ponte, vestia roupas finas porém sujas, uma espada presa à cintura, e uma carranca. Caminhava com um porte nobre e, conforme se aproximava, Ranar pôde ver que usava um diadema fino, porém simples. Algum pequeno nobre, ou um segundo filho de um jarl rico, com pouco mais de uma década de vida. Curioso.

"Você é Ranar de Istfell?" O jovem falou. Ele parecia vivo, corado com a cor total dos vivos.

Ranar assentiu.

"Bom", disse ele. Caiu de joelhos, sacou sua espada e a estendeu para Ranar, cabo primeiro. "Meu nome é Bjorn de Beskir, e eu não deveria estar aqui", o jovem disse. "Disseram-me para encontrar Ranar de Istfell, que me ajudaria em minha busca. Peço seu machado e sua força para me ajudar neste empreendimento. Proteja-me, e eu farei com que seja recompensado."

Isto. Ranar levantou-se até sua altura total, inconsciente de que se curvara em uma postura desleixada. Isto era algo novo.

"'Bjorn de Beskir'", disse Ranar. Pausou. Interessante que ele conseguia falar — parecia que Bjorn trouxera algo de vida para Istfell. "Você é jovem para este reino."

"Sou, senhor."

"Como soube pedir por mim?"

"Pelos contos que meu pai me contava", disse Bjorn. "Você é o guardião de Istfell, um grande guerreiro de quem se diz ser honrado e firme — um guia para os perdidos. Meu povo fala da sua legenda — o Caminho de Presságio e as crianças que você protegeu." Bjorn olhou para Ranar, guardando a espada na bainha. "Meu povo diz que você deveria ter recebido entrada em Starnheim."

Ranar riu. "Já chega disso então, garoto. Levante-se."

Bjorn franziu a testa, confuso por um momento antes de a percepção se assentar. "Você é um herói", disse Bjorn, levantando-se. Recompôs-se, contendo seu entusiasmo. "Aceitará esta busca, Ranar de Istfell, e me ajudará a alcançar Starnheim?"

Ranar de Istfell, que podia falar mais uma vez, sentiu um calafrio percorrê-lo. A princípio, não registrou a novidade da sensação, mas um batimento cardíaco depois percebeu — ele conseguia sentir novamente. Seu coração batia novamente. A vida, distante, no entanto começara a preenchê-lo como o líquido preenche um vaso.

"Aceitarei", disse Ranar.

"Bom", disse Bjorn. Seu comportamento mudou, mas Ranar não percebeu — conforme a vida zumbia através dele novamente, nublava sua percepção. Bjorn passou por Ranar e partiu para o interior. Ranar virou-se para ver o jovem cruzar sob os Portões, então seguiu, machado em punho.

Bjorn liderava por cem metros. Era a única característica na tundra ondulante, e assim Ranar estava contente com a distância. Ele parecia incansável, caminhando à frente pelas dunas ondulantes com uma mão no punho da espada e a outra balançando ao lado. Caminhava com um propósito, seguro em seu passo se não no conhecimento de para onde estava destinado. Melhor para Ranar perguntar do que imaginar; mesmo em Istfell, andarilhos pareciam sempre ter propósito.

"Bjorn", Ranar chamou.

Bjorn não respondeu.

"Bjorn, para onde você está indo?"

"Para Starnheim", Bjorn gritou. "Você vem comigo ou não?"

Ranar aumentou o passo. É claro que iria. Istfell em suas andanças provara-se uma tapeçaria muito mais rica do que ele inicialmente pensara e, embora tivesse passado a aceitá-lo como seu reino, os deuses frequentemente mudavam de ideia. Nunca ignore um sinal, especialmente se ele exigia que você o seguisse.

"Como você pretende alcançar Starnheim?" Ranar perguntou, emparelhando-se com Bjorn. "Certamente não caminhando?"

"Com esta espada e sua ajuda", disse Bjorn. "Já existe uma ferida no Cosmos; eu a encontrarei e abrirei minha própria porta."

"Nós dois nunca conseguiríamos realizar tal feito. Não pretendo ser indelicado, mas temo que isto seja uma jornada de tolos", disse Ranar.

"Não", Bjorn latiu. Virou-se para Ranar e empurrou-o para trás. "Sou Bjorn de Beskir, que deveria estar vivo, e não definharei em um ermo sereno." Bjorn bateu o pé. "Vou esculpir meu caminho para Starnheim, e você vai me ajudar."

"Como?" Ranar ficou surpreso com a mudança súbita de tom. O jovem esperançoso na ponte tornara-se cruel.

"Meus augures me disseram que meu bisavô veio para cá", disse Bjorn. "Para o centro de Istfell sob as raízes da Árvore do Mundo. Lá, ele lançou os alicerces de uma torre. Então seu filho construiu sobre ela, assim como o filho dele, tudo para mim. Agora eu a escalarei, e com esta espada abrirei uma passagem para Starnheim." Bjorn disse. Apontou um dedo para Ranar. "Você é Ranar de Istfell. Em vida, você guardou os filhos de um de meus vassalos. Agora, você será meu primeiro machado, que liderará o caminho."

Ranar considerou isso, pesou o que sabia de Istfell, Starnheim e seus próprios desejos. Embora se sentisse novo neste reino, o tempo era um rio com muitos redemoinhos no pós-vida; talvez este reino não fosse onde ele estava destinado a residir. Talvez — arrogante como este jovem nobre parecesse ser — esta busca fosse o seu propósito. Um foco para seu dever além da andança estoica. Ranar assentiu concordando.

"Bom", disse Bjorn. "Agora, siga-me. Temos reis para matar."

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Ranar esculpiu o que em vida teria sido um caminho encharcado de sangue através da fortaleza de um rei mesquinho de Istfell, e Bjorn o seguiu. O jovem tinha mais do que apenas treinamento — era um guerreiro consumado, sua espada rápida, letal e precisa. A Guarda Real, armaduras cintilantes de aurora e formas distintas dos espíritos base do reino, foram reduzidos a vísceras viridentes. Tinham sido poderosos, mas o velho Ranar e o jovem Bjorn estavam revigorados, lutando pela entrada em vez de defender o que era mantido ciosamente.

Bjorn pediu para desferir o golpe de misericórdia no rei. Caminhou até o trono onde o nobre magro e ferido desabara, implorando com voz sem fôlego por misericórdia. Bjorn não lhe mostrou nenhuma. Enterrou sua adaga no pescoço do espírito e o alavancou para o chão. A coroa do rei quicou e rolou até parar aos pés de Ranar.

"Não toque nela", disse Bjorn. "Essa é minha chave para Starnheim."

"E quanto a mim?" perguntou Ranar.

"Encontraremos outra para você", Bjorn disse. Pegou a coroa caída. "Antes de eu vir para cá, meus augures leram os órgãos de um urso, um corvo e um alce." Ele ergueu a coroa para Ranar, mostrando-lhe o intrincado trabalho de joias, como o diadema fora tecido de faixas de ferro trançadas, trabalhadas na forma de galhadas de alce. "Pegamos a do corvo a seguir, e por último a do urso, e então Starnheim se abrirá para mim", Bjorn disse, sorrindo, com os olhos brilhantes.

Ranar sentia o calor da vida retornando a ele. A fome pulsante de uma ganância que bombeava quente através dele. Ele poderia tomar e tomar e esgaratar e escalar, e Starnheim seria dele. A fome de Ranar falava: Bjorn era sua chave, o garoto apenas pensava estar no comando — então tome.

Uma dor de cabeça súbita e lancinante fez Ranar encolher-se como se tivesse levado um tapa. Ranar sacudiu a cabeça, a dor súbita e avassaladora, e então sumira. Recuou para longe do jovem.

"Bom", disse Bjorn. "Lembre-se disso. Esta é a minha saga." Ele enfiou a coroa do Rei Alce em seu cinto.

"Como encontraremos o Rei Corvo?" Ranar perguntou a Bjorn.

"Os mortos apontarão o caminho", disse ele. Bjorn empunhou uma lança curta de um dos Guardas Reais caídos, examinou-a e então a lançou entre os espíritos caídos. Ela aterrissou com um estrépito e, quando parou, agiu como o foco em torno do qual o padrão oculto da sala se revelou. A Guarda Real abatida, indistinta, quebrada e espalhada, no entanto conformava-se a uma cartografia sombria. Decepados ou inteiros, todos apontavam na mesma direção, em direção à mesma parede dos aposentos do rei e além.

"Istfell não carece de direção", disse Bjorn. "Ou recompensa." O jovem apontou para as próprias mãos de Ranar.

Ranar olhou para baixo. Suas mãos, outrora o verde desbotado de carne espiritual, estavam inteiras. Estendeu uma diante do rosto, maravilhado.

"Você e eu devemos estar vivos para entrar em Starnheim", disse Bjorn. "Preciso abater três reis de mito; você, meu guardião, precisa apenas obedecer."

Ranar apertou o cabo de seu machado, sentiu os enrolamentos de couro bem gastos, ouviu o estalar de seu aperto. Já a presença do jovem herói abençoara Ranar com vida, e cada morte o ruborizara ainda mais com o sangue vermelho dos vivos. A confiança no jovem o recompensara — que prêmio esperava pela perseverança?

Deixaram a fortaleza oca do falecido Rei Alce e dirigiram-se para as névoas do interior profundo de Istfell. Nem Ranar nem Bjorn notaram a perturbação no Cosmos muito acima deles. O lobo no fim do mundo retornara de sua andança. Silencioso, observava os dois com intensa curiosidade, seus olhos pendendo mais uma vez como sóis gêmeos sobre Istfell.

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No topo do poleiro do Rei Corvo, Ranar e Bjorn batalharam contra a Guarda de Penas do Rei Corvo. O vento açoitava o castelo arejado, sacudindo os mantos de penas em camadas que davam nome à Guarda de Penas. Em pares, mergulhavam contra Ranar e Bjorn, empunhando suas espadas viciosas de lâmina curva com fúria de rapina. De costas um para o outro, Ranar e Bjorn lutaram contra o bando mais fiel do Rei Corvo, machado e lâmina reta chocando-se e cantando no salão iluminado por tochas do poleiro. Tenaz e robusto, Ranar suportou as lâminas negras da Guarda de Penas, superando a agilidade deles com força para abatê-los com seu machado pesado.

O último da Guarda de Penas de manto negro morreu com um guincho. Suas armaduras e mantos, escuros como o céu acima de Istfell quando a luz de Starnheim não conseguia romper, ficaram ainda mais escuros. Nos momentos finais do combate, o próprio Rei Corvo conseguiu desferir um golpe em Ranar, abrindo um talho em sua armadura com uma garra viciosa antes de Ranar desferir um golpe mortal com seu machado, enviando o Rei Corvo ao chão. Ranar ergueu seu machado, sede de sangue correndo através dele, e—

"Pare", comandou Bjorn.

Ranar parou. Cada fantasma de cada músculo que um dia compusera seu corpo — e os reanimados que agora o compunham — zumbia com poder, com o desejo uivante de descer seu machado cego de guerra sobre o pescoço exposto do Rei Corvo. Mas ele parou. A voz de Bjorn o acorrentou.

"O rei é meu." Bjorn não tinha sequer uma gota de sangue sobre si, embora tivesse estado no grosso da luta com sua espada. "Vá e barre as portas antes que o restante de seus guerreiros chegue."

Ranar fez o que lhe foi ordenado, mantendo a porta dos aposentos do rei fechada contra o clamor de seus súditos do lado de fora. Bjorn envolveu-se em um dos mantos caídos da Guarda de Penas e aproximou-se do ferido Rei Corvo.

"Jogue fora sua máscara e coroa. Fuja com seu povo, e eu o pouparei", disse Bjorn. "Estou em uma busca para me libertar deste reino para o qual fui lançado, e você está no meu caminho."

"Criança", o Rei Corvo cuspiu, a voz um grasnido por trás de seu elmo de aço negro em forma de bico. "Ninguém que se encontra em Istfell acha que foi julgado corretamente. É como nos reinos dos vivos — você deve encontrar uma maneira de viver apesar do seu destino."

Bjorn enterrou sua espada na barriga do Rei Corvo. O rei não resistiu. Agarrou a lâmina e dobrou-se, seu elmo e coroa caindo no chão. Por baixo da armadura escura, era um espírito verde e magro, e não gritou. Seu rosto era uma máscara de resolução estoica. Fora um rei nesta terra dos mortos inglórios — o que Bjorn sabia que ele não sabia?

"Não", Bjorn rosnou. "Rejeito o meu destino." Arrancou sua espada. O rei escorregou para o chão. O clamor lá fora cessou. A cidade caiu em silêncio.

Ranar recuou das portas, machado em punho. Elas abriram-se com um gemido, empurradas pelo vento suave nas alturas arejadas do castelo do Rei Corvo. Os espíritos que estavam lá haviam sumido. Cauteloso, Ranar saiu do poleiro e caminhou até a borda vertiginosa da fortaleza no topo do penhasco. A cidade abaixo estava vazia.

"Para onde foram?" perguntou Ranar.

Envolto em um dos mantos escuros da Guarda de Penas, Bjorn era uma criança usando as roupas de seus anciãos. Puxou o elmo do Rei Corvo e não respondeu.

"Bjorn", disse Ranar, elevando a voz. "O que aconteceu com as pessoas? Para onde foram?"

"Para outro lugar", disse Bjorn. "Como nós devemos ir."

Ranar sentiu um nó profundo nas entranhas conforme a sede de sangue desaparecia. A preocupação. Seria assim que uma grande busca deveria parecer? Como se estivesse fazendo algo errado?

"O Rei Urso", Ranar perguntou. "Ele é o seu pai."

"Isso é uma pergunta ou uma acusação?" disse Bjorn, com a voz baixa.

"Uma pergunta", disse Ranar. "Você conhecia este Rei Corvo? O Alce? Eram seus parentes também?"

"Não mais do que conhecia o Urso em vida", disse Bjorn.

"Fratricídio não pode ser valoroso", disse Ranar.

"A falta de valor não torna um feito menos grandioso", disse Bjorn. "A astúcia é sua própria virtude, assim como a arrogância."

Ranar olhou para o jovem com horror. "Como você veio para Istfell?"

Bjorn não respondeu.

"Você fez isto de propósito, não foi?" disse Ranar. "Seus augures, suas profecias — você veio para cá pela própria mão."

"Eu faço o meu próprio destino", disse Bjorn. Mostrou sua lâmina para Ranar. "Acha que uma espada que poderia cortar uma porta para Starnheim não poderia facilmente rasgar uma passagem para Istfell?" Ele riu. "Venha. Esta conversa nos levará a loops que não me interesso em percorrer."

O lobo no fim do mundo observou-os partir, curioso. Conforme Ranar e Bjorn caminhavam mais fundo em Istfell, o lobo partiu para o Cosmos para contar a certos seres certas coisas, e a aproximação de certos eventos por vir.

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Bjorn e Ranar chegaram ao centro de Istfell, tendo sido guiados através da névoa pela visão infalível concedida a Bjorn pelo elmo do Rei Corvo. Através de um campo de pedras tombadas dividido por uma estrada reta como navalha, o vulto sombrio de uma grande torre assomava na neblina. Suas alturas perdiam-se na névoa espessa, e que características definiam sua face de pedra eram apenas discerníveis pelas sombras mais profundas que projetavam da luz lá no alto. Bjorn liderou os dois pela estrada larga e reta, os olhos do elmo do Rei Corvo brilhando um amarelo pálido na escuridão. Megalitos ladeavam a estrada. Entre as pedras erguidas e a névoa que derivava sobre e entre elas, era como se caminhassem por um túnel.

Ranar caminhava atrás, os muitos ferimentos coletados da Guarda de Penas doendo, a dor em sua pele viva uma chama sempre ardente, mas nenhum deles mortal. Fazia um grande esforço para carregar seu machado, embora a fadiga o impelisse a arrastá-lo na areia. Não se deixaria superar por um jovem que mal tinha barba. Isso, e começara a imaginar se as Valquírias ouviriam falar de seus feitos; caso aparecessem, Ranar preferia estar morto agarrando seu machado do que vivo arrastando-o. Morto, Ranar pensou, ou o que quer que acontecesse aos espíritos que eram abatidos em Istfell.

"Bjorn", Ranar chamou. "Bjorn, o que nos aguarda na torre?"

"O Rei Urso", disse Bjorn. "O guardião ciumento que se agacha no caminho para Starnheim."

"Pensei que o único caminho fosse pelas Valquírias?" disse Ranar.

"Existem mais caminhos do que os que lhe contaram. Você sabe como Istfell surgiu?" Bjorn perguntou.

"Não sei", disse Ranar.

"Vou te contar: o mundo nasceu de uma semente", Bjorn começou. "Essa semente cresceu e tornou-se a Árvore do Mundo, e tudo o mais cresceu dela." A voz de Bjorn mudou, e Ranar percebeu que ele estava citando algo de memória. "A Primeira Saga", disse Bjorn. "A primeira vez que os humanos tentaram condensar a maravilha da criação em palavras."

"O que mais haveríamos de fazer com o nosso tempo?" disse Ranar. Falava apenas para si mesmo: Bjorn conversava da mesma maneira que marchava.

"Istfell", Bjorn continuou, "foi ignorada por tempo suficiente por aqueles com a força para destruí-la que cresceu sob a sombra da Árvore, sob a luz de Starnheim." Bjorn sorriu. "Este reino sempre conteve os descartes e os esquecidos; aqueles lá no alto nunca pensam em olhar para baixo — usaremos isso a nosso favor."

Os dois alcançaram as portas da torre do Rei Urso. Ninguém os abordou ou tentou barrar sua entrada. As portas gemeram ao abrir sob seus ombros, revelando um interior escuro e austero. A torre era grande o suficiente em sua base para conter uma cidade dentro de suas paredes. Em vez disso, não havia nada além de uma poça de água estagnada e um corpo ao pé de uma grande escadaria que subia para as alturas da torre.

Cravada no corpo caído — uma forma mumificada de um tempo há muito passado — estava uma lança de manufatura antiga. Enrolado na lança havia um pano, um estandarte. Desenrolado, tinha uma única palavra pintada: ESCALEM.

E, assim, Bjorn e Ranar subiram a torre, escalando através da névoa e da penumbra pastosa na escadaria larga e sinuosa. Conforme progrediam, a torre envelhecia em reverso: os andares mais baixos eram escuros e em ruínas, pedra bruta desgastada por incontáveis eras de passagem; conforme subiam, tal pedra bruta dava lugar a pedra finamente cinzelada, que dava lugar a pedra com argamassa, depois tijolo, mármore, e por materiais ainda desconhecidos para Ranar. Os estratos deixavam claro: os primeiros construtores desta torre devem ter precedido o bisavô de Bjorn em milênios, e seus construtores mais recentes foram muito mais talentosos que qualquer artesão que Ranar conhecesse.

"Que era é esta", Ranar murmurou, pergunta que Bjorn ignorou. As paredes deste andar da torre eram feitas de algum metal martelado, frio ao toque. "Bjorn, quão longe escalamos?"

"Estamos quase lá", disse Bjorn. Apontou para as paredes. "Estas são formadas do mesmo metal que as Valquírias usam para fazer suas lanças. A luz lá fora", Bjorn disse, indicando as janelas altas e estreitas que anelavam o andar. Eram brancas, cegantes, e doía em Ranar olhar. "Aquela luz é a própria luz de Starnheim. Prepare-se. Estamos perto."

Tão perto do reino das lendas, em uma torre construída com os metais empunhados pelas próprias Valquírias. O machado humilde de Ranar parecia ainda mais mundano. Madeira e ferro, não iridescente, não dourado, não manufaturado a partir de algum material lendário, colhido do Cosmos. Ele o mantinha à frente e pronto, embora soubesse que apenas quando encontrasse os guardiões do caminho para Starnheim aprenderia quão útil seu velho machado realmente era.

Da melhor forma que pôde, Ranar preparou-se.

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No topo do telhado de Istfell, abaixo da luz cegante da fenda para Starnheim, Ranar e Bjorn postaram-se diante do Rei Urso e sua Guarda Ursina final. O último andar da torre do Rei Urso era um platô liso e sem feições formado de vidro preto sem costura. O ar estava imóvel. A esta altura, a luz do reino dos heróis obliterava qualquer sombra. O Rei Urso era mais jovem do que Ranar pensara que seria — um homem que portava toda a semelhança com o seu título, heroico em tamanho e perfil. Em formação com sua Guarda Ursina, ele se agigantava sobre o maior deles por uma cabeça, seus ombros largos sob espaldeiras peludas cobertas de pele. Sua espada era uma placa de aço tão grande quanto ele, uma matadora de gigantes, jötunn e demônios.

"Urso", começou Bjorn. "Você sabe por que estou aqui."

O Rei Urso assentiu. "De fato."

"E você sabe quem eu sou."

O Rei Urso assentiu. Rolou os ombros. "De fato."

"Então por que você bloqueia o meu caminho?"

"Somos os guardiões deste reino", disse o Rei Urso, "e nos opomos àqueles que o levariam à ruína."

"Exijo que você se afaste", disse Bjorn, sua voz subindo.

"Não, meu senhor", disse o Rei Urso. "Nós nos opomos a todas as ameaças a Istfell — ameaças de dentro e de fora."

"Que assim seja", disse Bjorn. "Você encontrará o Cosmos muito menos gentil que eu." Com isso, Bjorn avançou, espada pronta, e investiu.

A luta que se seguiu foi equilibrada entre a elegância e a sargeta. Bjorn, com graça, seguia sua lâmina através e ao redor, por baixo dos guardas e entre as armaduras de placas. Era um relâmpago sombrio, intocado. A Guarda Ursina estava mais bem equipada para lutar contra Ranar, e o estrépito de suas armas se chocando ressoou como trovão por toda Istfell. Machado contra placa-espada, o impacto de lâmina em lâmina rachando o vidro preto sob as botas dos guerreiros.

Ranar era o aríete que esmagava o portão; Bjorn, a flecha do atirador que derrubaria o rei. Juntos abateram a Guarda Ursina. Quando o último caiu, nada restava entre eles e o Rei Urso.

"Ainda há tempo para cessar este trabalho sombrio", disse o Rei Urso. "Deixe minha torre. Dê as terras do Alce e do Corvo ao seu campeão. Torne-o um vassalo leal", o Rei Urso disse. Embora sua voz fosse equilibrada e calma, estava tingida de tristeza. "Istfell já é sua. Cuide deste jardim como um administrador humilde. Seja feliz com seus frutos e flores, e com os peregrinos chamados a esta terra."

Bjorn cuspiu, e seu cuspe sibilou no platô de vidro preto. Apontou sua espada para o céu. "Vim pelo que me é devido por força e canção", berrou ele. "Starnheim e todos os reinos da Árvore do Mundo serão meus."

"Não serão", disse o Rei Urso.

Bjorn investiu, Ranar apenas um passo atrás. Pelo vidro preto eles trovejaram, e o vento ao redor deles começou a subir, e conforme alcançaram o Rei Urso, Bjorn deslizou sob o golpe inicial do rei, deixando Ranar receber o impacto. Ranar — tão rápido quanto pôde, embora tenha parecido no momento lento como seiva em uma manhã de inverno — trouxe seu machado em uma guarda desajeitada, o suficiente para interceptar o que de outra forma seria um golpe mortal. O cabo de seu machado partiu-se, o gume faminto da lâmina do Rei Urso esmagou a malha de Ranar, e Ranar foi arremessado para o lado, um rastro de sangue e essência espiritual verde pálida seguindo pelo ar atrás dele.

Ranar colidiu contra o chão de vidro preto e rolou até parar perto da borda vertiginosa da torre. De onde jazia, Ranar observou conforme Bjorn desferia um corte rápido na perna do Rei Urso. O rei caiu de joelhos, e Bjorn conseguiu circular ao redor dele. Com um golpe rápido, Bjorn enterrou sua espada através de uma camada da malha do Rei Urso e para dentro de seu peito. O rei arquejou e deixou cair a espada. A luta terminara.

Ranar gemeu, segurou seu ferimento e tentou ficar de pé. Sangue e essência verde gotejavam de seus dedos. Foi tudo o que conseguiu fazer para erguer-se sobre um joelho, usando o cabo quebrado de seu machado como apoio. Observou enquanto Bjorn e o rei falavam suas últimas palavras um ao outro, pai e filho em um abraço parricida.

"Você pode ter enganado o Alce e o Corvo, mas não pode me enganar", disse o Rei Urso. "Se pretende me enviar para o Cosmos, conceda-me a honra de ver sua verdadeira forma."

Bjorn sorriu e, conforme seu sorriso crescia, a forma do jovem também se desprendia dele como sujeira saindo de uma pele batida. As roupas nobres sujas porém finas brilharam e mudaram, escurecendo para um manto e vestes de pura noite estígia. Sua pele bronzeada empalideceu para um cinza exangue, e seu cabelo tornou-se branco como osso branqueado. Bjorn se fora. Em seu lugar estava o próprio senhor de Istfell, Egon, deus dos mortos, antigo como a rocha branqueada sob a geada da tundra de Istfell.

"Egon", sussurrou o Rei Urso. "Meu Senhor."

"Você foi um bom servo", disse o Deus da Morte. Egon segurou o Rei Urso por trás. Sua espada transformara-se com ele, fluindo de aço para formar uma foice viciosa de vidro fumegante. Egon pressionou o gume negro contra o pescoço do Rei Urso. "Vá, viaje", disse Egon. "E quando retornar aqui, diga-me que demônios ameaçam o meu reino."

Antes que o Rei Urso pudesse responder, Egon empurrou o rei contra a lâmina de sua foice. O corpo do Rei Urso tombou para frente, caindo com um baque pesado e inglório sobre o vidro. Egon ergueu a cabeça do Rei Urso, alto acima da sua própria, apontando-a para o céu brilhante acima.

"Starnheim", berrou Egon, com a voz alta como trovão. "Você é minha. Abra!"

Ranar observou do chão, em assombro, conforme o céu acima abria-se, a realidade verde-branca descascando para revelar um substrato dourado além. Uma vista se formou, mostrando um lago de tinta brilhante, imóvel, com grandes dracares deslizando sobre sua superfície. Starnheim estava aberta diante deles. Ranar esticou a mão para o reino glorioso, fechando os olhos contra a luz.

"Egon", uma voz como um coro, um grito de guerra, partiu o momento. A luz de Starnheim desapareceu, o rasgo no cosmos selou-se fechando. "De novo?"

Egon deixou cair a cabeça do Rei Urso e ergueu sua foice, mostrando os dentes em um rosnado silencioso.

A oradora era uma Valquíria de autoridade singular. Ela planou até a torre, carregada por dois pares de asas, um de alabastro e o outro tão escuro quanto as vestes de Egon. Em uma mão segurava uma bela lança, e cruzado em sua forma blindada estava preso um poderoso berrante de arauto. Leve como poeira, ela pousou diante de Egon.

"Firja", Egon gritou. "Eu exijo—"

"Você não pode", disse Firja, ríspida. "Starnheim não está aberta aos deuses sem julgamento; ainda não é o seu tempo, Egon. Você permanecerá em Istfell."

"Você não tem autoridade", Egon desdenhou. "Sou grandioso. Minha busca foi gloriosa. Sou poderoso. Pelas suas próprias leis, você deve me deixar entrar."

Firja riu. "Não faço leis, Egon. Sou a juíza dela, e uso meu próprio critério. Permitir você em meu reino anunciaria o fim. Portanto, não permitirei."

Egon ergueu sua foice para golpear mas Firja a afastou com um tapa. Ela deslizou pela superfície polida da torre antes de voar para o ar livre. Egon observou-a, gemeu e caiu de joelhos. A luta o abandonou. Ele socou o chão, rachando o vidro.

"Espírito", disse Firja, voltando-se para Ranar. "Olhe para mim."

Ranar fez o que lhe foi ordenado. Firja era terrível e grandiosa, sem igual. Aterrorizado, animado, mas preenchido de esperança, Ranar levantou-se. Agarrou seu machado partido — um guerreiro, sempre.

"Se alguém aqui merece entrada por mérito é você, velho", disse Firja. "Embora eu questione o seu julgamento; seguindo este aqui em tal empreendimento, e o tempo todo sem saber quem ele era." Firja balançou a cabeça. "O desejo de glória é cegante."

"O Deus da Morte me liderou, sim", disse Ranar. "Mas fiz minha própria escolha. Se eu não nutrisse o mesmo desejo que ele, não o teria seguido."

Firja ergueu uma sobrancelha. "Seja sincero", disse ela. "O que você faria se eu lhe recusasse a entrada e pedisse para permanecer em Istfell?"

Ranar olhou entre Firja, radiante, e Egon, fervilhando. "Sei como servir", disse Ranar. "E sei como me humilhar quando cometi um erro." Ele ofereceu a Firja seu machado quebrado. "Em vida, mantive a guarda, e na morte, fiz o mesmo. Esta busca me testou, e eu falhei. Peço sua graça para que eu possa guardar outros da minha mesma falha."

"Boa resposta", disse Firja. "Está feito."

Ranar permaneceu de pé, maravilhado conforme seu machado se reparava em suas mãos. Embora desgastado pela batalha como antes, veios de metal de Valquíria fluíram pela madeira e gravaram-se em nós na cabeça do machado.

"Eu voltarei, Firja", Egon desdenhou. "Encontrarei meu caminho para Starnheim."

"Tenho certeza de que você tentará", disse Firja. "Ranar, guarde o seu reino. Abata-o."

Ranar considerou por um momento, então tomou sua decisão. Contra os protestos de Egon, ele balançou seu machado, abatendo o Deus da Morte em um único golpe.

"Bom", disse Firja.

"Ele viverá novamente?"

"Ah, claro", disse Firja. Colocou uma mão no ombro de Ranar. "Este é o reino dele e, por ora, segue as regras dele. Ele vagará pelo Cosmos por um tempo, e então retornará ao seu corpo e trajes e armamentos, sentará em seu trono e governará novamente." Firja soltou as asas e esticou-as bem, preparando-se para partir.

Ranar observou o corpo de Egon tornar-se de um branco mais pálido, rachar e ser levado pelo vento como poeira.

"Egon já fez isso antes", disse Ranar. "Eu também?"

A Valquíria assentiu. "Por eras ele tem tentado. Já te vi muitas vezes, embora nem sempre", disse ela. "Você é parte integrante deste ciclo. Se você chega ao fim, é sempre prestativo", disse Firja. "Embora nunca se lembre até que eu o nomeie guardião novamente — essa é a dificuldade com este lugar. Istfell é o reino dos esquecidos e desconhecidos. Todos que se encontram aqui desaparecem com o tempo; aqueles que o guardam também não estão imunes ao poder do reino." Firja falou sem sentimentalismo, nivelada de um jeito que poderia soar ríspido para ouvidos sensíveis, mas não para Ranar. Ele apenas conhecera a mordida de inverno do comando de um jarl, ou o uivo de berrante de um grito de guerra de saqueador demônio: ele conseguia ler quando o frio era cruel e quando o frio era apenas frio.

"Como devo guardar um reino quando esqueço meus próprios deveres?" Ranar perguntou.

Firja direcionou o olhar dele de volta para o fantasma branco-cinza de Egon. Apenas um contorno do seu corpo colapsado permanecia na superfície de vidro escuro do chão da torre, o resto soprado pelo vento.

"Antes que chegue a esse ponto, quero dizer", Ranar grunhiu.

"Você é um guardião", disse Firja. "Em sua alma, você é firme em sua tarefa. Quer seu dever se pareça com este ou seja simples em sua execução, você se moldará a ele." Firja acenou para Ranar aproximar-se da borda da torre, de onde podiam olhar para toda Istfell. Ela apontou para o horizonte distante, onde Ranar sabia que o reino terminava, limitado pelo rio. "Considere o rio", disse Firja. "Embora a água que lhe dá o corpo possa mudar — não é sempre o mesmo rio?"

"Suponho que sim", disse Ranar. "Embora aquele rio seja bem cuidado."

"Não é?" Firja sorriu, uma visão rara. "Sirva bem a este reino e ao seu povo, Ranar de Istfell." Ela bateu as asas uma vez e então elevou-se do topo da torre. A luz dourada rompeu a cobertura de nuvens. A margem distante de Starnheim abriu-se acima deles. Ranar ergueu seu machado em saudação. Com ele, protegeu os olhos e observou Firja voar para dentro da luz. Sozinho, como ele estava, no dever.

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Algum tempo depois, o verde corpóreo de Istfell caiu sobre o corpo de Ranar mais uma vez, e ele viu-se caminhando pelo chão pálido e duro da vasta tundra do reino. O brilho da luz manchada pela névoa acima caía suave sobre o gelo cintilante abaixo, e não havia sombras.

Ranar não sentia sede, dor, fome ou cansaço. Era, mais uma vez, um fantasma. Um espírito em um reino reservado para espíritos. Era seu dever manter a vigia, mas por onde começar? Manter vigília nos Portões de Istfell, onde as almas que entravam o encontrariam? Buscar notícias ou rumores de saqueadores deste reino ou de outro? Ranar carregava seu machado tornado íntegro por Firja. Como antes, ele sabia que continha a resposta.

Ranar lançou seu machado ao céu, deu um passo para o lado e marcou onde ele caiu. O cabo apontava o caminho, para longe, para uma distância insondável, onde o próprio Cosmos rodopiava. Através de Istfell, onde espíritos não cantados ainda clamavam por heróis.

"Bom", disse Ranar. Direção. Propósito. Honra. Glória. Sozinho, o guardião de Istfell arrancou seu machado e partiu em direção ao horizonte distante.

03/02/2021 | Por Roy Graham & Jenna Helland

Episódio 5: A Batalha por Kaldheim

Muito acima de Feltmark, descrevendo círculos entre as colunas de fumaça que subiam das muitas chaminés da Fortaleza de Beskir, um corvo navegava pelo ar. Um corvo, sabe-se, pode cobrir cento e sessenta quilômetros em um dia, e este fizera exatamente isso. Passara sobre as altas cristas das montanhas das Presas, vira os gigantes do fogo escalando as encostas enquanto os bravos-espada Tuskeri rolavam toras cortadas e pedregulhos para derrubá-los de volta à terra. O corvo, com um olho negro e inescrutável, observara os Skelle reunirem-se em seus pântanos e jurarem votos de sangue, preparando-se para a guerra. Seguira a costa por algum tempo, onde dracares pontilhavam o horizonte, a maior frota da era cavalgando o vento para oeste, para o único lugar em Bretagard para onde todos convergem em tempos de crise.

Fortaleza de Bretagard | Arte de: Jung Park

O corvo pousou em um telhado de palha em um dos pátios internos, passado as grossas muralhas que anelavam a fortaleza. Abaixo, entre os sons crescentes de armas pressionadas contra a pedra de amolar, de malha roçando em placa, duas vozes se destacavam. O corvo, como era seu costume, pausou para ouvir.

"Perdemos o flanco leste, e será toda a Aldergard em breve", disse o mais velho. Seu cabelo e barba eram da cor de neve fresca; todo o restante era curtido, coriáceo, rústico. Às suas costas havia um escudo largo feito de um material que parecia brilhar sob a luz certa. "Nunca vi tantos trolls em um só lugar. E trabalhando juntos, ainda por cima."

O mais jovem riu. "Os Kannah estão tendo problemas com alguns Hagi? Um dos meus abateu um demônio ontem. Agora todos os jovens estão tentando reivindicar o próximo." Do lado da cabeça deste projetava-se uma estranha protuberância óssea — como se um dente-de-sabre tivesse tentado morder seu crânio mas perdido a presa no meio do caminho.

"Se é uma festa dessas, então o que você está fazendo aqui?" resmungou o mais velho.

O outro deu de ombros. "Um líder de clã tem certas obrigações, você sabe."

Dois guardas descruzaram as lanças diante do par e empurraram um conjunto de pesadas portas de madeira, cada uma recebendo o peso total do guerreiro antes de rangerem ao abrir.

"Arni Quebra-testa, dos Tuskeri, e Fynn Caçador-de-Serpentes, dos Kannah", um dos guardas bradou. Lá dentro, quatro figuras estavam sentadas à mesa. Inga Olhos-de-Runa, líder dos Buscadores de Presságios, já chegara, e esta fortaleza pertencia a Sigrid, a Favorecida pelos Deuses. Os outros dois — uma mulher de pele escura e um elfo com tranças ruivas — eram estranhos.

Fynn, o mais velho da dupla, agarrou o machado em seu cinto. "O que no sopro de Koma ele está fazendo aqui?"

Os guardas, no meio do fechamento da porta, correram para suas armas, mas Sigrid ergueu a mão. "Inga?"

Olhos-de-Runa levantou-se de seu assento. "Este é Tyvar, de Skemfar, e Kaya, de — outro lugar. Eles são amigos. E estamos precisando de todos os amigos que pudermos encontrar agora."

"Nenhum elfo beijador de serpentes pode se chamar meu amigo", rosnou Fynn. "Muito menos o príncipe deles."

Fynn Caçador-de-Serpentes | Arte de: Lie Setiawan

Ele ainda não sacara sua arma, mas parecia pronto para isso. Tyvar nem sequer se levantara da cadeira, porém. "Não são apenas os humanos que morrerão se os elfos forem à guerra. Mas suponho que será você quem convencerá meu irmão a recuar, então, quando ele chegar à frente de um exército."

"Eu vou convencê-lo. A uns dois metros abaixo da terra."

"Chega", bradou Sigrid, sua voz como um martelo. "Não os convidei para o meu salão para insultar meus convidados, Fynn. Convidei-os para discutir como o nosso povo poderá viver até o fim da semana."

Resmungando, Fynn deixou-se cair em uma das cadeiras ao redor da longa mesa. Arni juntou-se a ele. "Então! Presumo que haja algum tipo de plano, e que ele exigirá atos de estupenda ousadia e bravura? Entendo que as chances estão contra nós." Sobre isso, ele não parecia terrivelmente preocupado.

Sigrid sorriu de leve. "Trolls, demônios, gigantes — tanto do gelo quanto do fogo — assolando o reino. E agora ouço relatos de draugr, o que significa que o exército morto de Karfell, os Dread Marn, retornou. Sim, eu diria que as chances estão contra nós. Mas temos armas com as quais lutar."

"Além de um elfo falastrão?" murmurou Fynn.

"Sim", disse Kaya. De baixo da mesa, ela ergueu uma espada que parecia forjada de vidro; presas dentro da lâmina translúcida estavam uma gama de azuis e verdes que pareciam ondular e brilhar diante de seus olhos. Ela a colocou sobre a mesa com um tilintar surdo.

"Isso é—" disse Fynn.

"A Espada dos Reinos", disse Sigrid calmamente.

"Koll deve ter finalmente terminado a bendita coisa", disse Arni, assobiando.

"Terminou", disse Sigrid. "Mas ele levou os segredos de como empunhá-la para o túmulo."

Um momento de silêncio passou entre eles. Fynn foi o primeiro a quebrá-lo. "Mas sem esse conhecimento, não passa de uma lâmina. Forjada em Tyrite, sim, mas não há quantidade de espadas finas que possa parar um Doomskar."

"Existe um, ainda, que pode empunhá-la", veio uma voz do canto escurecido da sala onde a luz dos braseiros não alcançava. Uma quinta figura surgiu das sombras — um velho, em um longo e pesado manto de viagem. Havia um corvo pousado em seu ombro. "O deus para quem a espada foi destinada. Halvar, Deus da Batalha."

Planejamento Estratégico | Arte de: Donato Giancola

De seus olhos vertia um brilho tênue — a mesma luz congelada dentro da lâmina da espada. Diante de Alrund, até Fynn ficou sem palavras.

"Halvar é o nosso homem", disse Kaya. "Mas chegar até ele vai exigir algum esforço."

Arni, recuperado de ter conhecido um dos deuses de Kaldheim, colocou os pés sobre a mesa. "Uma busca perigosa, então. Agora estamos chegando na parte boa."

Halvar, Alrund contara a eles, não estava longe da fortaleza Beskir. Ele era, afinal, o deus da batalha, e a batalha estava por toda parte agora. Como o corvo voa, ele estava bem perto.

Eu só gostaria que o velho não tivesse falado literalmente, pensou Kaya, agarrando um punhado de penas pretas e apertando o aperto.

O pássaro que viajava no ombro de Alrund chamava-se Hakka; Kaya sabia ao menos isso. Ele não lhes contara os nomes dos corvos gigantes que agora os carregavam pelo céu, grandes extensões de campo desaparecendo a cada batida de suas vastas asas negras. Ou talvez tivesse contado — admitidamente, Kaya não conseguira focar muito durante as apresentações, sua atenção inextricavelmente atraída por aqueles grandes olhos vítreos. Havia uma inteligência neles que ela não podia negar, e uma curiosidade. Sem mencionar aquele grande bico curvo, que provavelmente poderia parti-la ao meio se quisesse. Em um viajavam Sigrid, Fynn e Inga — no outro, Arni, Kaya e Tyvar.

"Olhe!" ela ouviu Tyvar gritar por cima do vento impetuoso.

A primeira coisa que ela viu foi o rasgo no mundo, uma faixa de branco gélido cortando os campos de âmbar abaixo. A perspectiva parecia toda errada, como se alguém tivesse colocado outro plano esticado sobre este. O vapor subia conforme o ar daquele lugar congelado encontrava o ar mais quente de Bretagard, e da borda da abertura figuras finas e apodrecidas arrastavam-se mão sobre mão para dentro do reino humano. À frente delas, através de um tapete ondulante de grama amarelada, estendiam-se mil formas cambaleantes. Draugr, haviam-nas chamado. Um zumbi com qualquer outro nome. Elevando-se acima da soldadesca estavam algumas figuras massivas cobertas por pelos longos e fibrosos — trolls Torga, Kaya reconheceu, embora estes parecessem ter visto dias melhores. Difícil dizer daqui de cima, mas tinham o mesmo andar instável das tropas de infantaria. Mortos-vivos também, então.

Todos eles — draugr e Torga, grandes e pequenos — cambaleavam em direção à mesma coisa: uma ponte de madeira de construção robusta, cruzando um rio largo de águas brancas. Do outro lado, Kaya conseguia distinguir um vilarejo de pequenas cabanas, caminhos de paralelepípedos, uma roda d'água. Nenhuma pessoa que conseguisse distinguir, mas aquilo fazia sentido com o que estava à porta deles. Parecia miraculosamente íntegro, intocado. A figura solitária na ponte garantira isso.

Daqui, Halvar não parecia grande coisa. Ele não irradiava aquela luz divina assustadora do mesmo jeito que Alrund; comparado ao talho no mundo vertendo luz azul, verde e roxa no céu, ele parecia pouco notável. Uma figura minúscula, desta altura, em armadura de ferro opaca. À sua frente, no lado próximo da ponte, havia um monte de draugr destruídos quase até a altura da cintura.

"Temos que chegar à ponte", gritou Kaya, esperando que Tyvar ouvisse e o pássaro gigante em que estavam de algum modo entendesse. Não havia como voltar o relógio, sugar este exército de mortos-vivos de volta para o seu mundo congelado, mas a Espada dos Reinos estava presa às suas costas; se conseguissem alcançar Halvar, poderiam ao menos impedir que as coisas piorassem.

Mas os olhos de Tyvar, ao virar-se para encará-la, fixaram-se em outra coisa. Uma sombra passou sobre ela, então — as penas pretas brilhantes do pássaro tornaram-se marginalmente mais escuras conforme algo se movia entre ela e o sol acima deles.

"Cuidado!" disse Tyvar, exatamente antes do golpe atingir; um som de esmagamento, um grito aviário, e subitamente Kaya foi derrubada de seu poleiro e lançada no ar.

Ela viu o restante em momentos individuais, quadros separados enquanto caía: o corvo, sua asa dobrada em uma posição não natural; Tyvar e Arni, braços girando ao redor deles conforme começavam a cair, agarrando-se a apoios que não estavam lá; acima de todos eles, uma figura chifruda massiva com duas asas coriáceas e esfarrapadas, carregando um machado pesado de cabo longo.

Varragoth, Senhor do Céu de Sangue | Arte de: Tyler Jacobson

Estava mais perto do que ela o vira antes; mesmo caindo para baixo, para baixo, longe do demônio, ela conseguia distinguir o emaranhado de carne cor de hematoma que pendia na forma de uma barba selvagem; conseguia ver milhares de anos de aprisionamento fervendo daqueles olhos loucos. Varragoth golpeou novamente, cravando seu machado na lateral do corvo, e então Kaya estava girando e girando, o vento ensurdecedor em seus ouvidos, caindo, caindo.

Pense.

Pense, pense, pense!

Ela olhou para baixo, cerrando os olhos contra o vento — abaixo dela, o rio chocava-se e rugia. Atingir a água após uma queda desta altura não seria muito melhor do que atingir a pedra. Ela poderia sobreviver à queda, porém — sua habilidade de entrar e sair da carne mortal garantiria isso. Poderia Tyvar? Não sabia. Não podia contar com isso. Kaya endireitou o corpo e abriu os braços e pernas para retardar sua queda. Tentou focar no céu ao seu redor em vez de no chão subindo rapidamente abaixo. Arni, descobriu-se, estava perto dela, a uns um metro e meio de distância e urrando algum grito de guerra insano conforme despencava em direção à morte. Tyvar estava a uns seis metros, toda aquela graça e equilíbrio inúteis conforme ele girava pelo ar, totalmente fora de controle.

Ela agarrou Arni, passando um braço pela alça que mantinha sua espada larga nas costas. "Endireite o corpo e empurre os braços para trás!" gritou ela por cima do vento ruginte.

Ele obedeceu, e ela seguiu o exemplo; imediatamente estavam caindo mais rápido, angulando em direção a Tyvar. Abaixo, a grama não era mais um sombreado amarelo vago mas caules ondulantes; ela conseguia distinguir as lâminas de aço em bloco dos draugr, suas armaduras ainda cobertas de geada. Estavam quase no rio. Não podia errar — tinha que ser agora.

Colidiram com Tyvar cerca de cinco segundos antes de atingirem a superfície. Mais um segundo para convocar a energia de que precisava; mais um para tornar os três insubstanciais. Os últimos três segundos foram momentos apenas suficientes de sobra.

A escuridão e o frio os engoliram — não era apenas o gélido da água correndo ao seu redor, também. O frio a preenchia, era ela. Nenhum fluxo quente de sangue pelas veias, nenhum ar em seus pulmões, nenhum batimento cardíaco constante lembrando-a com cada pulsação de que estava viva. Por aqueles poucos segundos, Kaya soube o que era estar morta, e perdurar — um espírito, uma aparição.

Com esforço, ela puxou a todos de volta à forma corpórea, e imediatamente estavam tombando e girando na correnteza. Kaya não tinha ideia de para que lado era cima, nenhuma pista de para onde nadar. Tudo o que podia fazer era agarrar-se a Arni e Tyvar, mantendo-os como uma única e grande unidade se afogando. Abriu os olhos; ao seu redor havia água impetuosa. Na borda de sua visão, na escuridão maior do rio largo, achou ter visto algo se mover — um corpo esguio e ágil nas ondas.

Arni foi quem pegou o galho ao longo da margem; com a ajuda de Kaya, arrastaram Tyvar para fora da água. Ele ainda arquejava em busca de ar, agarrando os braços como se estivesse congelando. Foi sorte, presumiu ela, que os draugr de todos os lados pareciam surpresos demais para desferir um golpe neles antes de ela encontrar seu apoio novamente.

Draugr Sombrio | Arte de: Grzegorz Rutkowski

Kaya esquivou-se do primeiro golpe, parou o segundo. Afastou um golpe de espada destinado a Tyvar, arrancou o braço do draugr no cotovelo. "Levanta, garoto!"

Eram lentos, mas não tinham fim, e de todos os lados começavam a perceber que havia inimigos em seu meio. Kaya partiu um crânio branco e geado com um de seus machados de mão e o arrancou mal a tempo de desviar um estocada de lança. Deu um passo atrás, quase tropeçou — e imediatamente Arni estava lá à frente dela, decepando membros com grandes varridos circulares de sua espada larga. Esse cara vira etéreo todo dia? pensou Kaya, atônita.

Arni enterrou sua lâmina na caixa torácica de um draugr, manteve-o à distância de um braço enquanto ele esgaratava inutilmente contra ele, e virou-se para ela. Com certeza, estava sorrindo. "Vocês dois sigam em frente. Manterei este lote ocupado. É o mínimo que posso fazer, depois que você amorteceu minha queda com aquela sua magia assombrosa."

Um guerreiro contra todos esses draugr; aquelas chances não eram boas. Por outro lado, ele parece um homem que gosta de apostar.

Kaya puxou Tyvar para ficar de pé e, juntos, correram pela brecha que Arni abrira. À distância ela via a ponte — quase perto o suficiente para tocar, com nada além de um exército de mortos-vivos entre eles. Poderia disparar à frente se começasse a fasear, mas estivera imaterial por um longo tempo durante o seu "pouso" e não sabia quanto mais o seu corpo aguentaria. Havia Tyvar para considerar, também.

Ao menos os draugr nesta seção do campo pareciam menos densos. Juntos correram, parando apenas brevemente para estilhaçar uma caixa torácica ou decepar um membro congelado, a Espada dos Reinos chacoalhando o tempo todo em sua bainha contra as costas de Kaya. Atrás deles, à distância, conseguia ver os estandartes dos clãs humanos conforme colidiam com as bordas da horda draugr, mas não houvera tempo para mobilizar mais do que alguns grupos de ataque, e mais draugr derramavam-se daquele rasgo a cada minuto que passava.

Sobre os campos entupidos de mortos subiu um som que Kaya nunca ouvira antes. Algumas mudanças de tom e cadência, e poderia ter sido o chamado de alguma vasta ave noturna, o uivo de um lobo-medonho; tinha aquela qualidade selvagem e misteriosa conforme atravessava as planícies, e Tyvar congelou.

"Aquele não é um berrante draugr", disse ele, sem fôlego.

Soou novamente, e Kaya seguiu o som até a curva suave de uma colina a certa distância. Uma linha de figuras começara a se formar — a maioria carregava escudos de bronze, manchados com a pátina verde da idade. Alguns carregavam lanças, alguns espadas. Kaya precisou apenas ver como Tyvar olhava para eles para saber quem eram: os elfos de Skemfar, marchando para a guerra.

Harald, Rei de Skemfar | Arte de: Collin Estrada

"Tyvar, não temos tempo para isso. Temos que nos mover", disse Kaya, mas Tyvar parecia enraizado no lugar.

"Kaya, os humanos não são as únicas vítimas da traição de Tibalt", disse ele, virando-se para ela. "Não posso deixar o meu povo lutar e perecer por uma mentira dele. Meu irmão está à frente daquele exército — sei que posso fazê-lo ver a razão."

Apesar de toda a bravata de Tyvar, ele tinha um bom coração ali dentro. "Tudo bem, garoto. Vá logo, então."

"Você ficará bem?"

Kaya sorriu, tentou parecer confiante. "Fiz minha reputação profissional matando mortos-vivos. Vou ficar bem."

Ele assentiu. Com isso, saiu em disparada.

Não fora uma mentira o que dissera a ele, exatamente — mas isso teria sido muito mais fácil se os draugr fossem mortos-vivos da variedade mais espectral. Kaya avançou, abrindo caminho conforme precisava, correndo quando não precisava. Os sons de metal chocando-se contra metal estavam por toda parte agora, assim como os gritos distantes de homens e mulheres, e ela sentia seu coração bater cada vez mais alto em seus ouvidos. Tudo parecia estar acontecendo mais devagar que o habitual, cada fôlego parecendo uma hora, um ano.

Um passo que estremeceu a terra a tirou de seu transe, congelando-a onde estava. Entre Kaya e seu caminho para a ponte estava um dos trolls Torga que vira do ar. Tão perto, conseguia sentir o cheiro quase doce de podridão e ver onde manchas de pelo outrora musgoso haviam ficado brancas e quebradiças ou caído completamente. Algo abrira um grande talho no flanco da criatura — ela conseguia ver três costelas como placas claras como o dia, uma luz azul doentia emanando de algum lugar profundo dentro do troll. Seus olhos estavam nublados, mortos, mas pareciam fixar-se nela apesar disso. Exalou bruscamente, uma golfada de névoa branca sibilando de entre duas presas enegrecidas.

Exatamente quando começou a mover-se em direção a ela, ouviu-se um som de respingo à esquerda de Kaya. Viu, pendurada no ar, a coisa mais improvável: um golfinho. Estranhamente majestoso, quase prístino no meio de todo o caos e carnificina. Estava arqueando-se pelo ar em sua direção, a pele cinza úmida e lustrosa — deve ter saltado das corredeiras de águas brancas ao seu lado, Kaya percebeu. Sem interrupção, aquela pele brilhante enfunou-se de volta para a forma de um manto, e a criatura pousou em pernas agora humanas; o manto assentou-se sobre ombros esguios e pardos. À frente de Kaya e do troll estava uma mulher de meia-idade com cabelos selvagens e soltos. Nada disse, apenas ergueu as mãos. Conforme seus olhos brilhavam com luz mutante e multicolorida, Kaya percebeu que olhava para uma das deusas de Kaldheim.

Cosima, Deusa da Viagem | Arte de: Andy Brase

Atrás dela, uma parede de água subiu do rio, branca e debatendo-se como um animal. Varreu o Torga morto-vivo e um punhado de draugr. A onda carregou a todos enquanto rolava campo abaixo, mais um combatente na batalha insana por Bretagard.

"Quem você deveria ser?" disse Kaya, atônita. Sentiu o gosto de sal no ar.

A mulher à sua frente escovou o cabelo para fora do rosto. Seus olhos haviam voltado a uma cor escura e terrosa. "Você esteve no meu navio não faz muito tempo. Como ele te tratou?"

Cosima. Deusa do mar. "Oh. Uh, nossa convivência foi breve."

"Ela é volúvel", disse Cosima pensativa. De baixo de seu manto, sacou uma espada longa e curva. "Agora, então. Alrund não me enviou para fazer visitas."

Kaya meramente assentiu. Deusa do mar durona. Ok. "Temos que chegar ao Halvar."

"Lidere o caminho", disse Cosima.

Mais draugr haviam se reunido diante delas; estes caíram diante da dupla como trigo sob a foice. Estavam perto agora; a nem trinta metros, ela via Halvar à frente da ponte, derrubando draugr com varridos de seu braço de escudo, arremessando-os no rio branco abaixo. Estava quase lá.

Não registrou a sombra passando sobre ela até que a envolveu em escuridão; subitamente algo puxou bruscamente a armadura de couro de Kaya, arrancando-a para o lado bem a tempo de evitar o machado de ferro feio mordendo a terra onde estivera momentos atrás.

Cosima, tendo-a arrastado para fora do perigo, estava agora puxando-a para ficar de pé. Entre a dupla e a ponte — com três, quatro metros de altura, frondes de carne cinza curvando-se e agitando-se de seus braços, seu peito, seu rosto, exibindo um sorriso hediondo e congelado, estava Varragoth. Bateu as asas uma vez, então assentou-se no chão.

"Ele não tinha asas da última vez", murmurou Cosima.

"Aquela lâmina. Sei o que você carrega", siseou ele, a voz de ferrugem e sangue. "Juro pelas infinitas vidas que tomei que você não me prenderá novamente naquele desolado—"

O primeiro machado, arremessado, atingiu-o na fronte, cortando um chifre, fazendo sangue fervente e de piche borbulhar ao redor de onde cravara. O segundo machado, este na mão de Kaya, enterrou-se em seu joelho. Varragoth uivou de dor e tentou agarrá-la, mas Kaya dançou para fora de seu alcance. Até conseguiu arrancar seu machado de mão da testa dele conforme ele se curvava. "Sei que você é algum tipo de história assustadora que contam para as crianças, mas não sou daqui", Kaya disse, uma vez que estava a uma distância segura.

Varragoth urrou de frustração e lançou-se em sua direção, uma única batida daquelas asas imensas cobrindo metade da distância. Ela acertara dois golpes limpos, mas nenhum pareceu atrasá-lo muito.

Kaya abaixou-se sob um golpe de machado ceifador, sentindo o vento dele chicotear seu rosto. Então Cosima estava lá, balançando sua lâmina em grandes arcos curvos, esculpindo através da armadura de ferro de Varragoth como se fosse água. Se os ferimentos incomodavam o demônio, ele não demonstrava sinal.

Atrás dele, mais vultos escuros e alados desciam do céu, pousando entre eles e a ponte. Ela tentou ignorar a profunda fadiga em seus membros, ajustando seu aperto nos machados de mão. Não havia tempo para se preocupar com o que quer que estivesse no outro lado de Varragoth. Se não conseguisse passar por ele, nada mais importava.

Ela e Cosima avançaram juntas; a deusa do mar foi baixo, e Kaya foi alto. Cosima recebeu o lado cego do machado de batalha demônio em um contragolpe, enviando-a voando para trás, mas Kaya golpeou o ombro dele. Ele não caiu nem hesitou; em vez disso, agarrou-a por uma perna. Se ela não tivesse faseado — um esforço considerável, agora, mesmo em uma parte pequena do seu corpo — ele a teria batido contra o chão, quebrando sua espinha e muito mais.

Rolou livre, levantando-se bem a tempo de desviar de outro golpe do machado. Quanto tempo conseguiria manter aquilo? Atrás dele, através das multidões de draugr, mais formas chifrudas e corpulentas avançavam. Não é tarde demais, disse uma vozinha dentro dela. Você poderia sempre partir.

Kaya firmou o peso em uma postura equilibrada e respirou fundo. É, poderia. Mas isso não significava que faria.

O primeiro dos demônios de Varragoth saiu da multidão, empurrando draugr para o lado. Havia mais dois atrás dele, e quem sabe quantos além daqueles. Flexionou os joelhos, preparada novamente para saltar para frente — e foi interrompida pelo som familiar de um berrante soando, muito mais perto desta vez.

Toque de Berrante de Guerra | Arte de: Bryan Sola

Colidiram contra os draugr e os demônios ambos, vindos de leste, onde o sol nascente brilhava em suas armaduras e escudos, fazendo o bronze antigo e manchado parecer — por um momento — novo de novo. Elfos, ela percebeu. Uma linha de piqueiros fincou suas hastes contra o solo, formando uma muralha entre Kaya e os demônios. Estavam ajudando-a.

"Precisa de uma mão?" veio uma voz atrás dela.

Tyvar estava sentado no que parecia a Kaya ser algum tipo de rena, adornada com a mesma armadura de bronze esverdeada que o restante dos elfos. Ao lado dele cavalgava outro elfo — mais alto e esguio, com o mesmo cabelo ruivo mas uma severidade em seus traços que ela nunca vira em Tyvar.

"Kaya, permita-me apresentar Harald, Rei dos elfos de Skemfar, unificador das tribos do Bosque e da Sombra. Também, meu irmão mais velho", disse Tyvar, sorrindo.

"Vossa Majestade, estou muito feliz em conhecê-lo."

Antes que ele pudesse falar, houve um som metálico de esmagamento e um grito. Varragoth investira contra a linha, esmagando um piqueiro elfo inteiramente sob os pés e cortando outro de forma limpa ao meio com aquele machado maciço. Vários piques estavam enterrados nas frestas de sua armadura; ele não pareceu se importar. Encorajados, os outros demônios avançavam agora, cruzando lâminas e martelando contra escudos com força terrível.

Tyvar impulsionou sua rena em movimento, desmontando graciosamente atrás dos elfos que continham o assalto demoníaco. Colocou as mãos nas costas das armaduras deles, e Kaya observou o chapeamento parecer crescer, contornando para se ajustar perfeitamente aos seus corpos, dobrando-se sobre si mesmo para ficar mais grosso. Um demônio fintou passado o escudo, raspando sua espada na couraça reforçada de um elfo, mas o golpe apenas lançou uma chuva de faíscas ao deslizar. Bom amigo para se ter, pensou Kaya.

Mais elfos chegavam de trás de Harald, preenchendo as lacunas na linha. Kaya permitiu-se um momento para respirar.

"Então", disse ela ao rei elfo. "Seu irmão é—"

"Um tolo", disse Harald em um tom curto e ríspido. "E um fanfarrão. Mas não um mentiroso. Ele me impediu de cometer um erro, aqui. Sou grato por isso."

"Estou bem grata eu mesma."

"Ele diz que você deve chegar à ponte." Harald estendeu uma mão para ela. "Eu posso te levar."

"E quanto ao Tyvar?"

Olharam de volta para a batalha, onde os elfos colidiam com demônios e draugr; Tyvar, seus braços agora brilhando naquela cor de bronze antigo, dançava ao redor de um furioso Varragoth. Ele de fato conseguiu saltar sobre um golpe longo e varrido para acertar o demônio no queixo com um punho metálico.

"Tenho certeza de que ele está tendo o melhor momento de sua vida. Agora venha", disse Harald.

Puxou-a para cima da rena. Ela imediatamente saltou para frente; ela teve que agarrar a cintura do rei elfo apenas para manter-se montada.

A criatura movia-se através do caos da batalha com a graça e o sangue-frio de qualquer corcel de guerra treinado. Às vezes draugr não engajados com o exército élfico inclinavam-se para desferir um golpe neles; Kaya afastava as tentativas rígidas com seu machado de mão. Ao lado, um demônio com um arco preto nodoso puxou a corda — mas antes que pudesse disparar, Harald acenou com uma mão e o arco brotou flores e vinhas que cresceram rapidamente ao redor dos braços do demônio surpreso e subiram em direção à sua garganta.

Antes que percebesse, estavam lá. Além da pilha de cadáveres draugr dispostos em leque ao redor da entrada, e cobrindo-a, a ponte teria se encaixado em qualquer lugar; parecia totalmente normal em meio ao pandemônio total ao redor deles. Nos primeiros poucos tablados de madeira, parecendo tão cansado quanto ela se sentia, estava um homem em armadura simples e despojada, carregando um escudo de madeira anelado de aço. Olhou para cima para eles conforme a rena aproximava-se trotando. "Você não está aqui para tentar cruzar esta ponte também, está?"

"Não. Você é Halvar?" perguntou Kaya.

"Sim. Sou eu. Reconheço o rei de Skemfar, ali. Quem é você?"

"Sou Kaya. Tenho algo que acho que pertence a você."

Puxou a espada de seus envoltorios nas costas; na luz estranha do Doomskar, parecia brilhar com ainda mais força. Kaya lançou-lhe a espada, que girou no ar, pousando finalmente em sua palma como se sempre tivesse pertencido ali.

"A espada que Koll estava forjando antes — antes de cair." Balançou a cabeça. "Nunca pensei que seria um elfo devolvendo-a para mim."

"E eu nunca pensei que estaria ajudando um dos deuses usurpadores", disparou Harald. "Mas parece que você é o único que pode consertar esta bagunça."

Halvar assentiu. "Sim. Com esta espada, acho que consigo. Mas precisarei de tempo."

"Nós podemos te dar isso", disse Kaya.

"Segurem a ponte até que eu possa separar os reinos mais uma vez."

"O que é tão importante sobre esta ponte amaldiçoada?" disse Harald. "O que, precisamente, está no outro lado?"

"Pessoas", disse Halvar simplesmente. Então sentou-se, de pernas cruzadas, com a espada sobre o colo.

Kaya escorregou das costas da rena. Os draugr, ao que parecia, tinham finalmente reagido ao exército élfico em seus flancos e estavam empurrando de volta. Tinham números maiores, e a diferença apenas crescia conforme mais derramavam-se do grande rasgo no mundo. À distância, conseguia ver os estandartes dos clãs humanos — Tuskeri, Beskir, Buscadores de Presságios, Kannah — mas estavam longe de onde ela estava. Halvar, na ponte, entrara profundamente dentro de si. Seus olhos estavam fechados, e a espada começou a brilhar de algum lugar dentro.

Os draugr mais próximos haviam se formado em fileiras, marchando em direção a Kaya e Harald em um passo constante. Assomando sobre os draugr, ela via mais trolls mortos-vivos caminhando pesadamente em sua direção, a carne da cabeça de um deles descascada até o fim para revelar um crânio nu e incrustado de gelo. Acima de todos eles, demônios lançavam-se ao ar em batidas de asas coriáceas.

"Isto é loucura", murmurou Harald, segurando com mais força as rédeas conforme sua rena inquietava-se de um lado para o outro, sentindo o perigo.

"É", disse Kaya, puxando os machados que Tyvar lhe dera do cinto. "Provavelmente." Não ia a lugar nenhum, porém.

Estava observando os demônios subirem naquelas asas negras — por isso viu. Um padrão ondulante e de alongamento através do céu, como se o próprio ar estivesse ficando fino. Começou a rasgar-se, vertendo aquela luz divina — outro rasgo no mundo, como aquele de onde os draugr ainda derramavam-se. Havia algo diferente neste, porém. Onde o céu era mantido tenso, conseguia distinguir algo, pressionando a parte de trás do rasgo em desenvolvimento como uma mão contra o tecido. Com um som como trovão, ele se abriu.

Ficha de Espira de Koma | Arte de: Simon Dominic

A coisa que emergiu do rasgo tinha características que reconhecia — narinas chatas, um corpo enrolado, presas em arco impregnadas de veneno — mas nesta escala, pareciam alienígenas e estranhas. Não era simplesmente massiva, era continental. Não apenas uma cobra, mas a cobra; qualquer outra coisa uma pálida imitação, uma cópia menor. Parecia grande o suficiente para se enrolar em qualquer um dos galhos da Árvore do Mundo. O que provavelmente faz, pensou Kaya.

"Pelos Einir", sussurrou Harald, ao lado dela. "Koma. A Serpente do Cosmos."

Até a gravidade parecia temer aquela coisa — movia-se pelo ar quase com curiosidade, lançando uma sombra sobre metade do campo de batalha enquanto deslizava no alto. Kaya viu-a abocanhar um demônio corpulento no ar como se fosse um mosquito. Todo o caos da batalha desacelerou e silenciou conforme todos — mortos-vivos, elfos e humanos — pareciam prender a respiração enquanto ela passava.

Conforme a serpente alcançava o rasgo para Karfell, pausou. Aquelas narinas grandes e escancaradas dilataram-se uma vez, depois duas. Com velocidade aterrorizante e súbita, mergulhou no rasgo no mundo, esmagando dúzias de draugr próximos com um varrido incidental de sua cauda. Extensões intermináveis de serpente pareciam deslizar para dentro do rasgo gélido antes de ela finalmente sumir.

O alívio de Kaya foi tão grande que ela quase não notou os outros seres derramando-se do rasgo que Koma acabara de abrir. Anjos, pareciam ser, com grandes asas emplumadas de branco e preto e marrom e vermelho, armados e blindados, muitos deles rugindo com fúria súbita e surpreendente. Não anjos, ela percebeu após um momento — Valquírias. Inga lhe falara sobre elas. Árbitros de julgamento, guardiãs das almas heroicas lutando e banqueteando para sempre em Starnheim. Elas chocaram-se contra os demônios por cima, asas emplumadas emaranhando-se com membranas coriáceas conforme tombavam do ar juntas ou ricocheteavam em aço chocante.

Starnheim Desencadeada | Arte de: Johannes Voss

Apenas uma figura entre elas não tinha asas; pendiam, de fato, do braço de uma Valquíria, que os carregava para baixo perto de Kaya. Exatamente antes de atingirem o chão — talvez uns três metros de altura — o sem-asas soltou. O ar ao redor pareceu endurecer, então, condensando-se em estilhaços sólidos e refletores de — alguma coisa. Com a velocidade de um malabarista, agarraram e lançaram três deles. Cada um afundou no peito de um Torga morto-vivo massivo. Os trolls não apenas caíram, porém — estilhaçaram-se, como se fossem vidro sob um martelo.

"Belo truque", disse Kaya. "Quem é você?"

O estranho virou-se para Kaya, outro estilhaço tipo espelho na mão. Kaya ergueu as mãos por instinto; vira o que aqueles podiam fazer.

"Quem é você?" disse o estranho. Não notaram o draugr atrás deles, empunhando uma espada larga lascada e de aparência antiga. "Atrás de você!" Kaya mudou o aperto em seu machado e lançou.

O estranho inclinou a cabeça para longe da arma em arco — na direção certa, felizmente. O machado esmagou o rosto esquelético do draugr, derrubando-o no chão. Após um momento, ambos soltaram um suspiro.

"Sou Kaya", disse ela. "Você tem nome?"

"Niko. Niko Aris."

Aquele não soava como o nome de um kaldheimr. "Ótimo. Resolveremos o restante das apresentações depois."

Ficha de Estilhaço | Arte de: Aaron Miller

Kaya voltou-se para a massa de draugr e demônios. Algo surgia através da multidão em sua direção, lançando soldados cadavéricos para o ar conforme avançava em seu caminho. Varragoth — quem mais? — irrompeu das fileiras de draugr, parecendo mais uma besta selvagem do que um jarl demônio agora. A armadura de ferro que usava estava deformada, goivada e quebrada; em algum ponto do caminho perdera o seu machado. Sangrava de uma dúzia de ferimentos diferentes agora, mas ainda estava de pé. Agarrado às costas dele, com o cabelo ruivo escurecido de sangue e olhos desfocados, estava Tyvar.

Harald siseou uma palavra; cobras brotaram do chão, suas escamas costuradas com as mesmas letras rúnicas que ela vira sobre a própria magia de Tyvar. Envolveram as pernas de Varragoth, prendendo-o — até que ele as rasgou com as mãos nuas. Niko lançou um estilhaço espelhado em direção ao demônio, mas ele o aparou em uma das placas de ferro ainda fixadas ao seu braço, e ele ricocheteou inofensivamente.

Conforme Varragoth avançava, Kaya viu Tyvar enterrar aquela sua lâmina de latão na asa do demônio. Ele urrou de dor e fúria, esticando-se para trás para agarrar Tyvar — e tirando os olhos, por um momento, do restante deles. O que foi exatamente a oportunidade de que Kaya precisava.

É, estava tentando fazer a coisa de herói agora. Mas Kaya passara muito, muito tempo como assassina.

O movimento foi fluido, fácil, quase sem esforço; não exigiu faseamento nem poderes mágicos. Kaya deslizou para dentro, passou pelo braço livre de Varragoth, e passou um machado de forma limpa pela garganta dele. O demônio tropeçou para frente, ambas as mãos indo para a bagunça de sangue de piche subitamente jorrando do pescoço. Deu mais um passo, estendendo uma garra — e colapsou.

Kaya não teve tempo nem de exalar. Atrás deles veio um som súbito de correnteza, como água; acima, o céu ondulou com uma onda de cor, os mesmos verdes e roxos e azuis divinos que cercavam os deuses. Observou-a varrer sobre o grande rasgo no campo de batalha — aquele de onde os draugr ainda derramavam-se. Lentamente, como um ferimento cicatrizando, o rasgo começou a encolher e fechar.

Kaya não sabia se os draugr eram mortos-vivos sem mente, mas eram ao menos de raciocínio lento; não notaram seus reforços cortados. Através do campo, viu os demônios que não estavam engajados com as Valquírias levantarem voo, o pânico finalmente superando sua sede de sangue. Virou-se para encontrar Halvar de pé, a Espada dos Reinos apontada direto para o céu. Luz vertia dela em um fluxo ofuscante e caleidoscópico. Atrás dele, algo chamou sua atenção: movimento, em uma das janelas do vilarejo do outro lado da ponte. Lá, o rosto de lua e olhos arregalados de uma criança encarava, de boca aberta, conforme o deus da batalha selava os buracos no mundo. É, pensou Kaya. Esta renderá uma saga muito boa.

Halvar, Deus da Batalha | Arte de: Lie Setiawan

"No final", Tyvar dizia, conforme cruzavam o agora silencioso campo de batalha, tornado lamacento pelo pisoteio de incontáveis botas, "eu pessoalmente abati perto de cem draugr, e três demônios. Meu palpite, porém, é que contarão histórias sobre você por muito tempo. A mulher que matou Varragoth — Matadora do Senhor do Céu de Sangue. Ora, consigo quase ouvir agora!"

"Bem, certifique-se de que acertem os detalhes", disse Kaya. Tudo doía, cada centímetro dela sentia-se exausto, mas ela ainda não conseguia conter um sorriso presunçoso.

"Na verdade", disse Tyvar, pausando onde estava. "Não tenho certeza se estarei por perto para corrigi-los."

Kaya ergueu uma sobrancelha. "Indo a algum lugar?"

"Gostaria de ver o que há para ver, lá no seu Multiverso."

"Oh? Achei que você não estivesse interessado em transplanar."

Tyvar deu de ombros. "Me precipitei no julgamento. E você me ensinou o valor disso. Não estivesse você aqui, não sei o que teria acontecido aos nossos mundos. Caos e destruição, imagino, em escala ainda maior. Talvez haja um plano — um povo — lá fora que precise da minha ajuda. Como Kaldheim precisou da sua."

"E quanto a ser lembrado? Você está deixando toda aquela glória sobre a mesa", disse Kaya.

"Oh, não estou mais preocupado com isso. Não acredito que as pessoas aqui algum dia esquecerão o que você fez aqui", disse ele. Aquilo ainda podia pegá-la de surpresa — aquela maldita sinceridade dele. Era sem disfarces, este garoto, um livro aberto. Mas ele me salvou. Mais de uma vez. Imaginou que ele ficaria bem.

"Bem", disse ela. "Talvez eu te veja lá fora."

"Verá", disse Tyvar, confiante como sempre. "E na próxima vez, serão os meus feitos que entrarão para as sagas."

Chegaram a um tipo de encruzilhada — o que fora uma encruzilhada um dia, de qualquer forma. Agora estava juncada com o detrito da guerra: espadas e lanças, machados e elmos, mortos por toda parte. Draugr, sim, mas humanos e elfos, também. Um momento de silêncio pairou no ar.

Na encruzilhada esperava Inga Olhos-de-Runa, junto com os outros líderes dos clãs de Bretagard — Arni, Sigrid, Fynn. Ao lado do líder Kannah estava aquele estranho magricela, o que caíra do céu. Niko, era o nome deles.

Harald, também, estava por perto, ladeado por um séquito de guarda de honra em armaduras de bronze. Ele e Fynn encaravam-se com desprezo aberto, mas ao menos armas não haviam sido sacadas. Com o Doomskar terminado, os deuses haviam sumido. Partidos para outras tarefas, outros deveres — este canto de Kaldheim mal era o único que sofrera, Kaya supunha.

"Kaya. Tyvar", disse Inga, em modo de saudação. "Parecem ilesos."

"Mais ou menos", disse Kaya.

"Fico feliz."

"Rompemos as linhas draugr e expulsamos seu corpo principal", disse Sigrid. "Nossos batedores estão perseguindo os retardatários, mas nunca pegaremos todos eles. A menos que draugr derretam nos meses mais quentes, lidaremos com eles por anos. Mas qualquer problema que causem não será nada comparado aos demônios que escaparam."

Sigrid, a Favorecida pelos Deuses | Arte de: Johannes Voss

"É o mesmo em toda Bretagard. Provavelmente em todos os reinos", disse Inga. "As fendas ficaram abertas por muito tempo. Não há como dizer o que passou por elas."

"Eu, por mim, mal posso esperar para descobrir", disse Arni, sorrindo.

"Como vocês dizem, todos os reinos foram mudados pelo que aconteceu aqui. Os elfos retornarão a Skemfar, para cuidarmos dos nossos", anunciou Harald. "Não será simples, mesmo com o Doomskar terminado. Mas os feitiços dos nossos ancestrais são capazes de tais feitos e mais."

"Presumo que teremos que nos dar bem até lá", disse Fynn, com a mandíbula cerrada.

"O que você fará, Kaya?" perguntou Inga. "Você ainda tem um monstro para pegar, não tem?"

"É", disse Kaya. Não esquecera a coisa na caverna, embora parecesse que fizesse cem anos desde sua viagem com os Buscadores de Presságios. "Não há como dizer onde ele foi parar depois de tudo isso, porém. E tenho um palpite de que ele pode viajar muito mais longe do que apenas entre reinos."

"O que há além dos reinos?" perguntou Niko.

"Os planos. É tudo um pouco complicado", disse Kaya, acenando a mão. Estava cansada demais para explicar tudo de novo.

Mas Niko deu um passo à frente, uma ansiedade estranha nos olhos do estranho. "Estes planos. Existe um chamado Theros?"

Kaya olhou para eles surpresa. Era difícil acreditar naquele nome mencionado aqui, agora — mas então, o que sobre o dia dela fora fácil de acreditar? Mais um, pensou ela, e suspirou. "Provavelmente deveríamos conversar."

= Epílogo

Esika estava morrendo. Aquilo não deveria acontecer — ela era uma deusa. Fora por sua mão, de fato, que os deuses foram libertados de sua mortalidade, do envelhecimento, daquele fechamento final da escuridão. Fora Esika quem preparara a poção da divindade a partir da seiva da Árvore do Mundo, a bebida que mantinha a morte à distância, e no entanto ela conseguia sentir a vida escapando dela. Escorrendo por seus braços, seu corpo, seu rosto. Não conseguia mover as pernas — já teria caído ao chão agora, se o monstro que fizera aquilo não a estivesse segurando com uma garra de cor de carne crua. Inclinou-a para um lado, observando-a com aquelas órbitas oculares escuras e vazias. Encontrara-a, esta coisa, em seu santuário, o lugar onde ela extraía a seiva e preparava o Elixir do Cosmos. Ninguém — nada — jamais a encontrara ali.

Esika, Deusa da Árvore | Arte de: Collin Estrada

Uma voz subiu da garganta da criatura, então — um amálgama estranho de tons e entonações, como se as palavras tivessem sido roubadas de outras vozes, sintetizadas em algo novo. "Não há fome suficiente em você. Nem medo suficiente para sobreviver. Em breve, porém."

Soltou-a, então, e caminhou de volta para o poço que corria para o coração da árvore.

Esika tentou erguer os braços — nunca fora uma guerreira, não como Halvar ou Toralf, mas lutaria com tudo o que lhe restava para defender a Árvore do Mundo. Seus braços não obedeceriam, porém. Tentou gritar, chamar por ajuda, mas a única coisa que saiu foi um grasnido úmido e borbulhante.

Observou, impotente, conforme o monstro alcançava o poço. Que veneno ele usaria? Que corrupção semearia neste lugar mais sagrado?

Santuário de Tyrite | Arte de: Volkan Baga

Para sua surpresa, ele produziu um de seus próprios frascos. Deve ter pegado um dela durante a luta. Ela observou-o mergulhar o frasco no poço e erguê-lo contra a luz. Lá dentro, a seiva da Árvore do Mundo brilhava com todas as cores dos reinos. A coisa mais bela deste mundo — de qualquer mundo, no que dizia respeito a Esika. Se o monstro ficou comovido, não demonstrou sinal.

"Amostra adquirida", disse ele, naquela voz costurada. "Estou pronto para retornar."

Para quem ele estava falando, Esika não fazia ideia.

A luz na sala parecia estar sumindo, ou talvez fosse apenas sua visão apagando-se nas bordas. Subitamente, houve uma luz brilhante e estroboscópica no centro da câmara — um brilho vermelho sibilante e faiscante que começou como uma única estrela e espalhou-se, lentamente, em um círculo. O círculo alargou-se — aquilo não era nenhum Caminho de Presságio, ela via agora. Era magia que nunca vira antes.

Do outro lado do portal veio um som tão sobrenatural e estranho que ela quase não o reconheceu como uma voz: "Bem-vindo de volta, Vorinclex. Damos mais um passo em direção à perfeição."

Vorinclex, Salteador Monstruoso | Arte de: Richard Luong
05/02/2021 | Por Elsa Sjunneson

A Saga de Lathril

Lathril estava parada na entrada da caverna, suas veias pulsando com a magia que lhe fora concedida durante seu crisol. Flexionando os dedos, conseguia sentir como a transformação estava se fixando, cada músculo e cada osso, cada tendão em seu corpo mudando conforme ela se tornava mais que uma mera mortal. Estava assumindo o manto da divindade.

A decisão fora fácil de certa forma. Seu povo precisava de proteção, apoio, uma conexão mais forte com o divino. Houvera uma guerra não muito antes e, embora tivessem vencido, fora por uma margem pequena. Lathril nunca mais queria ver sua comunidade perder tanto, então encontrou uma maneira de proteger seu povo. Ela precisava. Pedira a um deus que os aceitasse, que os guardasse, e fez sacrifícios para que assim fosse.

Abriu os olhos para absorver os rostos da multidão que ela sabia que estaria esperando para conduzi-la de volta à vila em celebração. Algo estava diferente. Algo sobre o que conseguia ver. Soubera que mudaria, que algo nela não seria mais como era. As histórias eram claras: para tornar-se um deus, você perderia um pedaço de si mesmo. Aceitara que haveria um preço, mas não soubera qual seria.

Em vez de ver o mundo como sempre vira, seu foco estreitara-se. Conseguia ver o rosto da filha na multidão, borrado à distância, distinguindo-a por causa das roupas que vestia. Conseguia ver as árvores, mas em vez de folhas individuais serem distinguíveis umas das outras, via um borrão verde, retroiluminado pelo sol dourado. Era desorientador o mundo ser tão pequeno, especialmente porque sabia que era muito maior do que o que estava vendo agora. Virando a cabeça, conseguia captar mais rostos, mais corpos, mais borrões. O mundo tornara-se tão pequeno.

Mas ela ainda era uma deusa.

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Acordou no meio da noite com um focinho em seu rosto. Seu primeiro instinto foi buscar a espada ao lado da cama, mas seu caminho foi bloqueado~por pelo. Ainda não estava acostumada a virar a cabeça para olhar as coisas, mas uma vez que o fez, encontrou-se cara a cara com um par de olhos turquesa, postos no rosto de um belo lobo cor de cobre. Na fraca luz da vela, Lathril conseguia ver o pelo tricolor pelo qual os lobos de cobre eram tão conhecidos — uma camada superior branca com uma camada inferior em pratas e ouros e, claro, cobres. Seu pelo brilharia ao sol ou ao luar como um farol. O lobo acomodou-se ao seu lado, apoiou as patas sobre o rosto e foi dormir.

Lathril observou o quanto pôde, mas acabou dormindo. Afinal, o lobo não lhe fazia nada — estava estranhamente sem medo de que o lobo a atacasse durante o sono.

Não soubera quem a selecionaria, apenas que pedira em súplica para ser aceita. Havia apenas um ser divino que enviava crianças lobas aos seus escolhidos, e esse era Sarulf. Este devia ser um lobo dele. Essa era a melhor explicação que conseguia conceber.

Ela dormiu.

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Quando acordou na manhã seguinte e saiu de sua cama rasa, a loba arqueou as costas contra a palma esquerda de Lathril e caminhou ao seu redor enquanto ela saía do quarto para o solário situado no centro de sua casa. Fizera ajustes desde o Crisol, sinais táteis na parede para quando se visse incapaz de ver no escuro, trilhas para mantê-la orientada se não conseguisse encontrar o caminho (sem visão periférica, e a perda de certa distância, ainda estava se ajustando à sua nova realidade, mesmo em sua própria casa).

A loba ergueu a cabeça e gentilmente mordiscou sua manga, rasgando um pouco do tecido macio de sua blusa.

"Não coma minhas roupas, loba", ela rosnou, mas seguiu a direção em que a loba a puxava. Se nada mais, seria algo interessante ver para onde a loba queria que ela fosse em sua própria casa. Mas a loba a conduziu até a alta porta verde que levava à vila. Levou um momento para Lathril ajustar sua percepção ao que estava pendurado na maçaneta brilhante da porta — um arreio. Couro, liso e polido, com detalhes em metal brunido. A loba deslizou-o sobre a cabeça, então apresentou a alça, o movimento indicando que estava abanando a cauda. Era definitivamente uma "ela" pela energia.

O couro era liso e flexível, perfeitamente confortável em sua mão, como a empunhadura de uma espada projetada para seu portador. A loba patinou na porta, não arranhando, mas indicando polidamente que precisavam partir. Lathril estivera em aventuras por tanto tempo que teve o discernimento de agarrar sua espada ao lado da porta e embainhá-la na bainha em seu quadril. Aquela era uma das habilidades que não perdera, ao menos. Não precisava dos olhos para aquilo. Abriu a porta gentilmente com seu pé de bota verde e seguiu a loba para a luz do sol.

Quando cruzou o limiar, seus olhos reagiram instantaneamente, a dor fulgurando. Fechou-os e permaneceu imóvel, esperando que a sensibilidade à luz passasse rápido. O arreio em sua mão esquerda puxou para frente, um puxão que não era forte, mas que dizia para dar um passo, depois outro. Mesmo com os olhos fechados, seguia a loba no arreio pelo caminho. Interessante.

Ouvira dizer que os lobos às vezes escolhiam companheiros para si, frequentemente optando por ajudar aqueles que não conseguiam ver ou ouvir, ou cujas mentes haviam aprisionado seus traumas como memórias capturadas em âmbar por bruxas. Mas Lathril não esperava que ganhasse uma companheira própria. O arreio deu um puxão brusco para a esquerda e ela o seguiu, a mudança de seus quadris provavelmente sendo quase imperceptível, caso alguém estivesse observando. Décadas de luta de espada a tornaram ágil nos pés, e aquilo era apenas outra forma daquela mesma agilidade, ao que parecia.

Seus olhos finalmente se ajustaram, então ela os abriu. Viu-se surpresa. Não estavam onde ela pensava que estavam. Em vez de seguirem para a vila, estavam em um caminho indo para a floresta. Rochas cobertas de musgo ladeavam o caminho quase invisível que seguiam por entre árvores verdes e amarelas e cercas vivas baixas que tornavam o mundo um borrão verde.

À frente, havia uma figura. Lathril não conseguia distingui-la, estava longe demais, mas percebia ser uma figura solitária parada imóvel a certa distância, e que estavam indo direto para ela.

Conforme se aproximavam, as cores das roupas da figura tornaram-se mais identificáveis. Azuis profundos e marrons zibelina compunham as roupas da outra, e Lathril soube, sem precisar perguntar, quem era que a loba a trouxera para ver.

"Lathril! Você foi convocada. Bem. Você e sua loba — quando foi que esta loba chegou, a propósito?" disse Yadira, a líder de seu clã élfico. "Enfim, você foi convocada para lidar com um problema. Não faço ideia de qual, mas há uma porta que sua loba pode encontrar. Algo sobre caminhar entre mundos. Ela saberá para onde te levar. Apenas diga para ela te levar para onde você é mais necessária."

Lathril considerou aquilo. Onde ela era mais necessária. Soubera que haveria expectativas e necessidades para ela atender. Não esperara fazê-lo sem a maior parte de sua visão e com um lobo ao seu lado, mas sua vida nunca fora previsível.

"Tudo bem, loba. Você vai precisar de um nome. Leve-me para onde sou mais necessária." A loba deu um passo à frente, puxando forte o arreio, e Lathril a seguiu conforme um Caminho de Presságio se abria à frente delas, e cruzaram-no sem pausa ou pergunta.

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Caminhar pelo Caminho de Presságio era como caminhar por uma cachoeira feita de relâmpagos. Era tão oniconsumidor quanto uma cachoeira — seu corpo inteiro sentindo a sensação de caminhar através da água — mas não era água. Era energia.

Quando Lathril saiu do outro lado, suas roupas estavam secas, seu cabelo estava em pé e a loba rosnou. Depois que registrou o rosnado, porém, houve um som muito mais importante a ser ouvido.

Um grito.

A mão direita de Lathril foi para a espada em seu quadril, e ela a sacou, a espada descrevendo um arco sobre a cabeça da loba em um varrido elegante. A loba não reagiu até que ela estivesse pronta, então investiram juntas por entre galhos e árvores que as agarravam até alcançarem uma clareira. Um borrão no centro de outros borrões estava repelindo algo. Vários algos, descobriu-se, conforme Lathril e a loba se aproximavam.

Lathril, Lâmina dos Elfos | Arte de: Caroline Gariba

Parecia ser uma menina humana, talvez de 11 ou 12 anos. Parecer humana e ser humana eram duas coisas diferentes — quem sabia o que habitava neste reino desconhecido? Mas não importava realmente. Havia alguém aqui que precisava de sua ajuda. Lathril soltou o arreio da loba e entrou em ação.

"Fique atrás da loba, criança!" gritou ela para a menina obviamente aterrorizada conforme entrava na briga, deslizando diretamente para o combate.

Luta de espada enquanto cega funcionava melhor quando conseguia avaliar as lâminas deles, então moveu-se rapidamente para avaliar a situação. De perto, os algos eram definitivamente draugr e suas lâminas eram de um azul profundo e tão afiadas quanto qualquer coisa que ela já vira de perto. Mas suas habilidades eram refinadas ao grau que poucos conseguem dominar. Com um choque de sua espada na dele, ela se juntou a ele.

Poderia ter lutado com os olhos fechados. A tensão entre as lâminas era tudo para ela, a maneira como a lâmina dele pressionava a dela, a maneira como deslizava de volta para uma nova posição e parava o golpe. Um rosnado à sua direita avisou que alguém estava vindo, e ela deslizou sua adaga para fora de sua segunda bainha com a mão esquerda, enterrando-a no alvo invisível enquanto continuava a rebater seu outro oponente com a direita.

Quando suas espadas se encontraram novamente, ela deslizou para baixo e executou o tipo de desarmamento que torna difícil pegar uma espada novamente por meses a fio e, com um chute certeiro na cabeça, o outro alvo estava fora de combate. Quando se virou, com a respiração pesada da luta, o visual que localizou foi um que fez seu coração doer.

Sua loba, cintilando ao luar deste novo mundo, estava enrolada ao redor da jovem menina que soluçava em seu pelo.

Com alguns passos rápidos, chegou à loba e à menina, então ajoelhou-se.

"Posso te ajudar?"

A menina deu um suspiro profundo para se recompor e então olhou cautelosamente por cima dos ombros da loba. Seus olhos eram aqua sem pupila, tendendo ao branco.

"Levaram a minha loooooba!" a menina uivou, agarrando-se com mais força à nova que agora a reivindicara.

Esta criança não era uma criança cega qualquer perdida na floresta sozinha e, se Lathril sabia algo sobre o mundo a que pertencia, aquele lobo que roubaram não era um lobo normal.

Sarulf tinha crianças. Crianças lobas. E elas frequentemente protegiam magos talentosos. Esta criança tinha habilidades, mas teria que ser protegida de um mundo que lhe faria mal até que pudesse atingir a maioridade para assumir seu próprio poder. Era para isso que servia o lobo. Quem quer que fossem aqueles homens, tinham a intenção de fazer mal à menina.

"Você ficará conosco até que possamos te levar para a segurança", disse Lathril, olhando para a loba conforme ela rosnava gentilmente na direção do agressor inconsciente. "Sim, loba — cuidarei disso primeiro."

Trabalhou a neve sob os pés até alcançar os dois inimigos caídos, revistando o equipamento deles cuidadosamente em busca de corda e outras opções, finalmente recorrendo a amarrar suas mãos e pés com cintos e cadarços. Não aguentaria para sempre, mas o ferimento de facada e a concussão deveriam segurá-los por um tempo.

Quando se virou, a criança colocara a mão na alça que arqueava sobre as costas da loba, deixando o arreio livre para Lathril segurar enquanto caminhavam juntas.

Era um mundo estranho para onde tinham vindo. Neve cobria o chão em cristais azuis, brancos e roxos, mas se refletiam a luz de Starnheim, ou se aquela era simplesmente a cor do chão, estava além do conhecimento de Lathril. As árvores eram altas e finas, seus braços como dançarinos, ou lutadores, dependendo da interpretação. Estendiam-se e agarravam, gavinhas tentando impedir seu progresso através do chão da floresta. Lathril manteve os ouvidos alertas para o perigo, mas fora o triturar de oito pés conforme seu grupo avançava, havia pouco para ouvir.

"O que você pode me contar sobre este lugar? E qual é o seu nome?" Lathril perguntou.

A menina fungou.

"Lyana", warbelou ela, sugando o catarro pelo nariz dramaticamente, "e minha loba se chama Kit."

"Você deu à sua loba o nome de um gatinho, não deu?" Lathril brincou, tentando não rir. Sua filha uma vez fizera a mesma coisa.

A menina deu um risinho.

Atrás do risinho, houve um farfalhar, então um ganido suave da loba.

"Pare", Lathril sussurrou, parando e desembainhando sua lâmina novamente. Girou a cabeça em um círculo completo, seu corpo guiando lentamente seu olhar enquanto examinava a floresta, tentando verificar de onde viera o som. Nada.

"Vamos continuar nos movendo. Para onde estamos te levando, Lyana?"

"Para a vila, onde eu moro. É por entre as árvores. A loba sabe para onde ir. Todas sabem."

Se não tivesse sido em uma voz tão agradável e doce, Lathril teria achado a implicação sinistra. Mas seguiu o puxão constante da loba pela floresta, de vez em quando ouvindo um farfalhar nas árvores, indicando que provavelmente estavam sendo seguidas. Logo o suficiente, chegaram à borda de uma vila.

Conforme entravam na vila, ela percebeu um círculo de cabanas de madeira e pedra ao redor de um fogo central, estendendo-se mais longe no que ela assumiu serem mais círculos de estruturas. Caminharam em direção à primeira pessoa que viram junto ao fogo.

"Acredito que encontrei uma de suas crianças", Lathril disse à alta anciã, ocupada cuidando das chamas. A anciã virou-se, sobressaltada pela intrusão súbita.

"Ora, sim, encontrou", disse a mulher, fitando Lyana com leve desaprovação na voz. "Lyana, onde está Kit?"

"Estávamos passeando quando fomos atacadas por draugr e um deles a agarrou e saiu correndo com ela para o norte." Criança observadora, Lathril notou.

"E o que você fez?" a anciã perguntou.

"Tentei repeli-los, e então ela veio", Lyana disse naquele tom acusatório que transmitia afeto, aprovação e a pitada de desgosto pelos adultos que todas as crianças tinham. "E ela me trouxe de volta e agora eu gostaria da minha loba de volta."

"Eu posso fazer isso. Fui trazida aqui pela minha", Lathril se viu dizendo, pensando em quão afortunado fora ela ter aparecido quando apareceu. Esta era a busca que lhe fora enviada.

"Qual é o nome da sua loba?" a menina perguntou, com mais acusação na voz.

"Ela ainda não me contou", Lathril respondeu, honestamente.

"Ela contará."

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Após fazer seu caminho de volta pela floresta, sem a criança, Lathril encontrou-se na borda de uma clareira com sua loba, escondida entre o que eram certamente arbustos assombrados. Tinham galhos finos com casca branca e cinza, e suas folhas eram pretas e não captavam cor nenhuma, mas de perto, Lathril conseguia ver que tinham veios brancos.

No centro da clareira, havia uma estaca no chão com uma longa corrente preta presa a ela. Na ponta daquela corrente estava um lobo, um pequeno. Sob a lua brilhante e a luz bruxuleante da fogueira, ela era mais dourada que a de Lathril.

Perto do fogo, um homem cuidava de uma estocada no braço enquanto outro sorvia de um berrante. Não era o mesmo homem que ela chutara na cabeça mais cedo, então assumiu que ele fora recolhido na tenda à esquerda de seu esconderijo. Se aguçasse os ouvidos, conseguia ouvir roncos.

Lathril acomodou-se no chão frio, cuidadosa para não fazer um som, e esperou. Sabia que os homens teriam que dormir. E, eventualmente, dormiram. Levou horas de vigia, mas o fogo começou a baixar e as brasas brilhavam ao lado de seus corpos adormecidos. Sem o arreio na mão, Lathril deslizou para frente. A loba esgueirou-se para frente também, enrolando-se ao redor da filhote para proteção conforme Lathril trabalhava com sucesso na fechadura da corrente da pequena. Com um olhar para sua loba, começou a recuar lentamente.

Conforme iniciavam sua fuga, uma tosse veio da tenda. Um chiado e um xingamento.

Todos congelaram.

Lathril teve que virar-se completamente para encontrar-se agora observando o homem que chutara saindo da tenda, as mãos esfregando a cabeça. Moveu-se o mais silenciosa e rapidamente que pôde, tentando vigiar os cantos, mas não foi rápida o suficiente. Uma mão disparou para frente, agarrando seu cotovelo direito antes que ela pudesse sacar sua espada.

Mais uma briga de rua do que uma luta de espada, então, pensou ela. Seus instintos assumiram. Joelhada no estômago, ombro para frente, então salto para trás. Feche os olhos porque eles não são mais úteis de qualquer forma. Sinta o ar conforme ele balança um golpe em direção ao seu rosto, então agarre, torça, derrube. O quase silêncio com que a luta foi conduzida deixou claro que ele fora pego de surpresa. O baque final do ar saindo dele, como um travesseiro mal fofado, conforme ele jazia agora na neve foi sua deixa. Olhos abertos e corra.

A corrida pela floresta foi a primeira vez que ela se permitiu mover-se mais rápido que o passo reservado a pessoas cegas. As árvores pareciam inimigas, invadindo seu campo estreito, e ela ficou desorientada rapidamente. Onde estavam os lobos? Onde estava a vila? Onde estavam os inimigos que certamente viriam atrás dela?

Lathril girou, agarrando galhos e olhando freneticamente de um lado para o outro, parando finalmente em pânico total. Não sabia onde estava nem para onde podia ir.

Até que percebeu estar exatamente onde deveria estar.

À sua frente, um lobo gigante enrolado no meio de uma clareira, e os dois lobos com quem ela escapara curvavam-se profundamente diante dele. Seus olhos brilhavam com poder.

Sarulf, Devorador de Reinos | Arte de: Chris Rahn

Lathril sabia reconhecer o poder quando o via. Baixou o queixo até o peito e então fez uma reverência, mãos o mais longe que podiam estar de suas armas.

Você resgatou um dos meus filhos daqueles que fariam mal à matilha. Você aceitou aquela que lhe enviei. O nome dela é Lukya.

Lathril não falou nem fez contato visual direto com o lobo à sua frente.

"Eu resgatei, e aceito o presente que ela me deu em seu serviço", disse ela, conforme Lukya fazia o caminho de volta para postar-se ao seu lado esquerdo.

Como outro presente para você, qualquer um de sua espécie poderá caminhar em segurança por minhas terras e se comunicar com minhas feras, independentemente de carregarem minha bênção.

Lathril assentiu novamente.

"Devolveremos Kit ao seu humano."

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Kit, a pequena loba, correu a toda velocidade em direção à sua pessoa. A menininha rolou e tombou com sua loba no centro da cidade. Agiam como filhotes de lobo, borrões alegres fundindo-se com a multidão que os cercava.

O Caminho de Presságio estava abrindo, e Lathril caminhou através dele, com sua nova amiga em segurança ao seu lado.